Trotsky para o século XXI

Há no Brasil um crescente e renovado interesse pelo marxismo que se expressa por um espaço editorial cada vez mais amplo dedicado a essa literatura. O surgimento e difusão um número importante de revistas identificadas com o marxismo anteciparam em certa medida essa tendência e a desenvolveram. Às revistas Novos Rumos e Princípios, na praça há quase duas décadas, somaram-se nos últimos anos Crítica Marxista, Lutas Sociais, Outubro e Marxismo Vivo. Não poderíamos deixar de mencionar a edição do monumental Além do capital, de István Mészáros, do clássico de Roman Rosdolski, Gênese e estrutura de O Capital de Karl Marx e de A teoria da revolução do jovem Marx, de Michel Löwy.

Certamente, esse não é um fenômeno meramente editorial. Esta é a apenas um deslocamento superficial resultado de um movimento muito mais profundo que tem lugar nas relações de forças sociais. Passados os piores anos da ofensiva neoliberal, os novos ventos trazidos pelos movimentos sociais tem estufado as velas da teoria marxista. A crítica espontânea à mercantilização planetária, presente nas palavras-de-ordem dos movimentos antiglobalização, encontrou-se com a crítica teórica mais radical à mercadoria, aquela de O Capital.

Qual é a contribuição que o pensamento de Trotsky pode dar a esta renovação teórica e política do marxismo? Passados 62 anos de seu assassinato, e é esta data o que nos provoca a reflexão, a pergunta faz sentido e poderia, até mesmo assumir a seguinte forma provocativa: o pensamento de Trotsky tem alguma contribuição a dar para a teoria dos movimentos sociais revolucionários do século XXI? A resposta é, do nosso ponto de vista afirmativa, se compreendermos seu pensamento como um ponto de partida para tal e não como um ponto de chegada. Somente esta resposta pode ser fiel ao espírito antidogmático que deve alimentar o marxismo e que foi cultivado por Trotsky. Dois aspectos do pensamento de Trotsky são cruciais para essa renovação e merecem ser destacados: uma concepção da história antideterminista e uma concepção internacionalista da política.

Comecemos pela sua concepção da história. Durante toda sua vida, Trotsky foi um tenaz opositor do determinismo econômico que caracterizava tanto a social-democracia como o stalinismo. Repetidas vezes contestou a tentativa de derivar os fenômenos políticos diretamente da economia, a crise política da crise econômica. No Relatório sobre a Crise Econômica Mundial e as Tarefas da Internacional Comunista, apresentado no 3º Congresso da Internacional Comunista essa oposição ao determinismo é assim colocada: “Em geral, o movimento revolucionário do proletariado não depende da crise (econômica). Há apenas interação dialética”.1

Essa formulação é constante no pensamento de Trotsky e será novamente explicitada, em 1935, no artigo Uma vez mais, aonde vai a França?: “Não há nenhuma crise que, por si mesma, possa ser ‘mortal’ para o capitalismo. As oscilações da conjuntura criam somente uma situação na qual será mais fácil ou mais difícil para o proletariado derrotar o capitalismo. A passagem da sociedade burguesa para a sociedade socialista pressupõe a atividade de pessoas vivas, que fazem sua própria história.”2

Para Trotsky, a crítica contra o determinismo econômico é uma crítica contra o imobilismo que este produzia no movimento operário internacional. Revalorizando o lugar da vontade humana na história, ele descarta todo automatismo reformista e afirma o primado da política nos processos de revolução social.

O segundo aspecto no qual a contribuição de Trotsky para a renovação teórica e política do marxismo é seu internacionalismo radical. Já no século XIX podemos encontrar formas intensas de solidariedade entre movimentos democráticos revolucionários. A construção da Associação Internacional dos Trabalhadores e, mais tarde da Segunda Internacional podem ser considerados os pontos culminantes desse internacionalismo. Tal solidariedade estava fundada na identidade que esses movimentos partilhavam e no futuro comum no qual apostavam.

O internacionalismo de Trotsky incorpora a necessidade da solidariedade fundada na identidade e nos projetos comuns, mas vai além, ao alicerçar-se em uma compreensão do imperialismo. Longe de ser um princípio abstrato, o internacionalismo é, para Trotsky, uma necessidade decorrente do caráter mundial da economia e da política capitalista em sua fase imperialista. Em sua análise do imperialismo, Trotsky destacará a contradição entre a existência de Estados nacionais e a crescente internaciona-lização da economia e sua manifestação nas contradições que se dão entre a lei do valor no mercado mundial e a regulação estatal, por um lado, e os países imperialistas e as colônias e semicolônias, por outro.

Economia e política encontram-se unificadas na análise que Trotsky faz do imperialismo, o que lhe permitirá pensar a atualidade (e não iminência) da revolução socialista na época imperialista. Sua visão do imperialismo produz um internacionalismo que supera a ênfase em uma identidade comum. A ênfase agora é colocada na necessidade de contrapor ao imperialismo a ação internacional organizada do proletariado. O internacionalismo dos séculos XX e XXI é revolucionário. Ele inclui um esforço sistemático para coordenar os movimentos de emancipação do proletariado e alterar a correlação de forças na arena nacional, mas também na arena mundial. Tal esforço de coordenação só pode ser eficaz se estiver materializado em uma organização internacional dos trabalhadores. Depois da falência da social-democracia e do stalinismo essa organização passou a ser a Quarta Internacional, para a qual Trotsky dedicou suas energias ao longo de seus últimos anos de vida.

“o internacionalismo é, para Trotsky, uma necessidade decorrente do caráter mundial da economia e do capitalismo em sua fase imperialista“

“Trotsky foi um opositor do determinismo econômico que caracterizava a social-democracia e o stalinismo“
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