Foto Paulo Iannone/Sindicato dos Metroviários de SP

Camilo Martin, metroviário e militante do PSTU

Estamos em um momento bastante difícil da campanha salarial. Um teste de nervos para a categoria metroviária diante da intransigência de Dória e do Metrô em negociar. Na última terça-feira (07/07), a maioria da categoria optou por suspender a greve e buscar uma nova tentativa de negociação. Defendemos e votamos pela greve e continuamos achando que o melhor caminho para resistir ao calote e a destruição do nosso Acordo Coletivo, do Metrus e do sindicato e, inclusive, defender nossos empregos, é organizar uma forte greve que dispute a opinião pública para tentar fazer Dória e Silvani abrir negociações e recuarem de suas maldades. Essa posição foi minoritária na categoria e respeitamos isso, a democracia de base é soberana.

Diante disso, achamos que precisamos manter nossa mobilização e organizar os próximos passos da nossa campanha. Entendemos também que existe a frustração de um setor amplo que, assim como nós, entendia a greve como melhor caminho. Fazemos um chamado a toda categoria: é preciso neste momento, aprofundar nossa unidade, levantar a cabeça e aumentar a mobilização pela base. Todos nossos esforços estarão voltados para isso. Nossa força é coletiva e por isso que nas últimas campanhas o Metrô e Dória tem sempre atuado para dividir a categoria e nos colocar contra a opinião pública. Façamos o caminho inverso: mantenhamos a unidade, vamos fortalecer a mobilização pela base no caminho da ação direta e aprofundar a disputa da opinião pública. Esse é o caminho neste momento para resistir aos ataques.

Dória e Silvani aproveitam a pandemia para “passar a boiada de ataques”

Desde o início da pandemia, Dória e Silvani tem demonstrado sua intransigência em dialogar com os metroviários. Não aceitaram a participação de representantes da categoria no comitê da COVID-19 da empresa e todos os equipamentos de proteção individual que conseguimos, assim como os afastamentos, foram conquistados a partir da nossa pressão direta ou via jurídica.

Temos trabalhado desde o início da pandemia, arriscando nossas vidas e das nossas famílias. Já são centenas de afastados e doentes e, inclusive até o momento, 1 morto. As notas e vídeos de agradecimento em redes sociais não passaram de campanha corporativa para disputar a categoria e a campanha salarial deixou claro que Dória e Silvani querem se aproveitar da pandemia para realizar ataques que vem preparando nos últimos anos, para pavimentar o caminho da privatização. Disseram literalmente em uma das negociações: “Queremos cortes estruturais na folha e não apenas para o período da Pandemia”. A argumentação de que houve menor arrecadação na pandemia não passa de uma desculpa de ocasião.

O governo e a empresa enxergaram na desgraça da atual situação e na insegurança que a pandemia traz consigo, um momento privilegiado para destruir 40 anos de conquistas dos metroviários. Isso expressa um sadismo e falta de humanidade dos gestores do capital porque enxergam, por trás dos trabalhadores que se expõe ao risco todo dia, apenas cifras, números.

Metrô e governo estão intransigentes! O sindicato tentou negociar de todas as formas: uma retrospectiva dos fatos!

Desde o início da pandemia o sindicato vem tentando negociar com a empresa para garantir condições de saúde e segurança no trabalho e, na campanha, garantir a manutenção de nossos direitos. Acompanhe:

– 20/03: Sindicato consegue liminar para afastamento dos funcionários grupo de risco. Metrô se negava a afastar.

– 20/03 Sindicato envia ao governo e diretoria do Metrô: Plano de Emergência no Transporte. Não respondido até hoje.

– 01/04 Metrô retira direitos de quem está afastado se utilizando da MP 927 e segue a privatização das bilheterias.

– 08/04 Metrô recorre ao TST ganha direito de não oferecer EPI’s aos terceirizados.

– 24/04 Sindicato pede prorrogação do acordo coletivo. Metrô se nega a prorrogar e diz que negociações estão suspensas.

– 28/04 Sindicato ganha na justiça prorrogação do acordo. Metrô recorre e em 29/05 caça a prorrogação do acordo.

– 11/05 Metrô apresenta proposta: 0% de reajuste, Exclusão ou alteração de 29 itens do acordo, gerando rebaixamento de remuneração e diminuição de repasse do Metrus.

– 13/05 Categoria abre mão de reajuste e propõe que negociações da campanha salarial ocorram somente ao final da Pandemia. Metrô nega.

– 29/05 Metrô caça prorrogação do acordo no TST (conseguida pelo sindicato em 28/04)

– 12/06 Em reunião com o secretário de Transportes Metropolitanos e o presidente do Metrô, sindicato propõe ultratividade do acordo vigente e abertura das negociações. Metrô nega e anuncia confisco de parte dos salários no dia 30/06.

– 22/06 Primeira reunião de negociação, imposta pelo Metrô. Reafirma cortes já a partir de 30/06

– 29/06 Sindicato propõe suspensão dos cortes no pagamento para seguir a negociação. Metrô nega.

– 30/06 Calote: Metrô confisca parte dos salários

– 30/07: Em audiência de conciliação Metrô se nega a pagar o que deve para seguir negociação. Ainda assim, categoria adia a greve para seguir negociação no dia 01/07 que segue o impasse.

– 06/07: Impasse segue. Como contraproposta sindicato sugere corte de salários dos “ad nutum” (funcionários não concursados) e Gratificação de funções e ampliação do subsídio do Estado. Metrô não aceita pagar o calote que deu na categoria para seguir as negociações e nega corte de privilégios da alta chefia.

