Vale: exploração garante os lucros dos acionistas estrangeiros

A Conlutas e diversas organizações sindicais, como o Metabase (sindicato dos trabalhadores mineiros) de Congonhas e Itabira (MG), participaram, com organizações de trabalhadores da Vale do Canadá, Chile, Argentina, Guatemala, Peru e Moçambique, do I Encontro Internacional dos Atingidos pela Vale. O evento se realizou no Rio de Janeiro, até 15 de abril, preparando a luta unificada contra a política predatória da mineradora. Apresentamos aqui um raio-X dessa empresa que, 13 anos após sua privatização, explora cada vez mais seus trabalhadores no mundo inteiro para alavancar ainda mais seus lucros

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Na primeira semana de abril, a Vale conseguiu reajustar o preço do minério de ferro em torno de 100%. Imediatamente, se levantou um protesto internacional por parte das siderúrgicas, montadoras e empresas em geral contra oligopólio formado por três empresas fornecedoras de minério de ferro (Vale, BHP e Rio Tinto) que dominam 75% das vendas deste produto no mundo.

A atitude revela o funcionamento anárquico do sistema capitalista internacional: o mundo ainda está imerso na maior crise econômica que se viu desde a Grande Depressão, com o mercado abarrotado de produtos que não se consegue vender, e as mineradoras dão um tiro no pé (dos outros capitalistas).

Para se ter uma ideia da superprodução de mercadorias, somente a indústria automobilística pode produzir 35 milhões de veículos que não se pode vender. É a produção do Brasil por mais de dez anos! O aumento da matéria-prima do aço vai aumentar o preço dos veículos e acelerar a crise das empresas.

Este aumento também elevará a inflação nos países: no Brasil, se estima um crescimento de 2% este ano.

A Vale consegue impor este aumento porque a China está comprando todo seu minério. EUA e Europa continuam em agonia econômica, por isso há uma gritaria generalizada da patronal nos países imperialistas.

Uma corporação transnacional
A Vale completou 67 anos em 1º de junho de 2009. Hoje, é uma das maiores companhias do mundo. Um conglomerado formado por dezenas de empresas atuando em 35 países, nos cinco continentes. Tem 145 mil funcionários (mais da metade terceirizados) e 80% trabalham no Brasil.

Só para comparar, a Vale estava valendo mais de 100 vezes do que a GM mundial, no período da concordata. Agora, depois de recuperada, a montadora está sendo avaliada em 40 bilhões de dólares. Mesmo assim, a Vale tem hoje três vezes o valor de mercado da que foi, durante décadas, a maior empresa do mundo. Segundo a consultoria Economática, em fevereiro de 2010 o valor de mercado da Vale era de 135 bilhões de dólares.

Para se ter uma ideia de grandeza, os investimentos da Vale no Brasil em 2010 devem alcançar o montante de 8 bilhões de dólares, enquanto todas as montadoras de automóveis no Brasil investiram 2,3 bilhões no ano passado.

A empresa deu um salto nas suas vendas a partir de 2003, quando se colou no desempenho fantástico da China como “fábrica do mundo”. A Vale soube aproveitar a nova divisão internacional do trabalho, surgida com a restauração capitalista na URSS, na China e no Leste Europeu.

Nesta nova configuração da economia mundial, a Vale e o Brasil se especializaram como fornecedores de matéria-prima para o desenvolvimento industrial do mundo. A empresa aproveitou bem este longo período de auge da economia mundial e teve crescimento médio de 48% ao ano. A Vale se localizou no circuito mundial, se tornou uma corporação transnacional, onde grandes investidores internacionais adquiriram a maioria das ações, alavancando seu crescimento espetacular.

O lucro líquido da empresa, desde a privatização em 1997, cresceu a uma média anual de 40%.

A crise econômica e a Vale
Aos primeiros sinais da crise, a Vale reduziu drasticamente os investimentos (de 14 bilhões de dólares previstos caiu para 9 bilhões de dólares em 2009) e demitiu 2 mil trabalhadores diretos e 13 mil terceirizados.

