Um outro olhar sobre a Venezuela

O que há por trás do discurso antiimperialista de Hugo ChávezAlguns dias na Venezuela levam todo observador a concluir que Chávez traz muito discurso e pouca prática de mudanças reais.

O salário mínimo é de 405 mil bolívares, quando deveria ser de um milhão a um milhão e duzentos mil bolívares, segundo as pesquisas. Portanto, corresponde a um terço das necessidades básicas. Esse salário significou um aumento de 26,07% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o petróleo subiu mais de 140%. Os lucros do petróleo não chegaram à mesa dos trabalhadores.

Pobreza e riqueza caminham de mãos dadas na Venezuela. Em Puerto La Cruz, onde fica um centro petroleiro, há um bairro chamado “Lecheria”, onde a burguesia constrói em um braço de mar suas ilhas artificiais e as transforma em loteamentos para suas mansões. É comum ver madames indo ao supermercado em iates e as crianças brincando com seus jet skis. A apenas dois quilômetros ficam os “ranchos”, as favelas venezuelanas.

Chávez: um reformista conseqüente?
A atenção médica talvez seja o principal cartão de visitas do governo. São mais de 8 mil médicos cubanos, que exercem a atenção primária, aquilo que estamos acostumados a ver nos postos de saúde no Brasil. A medicina mais especializada, aquela que exige exames, estudos e tratamentos mais complicados, é feita nos hospitais, e estes estão em total abandono. Para que se tenha uma idéia da gravidade da situação, quatro pacientes morreram no Hospital Los Magallanes, em 24 de agosto último, por falta de simples tubos de oxigênio! Nesse mesmo dia, funcionários da Maternidade Concepcion Palacios entraram em greve porque não receberam o aumento decretado desde o dia 10 de maio, e denunciaram o alto grau de deterioração das instalações e a falta de medicamentos.

A missão Ribas é uma das encarregadas de satisfazer as demandas educativas nos diversos níveis de educação. Segundo a propaganda oficial, ela atende 783 mil alunos, dos quais 181 mil recebem bolsas de estudo equivalentes a 160 mil bolívares, ou seja, menos da metade do irrisório salário mínimo. Tem 28 mil professores que recebem os mesmos 160 mil bolívares e estão esparramados por 6.170 escolas. Nessas missões, portanto, os professores recebem menos da metade do salário mínimo. Além disso, esses professores não têm direito a férias, décimo terceiro salário ou aposentadoria. E aqueles que se mobilizam contra o governo são chamados de “esquálidos”, nome que se dá aos opositores de direita.

Uma política petroleira pró-imperialista
A Venezuela é o quinto maior produtor de petróleo do mundo. A partir de 1976, começou a funcionar a estatal petroleira PDVSA. Seu objetivo era nacionalizar o petróleo venezuelano, tirando-o das mãos das transnacionais. Porém, a partir dos anos 90, as transnacionais começaram a voltar ao país na forma da chamada “abertura petroleira”, política que serviu para entregar campos petroleiros em forma de concessão ao capital estrangeiro.

Chávez deu continuidade a essa política e, a partir de 2005, aprofundou-a, com a criação das empresas mistas. Estas empresas serão sócias da PDVSA , donas de 49% do petróleo e das instalações dos poços petroleiros onde operam na atualidade e passarão a ter controle sobre as reservas. O convênio permite que as multinacionais comprem o petróleo cru venezuelano por US$ 5 e revendam no mercado mundial a quase US$ 70. Entre essas empresas estão a Chevron-Texaco dos EUA e a Repsol-YPF, espanhola.

Em nome da “soberania”, Chávez entrega as principais reservas de hidrocarbonetos (gás e petróleo) à mesa das multinacionais. Qual é a atitude do imperialismo diante de tudo isso? Roger Noriega explica: “Temos muitas companhias americanas, com muito dinheiro lá. Mais da metade da produção deles é feita por empresas americanas, não pela PDVSA. Então, vamos pegar o óleo onde conseguirmos e, como temos investimentos lá, vamos encontrar maneiras de dar segurança às empresas americanas enquanto houver capacidade de funcionar”.

A Repsol-YPF anunciou em agosto que: “obteve licença da Venezuela para explorar um novo bloco petroleiro de 500 quilômetros quadrados. A Faixa Petrolifera do Orinoco, no sudeste do país, é a principal reserva de petróleo cru pesado e extra pesado do mundo e será considerada uma das maiores jazidas do planeta”. A nota de imprensa diz ainda que: “Repsol YPF destaca a concessão por tratar-se da única realizada a uma das grandes empresas privadas do mundo”. Chávez chama a Repsol-YPF de “uma empresa amiga e de um país amigo”.

Sobre a empresa norte-americana, Chávez disse: “A presença da Chevron-Texaco, empresa americana na Venezuela, é indicativo de que a nossa relação com os EUA é histórica e profunda”. (Discurso de Chávez, 9/3/04).

E não é para menos. Desde julho de 1996 a empresa está operando a concessão do Campo de Boscán, de onde se calcula que extraia 115 mil barris diários, a um custo de US$ 1,70 cada, e os venda a mais de US$ 60,00 o barril. O que mais pode querer a Chevron – Texaco?
Post author Daniel Merino, especial de Caracas
Publication Date