Um dia memorável em São José dos Campos para os que lutaram contra a ditadura

Ato lotou auditório do sindicato dos metalúrgicos
Tanda Mello/Sindicato dos Metalúrgicos

Atos relembraram resistência operária à ditadura militar, em São José dos Campos (SP)São José dos Campos, interior de São Paulo, viveu um dia memorável para os lutadores e lutadoras que ousaram enfrentar a ditadura militar. No dia 24 de agosto aconteceram na cidade dois importantes eventos que relembraram as histórias de luta deste período e reforçaram sua importância para os dias atuais.

No sindicato dos metalúrgicos, o ato em memória das lutas operárias contra a ditadura, realizado pela Comissão de Presos e Perseguidos Políticos da Ex-Convergência Socialista, reuniu dezenas de militantes da corrente que deu origem ao PSTU, e que está historicamente vinculada ao desenvolvimento de importantes manifestações que marcaram a cidade.

Estamos falando das greves que agitaram o país entre as décadas de 1970-1980. Assim como no ABC paulista, as mobilizações operárias logo chegaram a São José e pararam fábricas como Embraer e a GM. As reivindicações também eram as mesmas: melhores salários, redução da jornada de trabalho, que na época era de 48 horas, liberdade de organização sindical, anistia política aos opositores do regime, fim da ditadura.

Durante o ato, alguns dos protagonistas deste importante capítulo da história do país relembraram os momentos que marcaram as greves que enfrentaram os militares. Naquela época, Toninho Ferreira, hoje candidato a vereador de São José pelo PSTU, era metalúrgico da Embraer e foi demitido por participar da greve de 85.

Toninho conta que, durante a ditadura, a fábrica estava vinculada à Aeronáutica, e era dirigida pelo coronel Ozires Silva. No auge da mobilização, Ozires chegou a fazer uma fala durante a assembleia, na tentativa de acabar com a greve. Mesmo na presença do coronel, os trabalhadores ousaram. A fábrica foi ocupada e a continuidade da paralisação que se chocou diretamente contra os militares.

“A ocupação foi reprimida por mais de 3 mil policiais. Com o fim do movimento, a repressão cresceu, e a chefia ameaçava demitir aquele que ousasse falar em sindicato” , conta Josias de Oliveira, ex-funcionário da GM e militante da Convergência, atual presidente da Admap (Associação Democrática dos Aposentados e Pensionistas do Vale do Paraíba).

Ernesto Gradella, hoje candidato a prefeito de São José pelo PSTU, também foi uma das lideranças operárias da época. Em 1985 ele era vereador da cidade pelo PT, e foi um dos responsáveis pela formação do Comitê de Anistia que exigia a libertação dos presos políticos da Convergência e de outras organizações perseguidas pelo regime.

O saldo das greves de 84, 85 e 88 foram grandes avanços para os metalúrgicos da Embraer, com a conquista do aumento salarial, da Comissão de Fábrica e tomada do sindicato dos pelegos. Mas também deixou marcas profundas para a vida daqueles que participaram do movimento. Todos os grevistas foram fichados no Serviço Nacional de Informação (SNI) e interrogados pelos militares.

Perseguição
Após a greve de 1985, a Embraer demitiu 125 trabalhadores, e organizou a chamada ‘lista negra’, amplamente divulgada entre as fábricas do Vale do Paraíba. Com isso, tornou-se praticamente impossível conseguir trabalho na região. A intenção dos militares era destruir não apenas a militância política daqueles ativistas, mas também sua família e moral perante a sociedade.

Em sua fala, Américo Gomes, membro da comissão de presos e perseguidos políticos, ressaltou a necessidade de reparação histórica a todos os perseguidos pela ditadura. “Apenas com uma punição criminal exemplar dos mandantes e torturadores será possível evitar que estes crimes voltem a acontecer no Brasil. Por isso é necessário uma Comissão da Verdade e Justiça que não se limite a investigar os crimes cometidos pelos militares, mas que os responsabilize criminalmente pelos seus atos,” avalia Américo.

“Aqueles que ordenaram, financiaram e executaram as prisões, torturas e assassinatos dos opositores ao regime, são os mesmos que hoje reprimem as greves, os movimentos sociais, como aconteceu no Pinheirinho, que ordenaram a morte dos companheiros José Luiz e Rosa Sundermann”, lembra o deputado estadual Adriano Diogo (PT), também presente no ato.

Governo Federal pede perdão aos metalúrgicos da Embraer
Quase 30 depois, o Estado brasileiro pediu perdão aos metalúrgicos da Embraer demitidos durante as greves de 83, 84 e 88 e perseguidos pela Ditadura. Representado pela vice-presidente da Comissão de Anistia do governo, Sueli Aparecida Bellato, o Estado reconheceu que errou e pediu perdão por demitir e perseguir os trabalhadores.

A decisão de anistiar os trabalhadores da Embraer e conceder reparação econômica foi baseada na lei que concede anistia política aos trabalhadores, militantes e ativistas que foram perseguidos no período entre 1946 e outubro de 1988. O processo para concessão de anistia é resultado de anos de luta dos próprios trabalhadores demitidos em conjunto com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José e a Abap (Associação Brasileira de Anistiados Políticos).

Certamente, esta vitória é mais uma prova de que apenas a luta dos trabalhadores pode acabar de vez com todos os resquícios da ditadura, assim como garantir reparação e justiça às vítimas.

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