Esta retrospectiva demonstra que mesmo antes da campanha salarial, Dória e Silvani assumiram uma postura intransigente desde o início da pandemia. Ao iniciar a campanha, a categoria por diversas vezes buscou a negociação. Propôs adiar a campanha salarial e abrir mão do reajuste. O metrô não aceita e, na verdade, já decidiu que irá atacar os direitos da categoria se aproveitando da pandemia. O que eles chamam de negociar é, na realidade, escolher o que vão nos roubar. Isso não é negociação é um assalto de quem está arriscando a própria vida para seguir trabalhando.

É preciso retomar o caminho da mobilização, apesar da majoritária do sindicato (Chapa 1 – PCdoB/PT/PSB)!

Respeitamos a decisão da categoria, mas queremos apontar um caminho diferente. Na última votação os companheiros da Chapa 1 tiveram uma posição equivocada, que contribuiu para atrapalhar a organização da categoria, ampliando um justo receio que existe entre os nós e semeando ilusões de que ainda havia condições de negociação. Isso contribuiu para dividir a categoria e desmobilizar um setor em um momento central.

Isso aconteceu porque ao invés de buscar organizar a mobilização da categoria e prepará-la para greve, os membros da Chapa 1 acreditavam que um acordo com a direita em torno da MP 936 (que destrói uma série de direitos dos trabalhadores) pudesse garantir a ultratividade a categoria. Orlando Silva do PCdoB foi o relator que unificou “esquerda” e direita em torno a uma MP que arrebenta os direitos dos trabalhadores. Como era esperado, Bolsonaro sancionou a MP 936 e vetou o artigo da ultratividade, que teoricamente poderia ser usado pelos metroviários. Mais uma vez a política de conciliação e a esperança de que se poderia confiar nos de cima para garantir nossos direitos se mostrou estéril e nos deixou na mão.

Diante do fracasso da aposta que fizeram no primeiro momento da campanha, a CTB/CUT  (chapa 1) está propondo um caminho para categoria que, no final, vai significar entregar direitos sem lutar. Ou seja, estão preparando a categoria para aceitar o ultimato de Dória e o Metrô e fazer com que o sindicato cumpra o papel de ser um mediador de conflitos ao invés de ser uma ferramenta para organizar a luta. É este o caminho que a Chapa 1 (CTB e CUT) está propondo. Não estamos de acordo que o sindicato deva cumprir esse papel e, se seguirmos esta estratégia seremos derrotados.

Entregar direitos sem lutar não é o caminho!

Estamos em um momento crucial. Sabemos que a luta que temos pela frente é dura, mas também temos consciência que não existe atalhos. Se deixarmos de lutar, perdemos por W.O.  Não temos acordo que a melhor saída é entregar parte dos nossos direitos sem lutar. É fundamental retomar a organização de base com força: setoriais, passagens em linha, bases de tráfego, segurança e pátio – com todas as garantias de saúde – para organizar o caminho da greve.

Dória e o Metrô viram na pandemia uma janela de oportunidade para fazer passar um pacote de maldades que estão sendo preparado há muito tempo para avançar na privatização do Metrô. Isso significa cada vez mais redução de direitos, de condições de trabalho e demissões. Isso já é aplicado aos funcionários mais novos.

O Metrô não é uma ilha. Dória aqui e na CPTM seguem os mesmos passos que Bolsonaro e o conjunto dos capitalistas: usar a pandemia para retirar direitos. Não é justificável ou humanamente aceitável que qualquer trabalhador perca emprego ou tenha seus direitos retirados ou salários confiscados no mesmo momento que grandes empresas privadas seguem drenando recursos públicos. Em março, por exemplo, Bolsonaro destinou R$ 1,3 trilhão para os bancos e, agora, com a MP 936, que diga-se de passagem foi votada por toda a direita e toda a suposta “esquerda” (PT, PCdoB e PSOL), garante isenção aos empresários até o fim do ano enquanto permite corte de salários.

Aqui no Metrô, os ataques acontecem ao mesmo tempo em que há supersalários na alta chefia da empresa, com a imoralidade do presidente Silvani Alves Pereira receber dois salários por duas funções diferentes e no mesmo ano em que o estado de São Paulo já abriu mão de R$ 17,4 bi em renúncia fiscal em favor das grandes empresas privadas. Ou seja: não é um problema de grana. É um projeto pro transporte.

Nossa proposta concreta se resume a subsídio público para o metrô público e corte de salários e desligamento dos “ad nutum” e gratificações de função que permitem aos gerentes, diretores e especialistas chegarem a salários astronômicos, muitas vezes superiores ao teto do estado. Existe orçamento para oferecer subsídio. Inclusive essa é a ampla realidade mundial no transporte sobre trilhos que, inclusive, é capaz de gerar economias com sua existência. Em relatório do próprio Metrô datado de 2018, ele foi responsável por economia com outros possíveis gastos com o Estado na ordem de R$ 12 bilhões. A contradição maior inclusive é que o Estado apesar de não subsidiar o Metrô público, subsidia o privado, drenando dinheiro público para a CCR e, inclusive, abriu mão de processar a Bombardier pelos problemas encontrados no monotrilho.

Nossa campanha é uma batalha na guerra contra a privatização. Contra este projeto estamos propondo um projeto de transporte que esteja a serviço dos trabalhadores e, nesta batalha contra os ataques, é hora de unificar a categoria e preparar uma forte greve para disputar a opinião pública e exigir subsídio e fim dos supersalários.