Erlon Couto, de Volta Redonda

Em 1988, durante o governo de José Sarney, os metalúrgicos da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) realizaram uma greve histórica. Os operários decidiram cruzar os braços e ocupar a usina para reivindicar a recuperação de suas perdas salariais, anistia aos trabalhadores demitidos em outras greves e a implementação do turno de 6 horas.

O país ainda vivia os tempos da “redemocratização”, mas o que predominava ainda era a brutalidade da ditadura. Durante a greve a usina foi cercada pelo exército e a Polícia Militar. Tanques, metralhadoras e centenas de soldados sitiaram toda Volta Redonda. No dia 9 de novembro, com autorização do governo, os militares invadiram a empresa e atacaram os metalúrgicos. O resultado foi trágico: três operários foram assassinados e outros 40 ficaram feridos.

Com a repressão, mobilização pela continuidade da greve passou a envolver toda a cidade. A repressão e a morte dos operários comoveram o país e tiveram repercussão internacional. Carlos Augusto Barroso, 19 anos, Walmir Freitas Monteiro, 27 anos e William Fernandes Leite, 22 anos, assassinados pela brutal repressão, tornaram-se mártires do movimento.

O governo Sarney ameaçava a cidade falando em privatizar ou extinguir a CSN. No dia 23 de novembro, após 17 dias, a greve chega ao fim. Os metalúrgicos saem com um sentimento de vitória sobre o governo Sarney e o exército, conquistando o turno de 6 horas, a anistia dos demitidos e uma reposição parcial de suas perdas salariais.
No entanto, não houve punição aos responsáveis pelo assassinato dos operários. Nenhum militar foi punido. O general José Luís Lopes da Silva, que comandou a invasão, chegou a ser nomeado juiz em 1999, indicado ministro do Superior Tribunal Militar e pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Lembro do 9 de Novembro com muita emoção. Os trabalhadores travaram uma batalha contra seus opressores. Naquele tempo quem mandava no sindicato eram as assembléias de base. Diretor tinha que estar no chão na fábrica dialogando com o peão”, afirmou o ex-diretor do sindicato na época, José Carlos Máximo Barbosa, o Carlinhos.

Indignado com o discurso de “parceria” da atual diretoria do sindicato, Carlinhos recentemente ingressou na Oposição Metalúrgica/Conlutas. “Olho com tristeza e indignação o nosso sindicato assumir um discurso de ‘parceria´ com a CSN e demais empresas da região. Conhecendo a Conlutas/ Oposição Metalúrgica, logo de cara percebi que ainda havia esperança de resgatar nosso sindicato pro campo das lutas e da democracia operária”, concluiu.

Saiba mais

  • Greve em música

A banda de rock Garotos Podres, em homenagem aos três operários assassinados, criou a belíssima música “Aos Fuzilados da CSN”. Um dos trechos da música diz: “Fuzilados da CSN, assassinados no campo/torturados no DEOPS, espancados na greve/A cada passo desta marcha/ Camponeses e operários, tombam homens fuzilados/ Mas por mais rosas que os poderosos matem/ nunca conseguirão deter a Primavera!/ Pois o futuro vos pertence! (coro)/ Pois o futuro vos pertence! (coro)”

  • • Explosão de monumento

Outra homenagem aos três operários mortos, foi o monumento erguido por Oscar Niemeyer, inaugurado no dia 1º de maio de 1989 no centro da cidade de Volta Redonda. No entanto, para desmoralizar e amedrontar os trabalhadores, o monumento foi implodido durante a madrugada do dia seguinte. Ninguém foi preso.

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