Uma polêmica necessária com a esquerda cutista

O início da ruptura com a CUT desencadeou um intenso debate no interior da esquerda cutista. Como romper esse obstáculo da degeneração da CUT para lutar contra o governo Lula e seu modelo econômico? Devemos buscar “fortalecer a CUT”, ou romper com a central, construindo uma alternativa de luta para os trabalhadores?

Os companheiros da corrente Fortalecer a CUT acabam de convocar um encontro nacional, a partir de um texto assinado pelos seu cincos representantes na executiva da central (Jorginho, Franscisvaldo, Julinho, Berna e Lujan). Segundo o documento, o encontro terá dois debates: a luta contra as reformas Sindical e Trabalhista e a campanha contra a divisão da CUT.

A dimensão da degeneração da CUT

Os problemas da CUT não se resumem ao apoio à proposta das reformas Sindical e Trabalhista como propõe o texto do Fortalecer a CUT.

Através de capitulações políticas se estabeleceram relações econômicas, materiais, que liquidaram definitivamente com a independência da central frente ao Estado, ao governo e aos empresários. Processos que vinham desde antes, como as verbas do FAT e as parcerias com empresas, passaram a um patamar superior sob o governo Lula. Nomeações de sindicalistas para cargos públicos e liberação de verbas de bancos oficiais para projetos dirigidos pela CUT viraram rotina.

Com a reforma da Previdência, as centrais, inclusive a CUT, foram autorizadas a formarem seus próprios Fundos de Pensão. Além disso, o governo nomeou sindicalistas para administrar os Fundos de Pensão das estatais (Previ, Petros e Funcef). Esses fundos investem milhões em diversas empresas, ganhando o direito de indicar seus administradores. Temos aí a associação de sindicalistas com empresários para explorar trabalhadores em nome do aumento do lucro dos capitalistas.

Recentemente, o presidente da CUT, Luiz Marinho, intermediou um empréstimo de R$ 700 milhões, concedido pelo governo, através do BNDES, à Embraer. Esta empresa privada tem entre seus acionistas a Previ, presidida pelo ex-sindicalista e ex-bancário Sérgio Rosa. Em retribuição, a Embraer fez uma generosa “doação” financeira ao 10 de Maio da CUT. Nessa promiscuidade generalizada, nem passou pela cabeça de Marinho a preocupação com o tratamento dado por aquela empresa aos seus trabalhadores.

A CUT também jogou no lixo a histórica bandeira de defesa do Ensino Público, quando Luiz Marinho e o ex-presidente da central Vicentinho posaram de garotos-propaganda para uma grande universidade privada de São Paulo.

Essas relações econômicas explicam o apoio da central às reformas da Previdência, no ano passado, e o atual apoio às reformas Sindical, Trabalhista e Universitária. Explicam também o silêncio vergonhoso diante do salário mínimo de R$ 260, a recusa em organizar a luta contra política econômica do governo e a sua atuação com o propósito de desmantelar a última campanha salarial do funcionalismo federal. São esses exemplos que tornam irreversível o processo de degeneração da central.

A ruptura com a CUT é um processo objetivo

São traições como essas que promoveram a ruptura com a CUT. Não se trata simplesmente da vontade de alguns agrupamentos da esquerda da central ou, apenas, um sentimento de vanguarda. São setores de massa que não aceitam mais a CUT como sua entidade representativa.

Na base das entidades dos servidores, a exigência de rompimento com a CUT é generalizada. O que vamos dizer a esses trabalhadores? Que estão errados? Que é preciso ficar dentro da CUT, apesar de toda a degeneração? Com maior ou menor intensidade esse sentimento já tomou conta de uma parcela considerável da classe trabalhadora brasileira.

A Unidade tem de ser para lutar

Os companheiros falam de “três mil sindicatos”, de “50 mil dirigentes”, afirmando que romper com a CUT seria divisionismo, um atentando contra a unidade dos trabalhadores, pois a maioria ainda não chegou a essa conclusão. Para eles, se convocarmos a base da central ela se levantará em defesa das bandeiras tradicionais da CUT. É isso que afirma, por exemplo, Agnaldo Fernandes, do P-SOL, membro da executiva nacional da CUT, que propõe um grande movimento de oposição pública dentro da central.

Perguntamos a Agnaldo se a greve contra a reforma da Previdência, em franco enfrentamento com a CUT, não foi um movimento público de oposição? Pois ela não se moveu, em nenhum momento, quanto a sua determinação de continuar apoiando o governo e traindo os trabalhadores. Tampouco houve nesse episódio o levante dos “50 mil dirigentes”. A burocratização e a degeneração da central permitem ao bloco governista um amplo controle sobre a estrutura burocrática da CUT.

Queremos lembrar aos companheiros que quando fundamos a CUT também enfrentamos essa mesma acusação de divisionismo, inclusive de setores da esquerda (PCdoB, MR8 etc). Esses setores, sob pretexto de defender a unidade dos trabalhadores, defendiam, na verdade, a velha pelegada com quem, aliás, ficaram durante muitos anos antes de vir para a CUT.

Se naquele momento não tivéssemos levado adiante o Congresso de Fundação da CUT (mesmo com a participação de 430 sindicatos), o que teria acontecido com a revolta dos trabalhadores contra as confederações e federações pelegas da época?

A qual unidade os companheiros se referem?

Os companheiros falam muito em unidade, mas, afinal, o que querem dizer com isso? Unidade a qualquer custo, mesmo que o custo seja paralisar a luta? Achamos que a unidade dos trabalhadores é fundamental, mas desde que esteja a serviço das lutas, o que significa hoje conduzir a mobilização contra o governo Lula. Não é possível unir os trabalhadores para essas lutas por dentro da CUT, pelas simples razões de a CUT apoiar o governo e de se recusar a enfrentá-lo.

O boicote dos companheiros ao ato convocado pela Conlutas, no dia 16 de junho, é o exemplo típico da defesa da “unidade” usada como artifício para frear mobilizações. Tal atitude só beneficia a Articulação e o governo que querem aprovar suas reformas.
Cabe ainda perguntar se os companheiros, mesmo continuando na CUT, têm ou não disposição de construir unidade com a Conlutas para enfrentar os ataques do governo? Ou se continuarão defendendo a unidade da CUT, atacando a Conlutas e os setores que se rebelam contra a central?

Unir toda a esquerda construindo a Conlutas

A Conlutas vem se afirmando como uma alternativa para as lutas dos trabalhadores, levantando as bandeiras tradicionais da esquerda, como a luta contra a dívida, o FMI e a Alca. Defendemos a mais ampla autonomia dos trabalhadores e de suas organizações frente ao Estado, aos patrões e aos partidos políticos.
Queremos, mais uma vez, reafirmar o chamado a que toda a esquerda venha se somar a este movimento. Da mesma forma que quando da fundação da CUT, atualmente a luta de classes seguirá o seu curso e vai cobrar no futuro a responsabilidade política de cada um de nós.

Post author José Maria de Almeida, da Federação Democrática dos Metalúrgicos MG e Presidente do PSTU
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