Em 2009, a companhia economizou com a demissão de trabalhadores diretos o valor de 200 milhões de dólares. Também economizou 616 milhões de dólares com a demissão de terceirizados. O total de economia foi de 816 milhões de dólares.

A Vale descarregou os efeitos maléficos da crise sobre seus funcionários, os trabalhadores terceirizados e os municípios mineradoras.

Apesar da crise…
Se a Vale foi inclemente e brutal contra seus trabalhadores, soube preservar e cuidar muito bem dos seus acionistas e dos seus executivos.

Apesar da queda da produção de minério de ferro e da diminuição das vendas e lucros em 2009, os donos da Vale decidiram pagar a eles mesmos, em 2009, 2,7 bilhões de dólares, a mesma quantia que receberam em 2008, ano recorde de produção e lucros.

Os altos executivos da Vale também foram premiados pelo seu ótimo desempenho. Os seis diretores executivos receberam em 2009 cerca de 40 milhões de dólares, isto é, 6,6 milhões de dólares para cada executivo.

Qual é o segredo da Vale
A alta produtividade do trabalhador e a exploração da mão de obra garantem os espetaculares lucros da mineradora. Vamos mostrar a exploração do trabalhador da Vale em Carajás, no Pará, maior província mineral do mundo, onde a Vale aposta todas as suas fichas.

Segundo Relatório de Produção da Vale em 2008, as minas de Carajás produziram e venderam 96 milhões de toneladas com 6.656 trabalhadores diretos. Isto significa que cada funcionário da Vale em Carajás produziu, em 2008, 14 mil toneladas de minério de ferro.

Ao preço médio de 67,32 dólares a tonelada, cada trabalhador gerou 975.938,00 dólares em 2008, ou cerca de 500 dólares por hora. Cada trabalhador de Carajás gerou quase 1 milhão de dólares para a empresa naquele ano.

No entanto, o salário de um trabalhador mal chega a R$ 1.500. Somando PLR (quatro salários) mais encargos mensais de R$ 900, a Vale gasta com um funcionário cerca de 23 mil dólares por ano.

Isto significa que, em quatro horas de trabalho, o funcionário paga seu salário mensal, uma verdadeira mina de ouro para os donos da Vale.

Os municípios mineradores
O pagamento de royalties da Vale aos municípios mineradores é pequeno em relação aos seus ganhos, como mostra a tabela abaixo, no exemplo de Parauapebas, em Carajás.

Devido à ganância da empresa, que se recusa a ajudar os municípios, os problemas sociais se agravam em Parauapebas, onde somente 54,49% dos domicílios são atendidos pela rede de abastecimento de água e 9,1% dos domicílios têm acesso a rede de esgotos. A educação no município está piorando, pois não consegue acompanhar a demanda de milhares de novos moradores que chegam à cidade. A deficiência da saúde é visível: existe apenas um hospital municipal que não tem condições de atender à demanda.

Desta forma, os trabalhadores sofrem uma dupla exploração: no local de trabalho, como funcionário, e no local de moradia, como cidadão.

Os municípios mineradores tentam aprovar uma lei que aumenta a Contribuição Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) de 2% para 6% com o intuito de diminuir a ação destrutiva da mineração sobre a população e o meio ambiente dos seus municípios. Infelizmente, nem senadores, nem deputados, nem o governo Lula se sensibilizaram com o assunto.

Provavelmente, essa falta de interesse é provocada pelas polpudas contribuições eleitorais que a Vale fornece em anos eleitorais.

Em 2008, a campanha de Lula recebeu R$ 4 milhões da Vale, sendo R$ 1,8 milhão através da CAEMI e R$ 2,2 milhões através da MBR. Na Câmara dos Deputados, a Vale garantiu a eleição de 46 deputados federais, doando R$ 8,7 milhões.

