Um ano após a ocupação, a luta segue viva na UnB

Um ano após a ocupação da reitoria da Universidade de Brasília, estudantes realizam ato político de comemoração e protesto. Eles denunciam o não cumprimento de itens da pauta acordada para a desocupação do prédio e inúmeros problemas de matrícula e assistNa quinta-feira, dia 2 de abril, o coletivo “Apenas Começamos” (formado por estudantes do PSTU, do PSOL, do Instinto Coletivo e independentes) e a Associação de Moradores da Casa do Estudante Universitário (AMCEU) chamaram um ato para celebrar a ocupação da reitoria da UnB que começou em três de abril de 2008, derrubando toda a gestão corrupta de Timothy Mulholand e conquistando uma nova eleição paritária para reitor. Além de exigir o cumprimento da pauta acordada para a desocupação da reitoria, os manifestantes também protestaram contra a falta de professores, a ausência de disciplinas obrigatórias no quadro de oferta desse semestre, a superlotação de várias turmas, a insuficiência de estrutura da UnB e protestaram contra os ataques à CEU e seus moradores, promovidos pela reitoria.

A ocupação foi um marco importante na história da UnB e do movimento estudantil nacional, mostrando que a mobilização e a radicalização são os métodos mais importantes para se obter vitórias e defender a educação pública. O movimento de ocupação da reitoria questionou e combateu o modelo educacional que está sendo imposto pelo governo Lula e seus agentes, baseado na privatização da universidade, no sucateamento das condições de ensino, pesquisa e extensão e na falta de democracia e autonomia das universidades públicas. Além da eleição paritária para reitor que ocorreu em setembro do ano passado, a mobilização obteve outras vitórias importantes, como o descredenciamento da FEPAD (uma das seis fundações privadas que atuam na UnB) o aumento da quantidade e do valor das bolsas de permanência, pesquisa e extensão, o fim da taxa de formatura e o fim da proibição das festas no minhocão (edifício que concentra a maior parte dos centros acadêmicos).

No entanto outras pautas importantes ainda não foram cumpridas. Apesar do escândalo de corrupção, as contas das fundações e da UnB ainda não foram abertas, nem pela gestão pro-tempore e nem pela atual gestão de Zé Geraldo, como havia sido acordado; O congresso estatuinte paritário está parado e não tem previsão para sua realização; a construção dos prédios dos novos campi de Ceilândia, Gama e Planaltina que estava previsto para ser entregue no final de 2008 nem começaram, enquanto isso os estudantes tem aulas em prédios cedidos pelo governo do distrito federal que são inadequados para a prática de sala de aula e não possuem nem laboratórios, nem bandejão e nem bibliotecas.

Veja depoimento de estudante sobre a ocupação

REUNI: a precarização das condições de ensino, uma falsa expansão
A UnB sofre há muitos anos com o problema da falta de espaço e de professores. Antes do REUNI a UnB tinha um déficit de 450 professores e 2000 servidores. Mas esse quadro está ficando ainda pior por causa desse projeto absurdo. Por conta da abertura das novas vagas para a UnB e pela não homologação dos professores concursados, se matricular nas disciplinas da universidade nesse semestre foi uma saga épica:

Turmas que comportavam 20 estudantes tiveram mais de 150 estudantes matriculados; formandos ficaram sem disciplina nenhuma; estudantes que já haviam assegurados vaga nas matérias foram desmatriculados de uma hora para outra; várias cadeiras obrigatórias não foram ofertadas; cerca de 10% das aulas da UnB ainda não possuem salas para serem ministradas; há casos de laboratórios que estão recebendo quatro turmas diferentes no mesmo horário; e existe uma quantidade gigantescas de turmas que estão sem professor e que não tem previsão para início das aulas. Alguns dos problemas citados são recorrentes na UnB, mas se acentuaram de maneira vertiginosa nesse semestre.

