Um encontro de raça e classe

Estão abertas as inscrições para o I Encontro Nacional de Negros e Negras da Conlutas, que será realizado nos dias 2 3 e 4 de novembro, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Organizado pelo Grupo de Trabalho de Negros e Negras da Conlutas, o Encontro tem como propósito avançar na organização do setor no interior da própria entidade e dos sindicatos e movimentos filiados a ela e, principalmente, construir um programa de raça e classe na luta contra o governo Lula, o FMI e todos aqueles que implementam ou são coniventes com políticas e práticas que, através da combinação da exploração capitalista e da opressão étnico-racial, é responsável pela manutenção e ampliação do abismo sócio-econômico existente entre brancos e negros.
Para a Secretaria de Negros e Negras do PSTU, a iniciativa do GT da Conlutas é de enorme importância não só por significar uma tentativa histórica de construir um programa (para entidades sindicais e dos movimentos sociais) que combine a luta anti-capitalista com o combate ao racismo, mas também por acontecer em um momento em que a construção desse tipo de aliança tem que ser muito mais do que uma “bandeira” ou uma intenção: é uma necessidade objetiva, na medida em que afeta a vida de milhões de trabalhadores.

Na ordem do dia
Ao contrário dos discursos do governo Lula, dos representantes da ONU e do Banco Mundial e de grande parte das ONG’s e entidades que vivem às custas de subsídios e favores dados por estes senhores, o mundo neoliberal e globalizado é essencial e fundamentalmente racista.

Como se inscrever:

As inscrições devem ser feitas na sede nacional da Conlutas até o dia 20 de outubro. Poderão participar do evento, como delegados (com direito a voz e voto), representantes de entidades, grupos, minorias e oposições sindicais que reivindicam a Conlutas. Além disso, representantes de entidades que ainda não fazem parte da Conlutas poderão participar como observadores (com direito a voz).

Para viabilizar a organização do Encontro, serão cobradas as seguintes taxas
• Sindicatos do estado do Rio de Janeiro: R$ 35,00
• Sindicatos de outros estados e minorias sindicais: R$ 25,00
• Oposições, movimentos negros e sociais e estudantes: R$ 20,00

Local:

Universidade Estadual do Rio de Janeiro – Campus São Gonçalo – Faculdade de Formação de Professores.

É isto que vemos com as absurdas e criminosas leis de imigração que estão sendo discutidas na Europa e nos EUA, na política genocida praticada contra os povos africanos ou na situação em que são jogados os povos “não-brancos” em toda a América Latina.

É verdade que a miséria não é uma exclusividade dos povos “não-brancos”. Como também, o racismo não é uma “criação” neoliberal. Contudo, o que não podemos esquecer é que nunca na história da humanidade houve uma combinação tão perversa da exploração de classe com a opressão imposta aos setores mais marginalizados da sociedade. No Brasil, negros e negras conhecem essa história há séculos. Afinal, foram 400 anos de escravidão, quando praticamente tudo foi negado à população negra.

E, hoje, apesar das insistentes e intensas lutas que garantiram as poucas conquistas que tivemos, a situação parece estar retrocedendo para patamares próximos aos do século 19. Assim como estamos certos de que o imperialismo tem um projeto de “recolonização”, também acreditamos que isso, para as populações historicamente marginalizadas, significa um aumento ilimitado da exploração em base à opressão racial.

É isso que faz com que a precarização, a “informalidade” e o desemprego sejam 40% maiores entre negros e negras; que o salário da população negra seja a metade do valor pago aos trabalhadores brancos; que as mulheres negras continuem sendo o setor mais pobre e vulnerável da sociedade.

Também é a ideologia neoliberal que faz com que mulheres negras sigam sofrendo com a violência, como foi o caso da companheira Sirlei, espancada pela falsa “gente bonita” da classe média carioca.

Enquanto isso, comunidades quilombolas estão tendo suas terras desrespeitadas, como o Quilombo da Marambaia, no Rio de Janeiro, e a criminalização da pobreza e da população negra gera mais e mais cenas lamentáveis de repressão e assassinatos, muitos praticados por policiais. Basta lembrar das crianças negras sendo assediadas e revistadas nas favelas, o terror provocado pelo “caveirão” e chacinas como as do Morro do Alemão e na periferia de São Paulo.

Essas forças também se voltam violentamente contra a organização e mobilização da juventude negra, como ocorreu recentemente em uma passeata no ABC Paulista e durante os jogos Panamericanos.

E, infelizmente, também não chega a ser surpreendente que a “justiça” dos ricos se coloque a serviço de tudo isso. Recentemente, houve o julgamento do vigilante da empresa “Protege”, que matou a queima-roupa o trabalhador Jonas, numa agência do Itaú. O resultado: o vigilante foi absolvido com o argumento de legítima defesa.
Essas situações só devem aumentar com a caça aos direitos que Lula quer promover com suas reformas neoliberais. Essas reformas serão feitas pelo mesmo governo que está à frente de um dos maiores ataques à história da luta negra na atualidade: a ocupação do Haiti, a primeira república negra do mundo.

Por essas e muitas outras, dizemos que o governo Lula não pode ser apenas “denunciado”, como os setores governistas fazem em dias de festa. Também do ponto de vista racial, este é um governo que precisa ser combatido.

Organizar é preciso
Uma pesquisa realizada pelo jornal Folha de S. Paulo em 2006 revelou que os setores da sociedade que mais defendem as cotas raciais são os trabalhadores brancos e negros mais explorados. Por outro lado, não é novidade que as cotas para negros nas universidades têm sofrido ataques sistemáticos da grande imprensa controlada pela patronal.

Atualmente, no Rio de Janeiro, corre uma proposta de plebiscito sobre as cotas. Como também, em todo o país, debates envolvendo iniciativas do governo (como o ProUni) têm causado polêmica e dividido os movimentos negros.
Diante de tudo isso, e também do abandono por parte da maioria do movimento negro tradicional das bandeiras históricas da luta anti-racista, acreditamos que o I Encontro de Negros e Negras da Conlutas pode e deve dar um importante passo na organização de todos os setores que hoje vêem a necessidade de apresentar uma perspectiva classista e anticapitalista para o combate ao racismo e aos seus agentes.

A realização do Encontro, na verdade, é a continuidade de um processo que já está em curso desde a fundação da Conlutas. A formação do GT, que reúne ativistas de sindicatos, movimentos estudantis, sociais e negros, foi um primeiro e importante passo. A participação de vários membros do GT na caravana que foi ao Haiti foi uma atividade fundamental nesse caminho.

É muito importante que os sindicatos, movimentos negro, popular e estudantil que estejam comprometidos com a luta contra as reformas e sua combinação com a luta contra o racismo, em defesa dos setores mais explorados e mais marginalizados da classe, organizem a participação dos ativistas de suas diretorias e bases, promovam o debate das teses do Encontro e, desde já, coloquem suas entidades a serviço também dessa luta, que é fundamental para construirmos a sociedade que queremos.
Post author Dayse Oliveira e Wilson H. da Silva, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU
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