Uma polêmica necessária

A Conlutas está se consolidando como uma referência para os lutadores sindicais, populares e estudantis que querem construir uma alternativa nacional perante a falência da CUT e da UNE. Vai realizar um congresso que pode reunir mais de quatro mil delegados. Nada semelhante acontecia no país desde a burocratização da CUT.

Além da unificação das lutas, a Conlutas também é um espaço democrático em que o debate é bem vindo. Vão ser debatidas no congresso cerca de 20 teses, das mais distintas posições.

Por isso é natural o surgimento do texto assinado por algumas correntes do PSOL (MES-MTL em particular) “A proposta do ELAC não ajuda a luta dos trabalhadores e dos povos latino-americanos”. Como o texto é em grande parte uma polêmica com o PSTU, respondemos através deste artigo.

O que dizem os defensores de Chávez
O documento ataca a realização do Elac porque, segundo o texto: “este Encontro está muito distante de ajudar na organização da luta dos trabalhadores e povos latino americanos, e, pelo contrário, põe a Conlutas do lado de setores que, em nome da pureza socialista, fazem o jogo de interesses da direita.”

Isso tudo porque, segundo o MES-MTL: “A única posição correta que os trabalhadores brasileiros podem adotar é a de apoiar o processo de nacionalização da Sidor e a forma como estão levando o processo adiante os trabalhadores sidorianos e o governo bolivariano.” Ou seja, em essência, o Elac não pode ser realizado porque não está alinhado diretamente com Chávez.

A polêmica sobre o governo venezuelano
Sabemos que existem no interior da Conlutas diferenças importantes sobre a situação internacional, especialmente sobre o caráter e a natureza do governo Chávez.
Os companheiros do MES- MTL, apóiam o governo venezuelano. Nós do PSTU, consideramos que Chávez, apesar da retórica anti-imperialista, não rompe com o imperialismo norte-americano e muito menos com o europeu. É um governo nacionalista burguês, parecido ao que foi o governo Vargas no Brasil ou de Perón na Argentina. Pode-se fazer unidade de ação com Chávez, se e quando o imperialismo o enfrentar, como na tentativa de golpe em 2002.

Chávez a cada dia mais avança na repressão contra os trabalhadores e suas organizações, como a que desferiu contra os trabalhadores da Sidor, que, acabaram vitoriosos e o forçaram a nacionalizar a empresa. Os companheiros do MES querem que apoiemos “a forma como estão levando adiante o processo os trabalhadores sidorianos e o governo bolivariano”. Mas em que momento? De que lado estavam quando o governo Chávez reprimiu duramente a greve? Como apoiar o governo na repressão? Porque só falam agora da nacionalização, e se calam sobre a greve e a repressão? A nacionalização foi uma vitória da greve dos trabalhadores que a impuseram ao governo.

Por outro lado, Chávez quer impedir a organização independente dos trabalhadores. Está contra a autonomia dos sindicatos, e quer organizar o seu partido, o PSUV , como um “partido único” dos trabalhadores. Uma expressão deste autoritarismo é a perseguição do sindicalista Orlando Chirino.

Para os companheiros do MES-MTL “Na política não existe o vazio! Quando nosso continente vive uma luta política acirrada é impossível não ter lado. Quem não se posiciona frente às lutas concretas contra o imperialismo, termina caindo do lado oposto, como tem acontecido com o PSTU”. Para eles, existem dois campos no país, o do governo junto com os trabalhadores e o do imperialismo. Quem não está com Chávez, “faz o jogo da direita”.

O problema é que nós continuamos sendo marxistas e vemos a Venezuela através da luta de classes. E, por isso, apoiamos a luta dos trabalhadores da Sidor contra o governo de Chávez.

O governo venezuelano está tendo que enfrentar uma insatisfação social crescente na medida em que não avança em um plano anticapitalista. Com o “socialismo do século 21”, apoiado pelo MES-MTL, segue havendo miséria. Há também um lucro escandaloso dos bancos e das multinacionais e uma corrupção gigantesca.

A derrota de Chávez no plebiscito da reforma constitucional , em particular em alguns dos bairros populares importantes de Caracas mostrou que uma crise importante começa a ocorrer. E nessa realidade o pior que pode ocorrer é que existam somente duas alternativas para os trabalhadores (a imperialista e a governista). É fundamental construir uma alternativa independente dos trabalhadores.

O Elac se propõe a discutir um plano de lutas
A segunda discussão é sobre o próprio Elac. Este encontro internacional não é “uma política do PSTU”. Foi aprovado nas instâncias da Conlutas em reuniões nas quais estavam representadas todas as forças, inclusive os companheiros do MES-MTL. Está sendo chamado também pela COB boliviana, o Batay Ouvriyé do Haiti, a TCC – Tendência Classista e Combativa do Uruguai e a C-CURA da Venezuela. Essas forças expressam um processo de reorganização latino americano que merece todo o respeito dos lutadores.

Segundo o MES-MTL, essas seriam forças que “fazem o jogo da direita”. Isso significa que C-CURA, por apoiar desde o início a greve da Sidor “fazia o jogo da direita”. Que Batay Ouvriyé ao estar a frente das lutas contra a ocupação militar do Haiti “ faz o jogo da direita”? Que a COB, ao apoiar as lutas dos mineiros de Huanuni “faz o jogo da direita”.

Nunca foi nosso objetivo definir no Elac uma posição sobre temas polêmicos como a caracterização do governo Chávez. Desde seu início foi proposto que o Elac deveria servir como um ponto de apoio para lutas comuns dos trabalhadores na América Latina. E isso deveria incluir tanto as correntes, entidades e ativistas que apóiam como as que não apóiam Chávez. Exatamente como convivem no interior da Conlutas posições distintas sobre este tema, mas isto não nos impede de definir um plano de lutas comum.

O problema é que os companheiros consideram que os trabalhadores não podem ter uma ação independente de Chávez. É a única explicação para sua posição contra a realização do Elac e a que se defina um plano de lutas no mesmo. Não estamos, insistimos, propondo que o Elac vote uma posição contra Chávez. Mas estamos igualmente contra que o Encontro vote uma posição de atrelamento a Chávez. Defendemos uma ação independente de todos os governos, e isso inclui o governo venezuelano.

O MES-MTL desenvolve toda uma campanha contra o aparelhamento da Conlutas pelo PSTU, apoiado em afirmações completamente falsas. Uma delas é que o congresso da LIT se realizaria dois dias depois do Elac. A verdade é que estão contra o Elac porque querem atrelar o movimento ao governo venezuelano. Isso sim é uma tentativa de aparelhamento, contra a qual os militantes que já viveram isso no Brasil se rebelam.

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