Tropa de Elite 2: sobre mistificações e lendas

Em cartaz recentemente no Brasil, Tropa de Elite 2 traz a volta do soturno Capitão Nascimento, agora promovido a coronel, em sua mais nova aventura rocambulesca em busca da verdade. Com o sucesso de público do primeiro filme, inclusive com a explosão de pirataria que se seguiu, Tropa de Elite passou a ser visto pela mídia como a estória da vez na hora de cristalizar a corrupção policial, o tráfico de drogas e o banditismo na cidade do Rio de Janeiro. A mistificação era de que todo o fascismo por trás dos lemas, da caveira e do aparato de guerra se justificava porque o inimigo eram os traficantes.

Sugestivamente, o subtítulo deste segundo filme é “Agora o inimigo é outro”, pois não colou bem a primeira estória, como o próprio Nascimento diz claramente ao longo da trama, ao perceber que todos os seus esforços para diminuir o tráfico não diminuiram a corrupção policial, uma das supersimplificações mais tolas do primeiro filme. Impressionante, inclusive, a quantidade de explicações a que o espectador é submetido. É quase como se os produtores e o diretor tivessesm lido todas as críticas contundentes, inclusive a publicada aqui no site do PSTU, e tivessem percebido que talvez valesse a pena lançar uns agrados enviesados aos “intelectuais de esquerda”.

Acontece que nós não somos bobos como o coronel, que se lança sofregamente nos braços da Secretaria de Segurança Pública, em sua nova posição, só para perceber depois que “estava fazendo o jogo do sistema”.

A mais incrível reviravolta se dá a partir de então, na tentativa desesperada de fazer de Nascimento o benfeitor da Justiça. De cara, ele peita um deputado durante uma blitz, com direito a retirá-lo à força do carro e agredi-lo. De policial repetidor de bordões a líder de uma cruzada pela verdade em segundos.

Uma pessoa um pouco mais ciosa da realidade sabe onde isso iria acabar, se estivéssemos falando da vida real, mas aqui não é o caso. Depois dessa, ele ainda segue derrubando “figurões” como se eles fossem de papel, para delírio e aplauso da plateia.

Nada de novo no front
George Orwell, no seu memorável livro “1984”, já nos havia ilustrado a necessidade de catarse coletiva, no que ele imaginou serem exibições de cenas no cinema que chamassem o pânico, a raiva e, por fim, a consagração dos valores desejados, para delírio (e alívio) dos presentes, desgastados pela opressão incessante. Trata-se, no livro, da sessão “2 minutos de Ódio”. A semelhança não é acidental.

Criou-se uma nova estória a partir de uma lenda clássica, qual seja, a de que o sistema pode mudar “por dentro”. Contudo, não satisfeito, o filme ainda força nossa inteligência e o nosso senso do ridículo. Para a pura excitação (catarse) coletiva.