Tropa de elite da corrupção

Crise na cúpula da polícia desmascara política de segurança pública do governador Sérgio CabralApesar do sucesso de público dos filmes Tropa de Elite I e II, não existe obra de ficção capaz de superar a realidade que ocorre na polícia do Rio de Janeiro. No final do ano passado, a capital e várias regiões do estado foram surpreendidas por ataques promovidos supostamente por traficantes. Estes episódios provocaram a ocupação militar dos complexos da Vila Cruzeiro e do Alemão, ambos localizados na Zona da Leopoldina da cidade do Rio. A ação chegou a ser chamada de “dia D” da polícia do Rio de Janeiro e contou com grande apoio da população.

Já naquele momento, o sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio (UFRRJ) José Cláudio Souza Alves analisava o que estava por trás da ação. Segundo ele, o que estava ocorrendo era uma reorganização do crime organizado no Rio com um claro objetivo de enfraquecer a facção do Comando Vermelho, que dominava os complexos citados, em favor da facção Terceiro Comando e das milícias formadas por policiais civis e militares.

A ocupação dos complexos acabou se tornando uma variação da política das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), que representam uma ocupação de comunidades com prévio aviso aos traficantes. Assim, o tráfico simplesmente mudava de endereço, provocando uma perda de território do crime.

Na verdade, o que houve foi uma troca da opressão dos traficantes pela praticada por polícia e exército. Denúncias de roubo e desrespeito aos mais elementares direitos dos moradores por parte dos policiais foram fartas. O advogado e membro da OAB Aderson Bussinger relatou: “Pude pessoalmente ouvir relatos de torturas praticadas por policiais, inclusive tendo como vítimas jovens e o caso de um deficiente físico que apanhou muito dos policiais somente porque tremia, o que foi interpretado como culpa. Pude também ouvir denúncias sobre a apreensão de motocicletas que, na verdade, em sua maioria, não eram de traficantes, mas de simples moradores que fazem o trabalho de mototáxi na favela. Ouvi também de um irmão de um preso que o retrato deste foi exibido nos jornais e televisão, tendo, posteriormente, sido apurado que não era traficante. Ocorreram muitas e muitas invasões de casas, com arrombamentos que deixaram as crianças traumatizadas até hoje.”

Ao se pronunciar sobre as denúncias dos moradores, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, afirmou que “uma minoria de maus policiais não pode manchar o sucesso da operação.”

Toda banda podre
Recentemente, a “Operação Guilhotina” da Polícia Federal jogou luz sobre a verdadeira essência da política de segurança da dupla Cabral/Beltrame. A operação desbaratou uma quadrilha que tem como líder o subchefe operacional da Polícia Civil, o delegado Carlos Oliveira, homem de confiança de Allan Turnowski, chefe dessa polícia. A quadrilha é acusada de vender armas apreendidas de traficantes para membros de outra facção, passar aos criminosos dados de operações policiais e controlar a milícia da Favela Roquete Pinto, situada na Zona da Leopoldina, próxima ao Complexo do Alemão. Segundo escutas telefônicas da Polícia Federal, a quadrilha chamou a ocupação do complexo de “garimpo da Serra Pelada” e ofereceu um serviço, com ajuda de informantes, no qual eles indicariam onde estavam os esconderijos do tráfico. Em troca, pediram 30% de tudo que fosse encontrado.

Como se não bastasse, o próprio chefe da Polícia Civil, homem de confiança de Beltrame, foi acusado por uma testemunha de receber propina de contraventores e de uma quadrilha de contrabandistas que atuaria no comércio popular do Rio de Janeiro. Diante de tudo isso, Turnowski foi demitido.

No último dia 6, mais de 300 policiais, com apoio de blindados da Marinha, ocuparam nove comunidades de Santa Teresa e do Complexo do São Carlos, onde posteriormente será instalada pelo menos mais uma UPP. A PF teria flagrado policiais desviando fuzis, drogas e munição dos traficantes, como ocorreu no Alemão.
A tentativa de Beltrame de responsabilizar uma minoria de maus profissionais beira o ridículo, quando são identificados delegados da cúpula envolvidos em ações criminosas.

A FARSA DA CIDADE PACIFICADA
A política de segurança de Cabral e Beltrame é genocida e fascista, pois criminaliza a pobreza, impondo uma pena de morte informal à juventude negra das comunidades carentes. Também mantém uma relação promíscua com o tráfico e as milícias, e se baseia única e exclusivamente na repressão.

Entendemos que a política das UPPs é uma farsa com o objetivo de dar uma falsa sensação de segurança, principalmente na Zona Sul e nas comunidades do Centro e da Tijuca, visando a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Se quisermos de fato dar uma resposta à questão da segurança, temos de assegurar educação, saúde, emprego e moradia digna para o conjunto da classe trabalhadora. Isso é o oposto da política do governo Dilma, que anunciou cortes drásticos nas áreas sociais.

É preciso desmilitarizar a PM e manter uma única polícia com salários dignos e direito a greve e sindicalização. É preciso fazer uma devassa na atual polícia, mantendo apenas aqueles policiais que não tiveram envolvimento em qualquer tipo de crime, além de realizar concurso público rigoroso para a contratação de novos policiais. É preciso que os delegados sejam eleitos pelas comunidades e que seus mandatos sejam revogáveis caso sua conduta não se paute pela observação e preservação dos direitos dos trabalhadores.

Por fim, é necessária uma discussão séria e responsável para descriminalizar as drogas, pois seu tráfico alimenta o tráfico de armas, e a descriminalização acabaria dando um golpe mortal em ambos.
Post author Cyro Garcia, do Rio de Janeiro
Publication Date