Ucrânia: O Leste Europeu uma vez mais reafirma o leninismo-trotskismo


    As notícias que chegam do Leste Europeu colocam novamente a mais urgente das questões da humanidade na ordem do dia: a necessidade do socialismo como a única saída possível contra todas as formas de barbárie do Capital. A crise revolucionária na Ucrânia reforça a necessidade histórica da construção de uma direção revolucionária e socialista.

    Depois da Grécia, da Tunísia, Egito e Síria, a juventude e os trabalhadores ucranianos se lançam heroicamente às ruas na tentativa de lutar pelo mínimo de dignidade usurpada pelo Capital e seus múltiplos gerentes.

    Desde o início do levante popular na Ucrânia, surgiram dois pólos políticos de caracterização sobre ele. De um lado, o pólo pró-Rússia, comandado pelo governo de Víctor Yanukovych, que conta com o apoio criminoso dos velhos partidos comunistas ao redor do mundo e do governo de Moscou. Do outro lado, está a direita dividida entre os pró-ocidente respaldada pelas embaixadas dos principais países europeus, e a extrema-direita dirigida pelo Svobooda[1] e outros grupos nazi-fascistas, que tentam canalizar as manifestações para o nacionalismo racista e xenofóbico que interessa a setores do capital nacional.

    Como trotskistas, expressamos nossa profunda diferença com essas posições citadas e reivindicamos o método do materialismo histórico e dialético para caracterizar a atual situação na Ucrânia.

    Em primeiro lugar, é preciso desmistificar que o levante na Ucrânia se trata de um golpe da direita, tal como anunciado pelo governo Víctor Yanukovych, e como quer “acreditar” a esquerda stalinista. Porém, também é inverídica a falácia da direita que a razão central que leva milhares de jovens e trabalhadores às ruas é o desejo de adesão do país à União Europeia.

    As determinações que sintetizam as mobilizações ucranianas são os desdobramentos sociais provocados pela crise econômica mundial e a estrutura parasitária montada pelo Estado ucraniano para permitir a pilhagem irrestrita do Capital nacional e internacional.

    A crise econômica mundial iniciada em 2008 atingiu o nervo central da economia ucraniana, o crescimento econômico foi congelado, ao passo que a produção industrial do país segue em queda livre.[2] Soma-se a essa situação, o parasitismo empresarial sob a cumplicidade do Estado, que permite a remessa livre de lucros na condição de jurisdição de offshore[3]. Ou seja, na prática o Estado isenta os grandes capitalistas de pagarem impostos. Por isso, setores industriais e agroindustriais ligados à exportação do trigo, minerais, metais e sementes de girassol estão isentos de declararem seus lucros.

    A simbiose entre estrutura parasitaria e crise econômica levou ao estrangulamento do Estado ucraniano que, por sua vez, consolidou a privatização dos lucros e a socialização da crise.

    Enquanto seguiu subservientemente o mando e desmando do Capital transmoscovita “personificado” na Gazprom[4], entre 2012 e 2013, o governo suspendeu o salário de funcionários públicos, cortou gastos com programas sociais, elevou o custo de vida, levou um quarto da população à pobreza, manteve 7 milhões sobrevivendo com menos de U$ 1,00 por dia, ignorou o desemprego que atinge 3 milhões de pessoas, e submeteu os que ainda estão empregados a mísero salário, um dos menores de toda a região do Leste.[5]

    Todas as saídas apresentadas até agora não rompem com “aquele” que colocou a classe trabalhadora no beco escuro e fétido, ou seja, não somente não rompem com o Grande Capital como o reafirma como principal beneficiário de suas propostas.

    As proposições da direita pró-ocidente que visam ansiosamente aderir à União Europeia não solucionarão as demandas dos trabalhadores, ao contrário aprofundarão ainda mais a grave crise social que se instalou na Ucrânia, pois seu real interesse é negociar com o Capital alemão, francês e estadunidense. No entanto, a relação de submissão do governo de Yanukovych diante de Moscou, não se trata de uma postura anti-imperialista, mas sim de sua afirmação, uma vez que segue submetendo os trabalhadores ucranianos ao bel-prazer do Capital transnacional-russo.

    Somente por meio da localização desse quadro social, dos interesses em disputa, da correlação de força, é possível entender os levantes que tomaram as ruas de Kiev e ocuparam a Praça da Independência (Maidán) e a transformaram em um governo paralelo, a disposição de jovens sindicalistas independentes, trabalhadores que ocupam prédios públicos e montam barricadas para enfrentar o exército durante um rigoroso inverno europeu. Entretanto, a compreensão das determinações não responde em si mesma às necessidades que a luta de classe na Ucrânia, como em nível mundial coloca para a classe trabalhadora.

    A tarefa mais urgente colocada para a juventude e para os trabalhadores ucranianos é a construção de um terceiro pólo, um pólo de esquerda, socialista, revolucionário que aponte para a expropriação do Capital, seja este materializado nos interesses nacionais, russos ou do imperialismo ocidental. É necessário um pólo que comande comissões de julgamento a todos os que reprimiram os manifestantes, ocupe e dispute os comitês populares deliberativos sobre os rumos políticos, econômicos e sociais do país, retome as ocupações de fábricas como ocorreu em 2009 em Kherson[6] e expulse das manifestações os bandos nazi-fascistas infiltrados do governo ou da direita oposicionista.

     Todas essas demandas, a revolta dos “de baixos”, a divisão dos “de cima”, o dualismo de poder, o agravamento das condições de vida dos trabalhadores como fator motriz, o enfrentamento aberto e sem mediações contra o último pilar do Estado, seu exército repressor, tudo isso faz da luta de classe a sudoeste do rio Danúbio, o ponto mais alto de reafirmação dos escritos do chefe do Exército Vermelho, Léon Trotsky: “A crise da humanidade é sua crise de direção.”[7]

    Não nos surpreende que as manifestações que tomam Maidán sejam dirigidas por execráveis grupos neonazistas ou pela bastarda direita entreguista pró-ocidente. Isso somente confirma que uma direção revolucionária socialista não se improvisa, mas se constrói cotidianamente entre os trabalhadores, sobretudo, em seus batalhões decisivos, os operários e operárias. Todavia, a ausência de um forte partido revolucionário e consequentemente socialista na Ucrânia, não invalida o caráter anticapitalista embutido no seio de cada manifestação da juventude e dos trabalhadores, pois ainda que esses, sob a influência nefasta da direita, derrubem estátuas de Lênin, o inimigo contra o qual lutam, valida uma vez mais os pressupostos do leninismo-trotskismo.

    Gisele é militante do PSTU e aluna do Prolam/USP (Programa Integração da América Latina)



    [1] Partido de extrema direita

    [2]“Banco Mundial prevê queda de 15% do PIB ucraniano”–Disponível em: http://economia.terra.com.br/banco-mundial-preve-queda-de-15-do-pib- ucraniano,e71617a7adc4b310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

    [3] Paraísos Fiscais

    [4] Grupo Russo responsável pela exportação de gás natural para a Ucrânia. Esse grupo é atualmente o maior exportador de gás natural do mundo, sendo considerado como a décima maior empresa do mundo, pela Revista Forbes, em 2011.

    [5] Dados disponíveis em: http://www.indexmundi.com/g/g.aspx?v=74&c=up&l=pt

    [6] Em 2009, na cidade de Kherson, mais de 300 trabalhadores ocuparam a fábrica  Kherson Machine Building Plant, KNF, (produtora maquinária agricola), principal fábrica da cidade, em resposta ao não pagamento de salários.

    [7] Léon Trotsky – Programa de Transição, 1938