O caos que se instalou na UnB nesse semestre é fruto do começo da implementação do REUNI na instituição. Mas, se considerarmos que os 456 professores concursados não suprem nem o déficit anterior da universidade, que a UnB vai dobrar o número de estudantes nos próximos anos e o corte de 25% das verbas do REUNI para a universidade por conta da crise do capitalismo, chegaremos a conclusão de que o tragédia só está começando. A maneira como o reitor Zé Geraldo quer resolver esses problemas é desastrosa: enviaram um oficio para os departamentos culpando os professores pelos problemas e os pressionando para que assumam as turmas sem aula; pretendem implementar em 2010 o ciclo básico (cursos de formação generalista de 2 a 3 anos de duração) e estão fechando laboratórios e construindo salas de aula no lugar.

O descaso com a assistência estudantil: CEU, uma terra sem lei
A Casa do Estudante Uiversitário da UnB volta e meia ocupa as páginas dos jornais de Brasília. Em 2007 foi o atentado contra os estudantes africanos e a queda de blocos de concreto de 4 toneladas. Em 2008 foram os casos de roubos e estupros, um suicídio, vários casos de agressão física e até uma tentativa de assassinato. No começo desse ano a reitoria de forma unilateral fechou o laboratório de informática da CEU, mudou a linha de ônibus que liga a CEU a rodoviária do plano piloto (reduzindo os horários de funcionamento) e modificou para pior o sistema de ocupação de apartamentos. Não bastasse isso, fez uma proposta inaceitável de transferir os moradores da CEU para um clube nos próximos dois anos, onde ficariam alojados em quartos com outros 15 estudantes, enquanto durar a reforma dos prédios.

“Após uma ano de ocupação, mobilizar o estudantes para ação”
Foi nesse cenário que ocorreu o ato de um ano de ocupação da reitoria da UnB, que começou ao meio-dia na entrada norte do Minhocão (principal edifício da UnB), mostrando que os estudantes devem continuar mobilizados e dispostos a radicalizar para enfrentar o sucateamento e a privatização da universidade pública.

Durante o ato, que contou com cerca de 200 estudantes, vários ativistas contaram suas experiências no movimento de ocupação, professores e funcionários também falaram, elogiando a iniciativa e celebrando o grande exemplo dos estudantes. No ato vários estudantes aproveitaram para relatar os diversos problemas que estavam enfrentando em seus cursos e faculdades e evocaram a necessidade do movimento estudantil não arrefecer, ainda mais num momento em que a crise vem se aprofundando e já começaram os cortes de verbas para a educação. Os estudantes também colocaram a necessidade de lutar contra a restrição da meia-entrada e começaram as primeiras articulações para tocar essa campanha.

Às 14h os estudantes seguiram até a reitoria em marcha puxando palavras de ordem como ”Eu ocupei a reitoria, educação não é mercadoria”, “se o reitor já derrubamos, apenas começamos”. Eles foram recebidos pelo reitor e pela decana de assuntos comunitários e entregaram uma carta de reivindicações. A reitoria somente se comprometeu a analisar as demandas e realizar uma audiência pública no dia 15 de abril.

Onde estão a UNE e o PT?
A UNE e o coletivo “Reconstruindo o Cotidiano”, ligado ao PT, que participaram da ocupação, tentando desmontá-la por dentro, simplesmente não apareceram e não convocaram qualquer atividade. Isso se deve ao fato de que essas correntes apóiam a atual reitoria, ligada ao PT e ao MEC, e não querem que os estudantes se conscientizem de que essa gestão está dando prosseguimento ao mesmo projeto político de universidade que a gestão anterior, corrupta.

Esse é só mais um dos inúmeros fatos que comprovam que a UNE está morta para as lutas e de que é preciso construir uma outra ferramenta, onde o movimento estudantil possa se organizar democraticamente para impulsionar as mobilizações para enfrentar a crise do capitalismo e os planos educacionais do governo Lula.