Privatização aumentou a exploração
O segredo do sucesso da Vale resulta da abundância de recursos naturais de que dispõe, recebidos quase de graça na privatização, uma técnica que conta com os últimos avanços da ciência e uma alta produtividade dos seus trabalhadores, que recebem salários de terceiro mundo.

Com esta base, tornou-se uma grande corporação internacional, disputando o posto de primeira mineradora do mundo. Nos anos que se seguiram à privatização (1997-2000), o lucro líquido da empresa somou 3,3 bilhões de dólares, valor superior ao que foi pago no leilão de privatização, em 1997.

O valor de mercado da Vale saltou de 9 bilhões de dólares em 2001 para 201 bilhões em 2008. Seu valor de mercado cresceu 22 vezes em um lapso de oito anos!

Também podemos ver o quanto a população brasileira perdeu com a privatização da Vale. Desde sua venda, a empresa lucrou 45,8 bilhões de dólares. Com este dinheiro, poderiam ser assentadas todas as famílias sem terra do Brasil, estimadas em 4,5 milhões, por meio de um amplo projeto de reforma agrária.

gráfico controle acionário Vale

Quem são os donos da Vale hoje
A Vale entrou no circuito mundial como fornecedora de matéria-prima para o desenvolvimento industrial do mundo, especialmente da China. Nesta condição, se abriram todos os caminhos para ela, inclusive muitos investimentos internacionais.
Em 2008, a Vale vendeu 293 milhões de toneladas de minério de ferro. Este minério bruto, sem industrializar, tem o mesmo valor que 13 milhões de toneladas de minérios manufaturados.

Esta especialização da Vale, como produtora de matérias-primas, é prejudicial ao conjunto da economia do Brasil, que terminará exportando produtos básicos e terá que importar produtos industrializados, portanto, mais caros.

Quem determina o que produz a Vale são os acionistas estrangeiros. Para conhecer os verdadeiros donos da Vale, basta ler a Ata da Assembleia de Acionistas do dia 16 de abril de 2009, onde aparecem os nomes dos principais acionistas estrangeiros: Citibank, HSBC, J. P. Morgan Chase, Barclays, Fidelity Management, Vanguard Emerging Markets, Morgan Stanley, Templeton, entre muitos outros fundos, principalmente americanos.

É tão grande a alienação dos papéis da Vale que as transações com suas ações já alcançam 1 bilhão de dólares por dia em Nova York, quantia muito superior ao que é negociado na Bolsa de Valores de São Paulo.

Só a reestatização pode garantir a soberania nacional
Com a privatização, a Vale se transformou numa máquina de gerar lucros para seus novos donos. O lucro é o princípio, o meio e o fim das atividades da empresa.
A venda da Vale foi o auge de um processo de recolonização do Brasil e de perda da soberania nacional.

Quando Lula assumiu o governo, boa parte da população acreditava que ele reverteria as privatizações. Porém, já no mandato, o PT e a CUT se adaptaram ao sistema e governaram para as grandes empresas e as transnacionais que dominam a economia brasileira.

O governo chega até ao absurdo de emprestar dinheiro do BNDES, como foi o empréstimo de R$ 7 bilhões à Vale em abril de 2008, e a mineradora teve a cara de pau de usar este dinheiro para demitir trabalhadores.

Lula, ao se aliar às grandes empresas internacionais, abandonou a luta pela soberania nacional. Por isso, se nega a reestatizar as grandes companhias industriais, que formavam a base da economia brasileira e hoje são de propriedade dos grandes bancos internacionais.

A burguesia brasileira há muito tempo abriu mão de um papel independente na história. Associou-se ao capital internacional, comendo as migalhas caídas do banquete imperial.

A luta pela verdadeira independência nacional está nas mãos dos trabalhadores, da população pobre, dos negros, das mulheres, da juventude pobre e dos indígenas, dos pequenos produtores rurais, isto é, dos que sofrem com a exploração e a opressão.

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    Post author Nazareno Godeiro, do Ilaese, e Dirceu Travesso, da Executiva Nacional da Conlutas
    Publication Date