Torres Gêmeas: decepção em clima pró-EUA

Em cartaz em cinemas de todo o Brasil, o filme Torres Gêmeas traz a visão do aclamado diretor Oliver Stone sobre o atentado que surpreendeu o mundo em 11 de setembro de 2001 com a queda de todo o complexo de prédios do World Trade Center (WTC).

Stone dirigiu peças indispensáveis a qualquer análise moderna de cinema, nas mais variadas vertentes. Entre os filmes “sócio-políticos” estão Platoon e Nixon, duas películas ácidas que abordam, respectivamente, a estupidez da guerra e a corrupção intrínseca à democracia aparente entre republicanos e democratas (qualquer semelhança ao nosso sistema “democrático” não é mera coincidência). No gênero biográfico, desponta o excelente The Doors, com a trajetória de umas das mais criativas bandas do rock pós-Elvis/Beatles e a estupenda atuação de Val Kilmer no papel do vocalista Jim Morrison. Temos também, no campo “alternativo”, o empolgante U Turn – Sem Retorno, com roteiro alucinante.

Tudo isso, porém, não impediu Stone de se adequar ao rumo da maré pró-EUA e filmar um fraco e sem sal longa metragem sobre o 11 de Setembro sobre o prisma ianque. A propósito, longa é diminutivo, pois são quase três horas de um tédio quase mortal, pontilhados por algumas cenas de efeitos chocantes e risadas forçadas entre os dois protagonistas.

Apesar de o título original ser World Trade Center, o roteiro praticamente se restringe a dois personagens da polícia portuária de Nova York que ficam presos nos escombros logo após o desabamento das torres. Esta é, sem dúvida, a maior fraqueza da direção de Stone: a falta de força e impacto característicos das suas tomadas. Ficamos só com pinceladas do seu talento, como na cena em que os familiares da dupla principal estão no hospital olhando para o grande mural com fotos de milhares de desaparecidos, mostrando a dimensão da tragédia da qual se salvam, milagrosamente, o sargento John McLoughlin (Nicolas Cage) e o policial Will Jimeno (Michael Pena). Comentários sobre as causas do atentado? Nada. Conseqüências? Também nada. Menções às retaliações desproporcionais da super-máquina de guerra norte americana? Menos ainda. Triste e surpreendente em se tratando do diretor de Platoon.

Também é triste ver o talentoso Nicolas Cage, vencedor merecido do Oscar® por Despedida em Las Vegas e que recentemente estrelou o ótimo Senhor da Guerra, preso (literalmente) a um papel sem sal, que nada vai acrescentar a sua carreira.

Não resta dúvida que a história verídica de sobrevivência desses dois oficiais é incrível como fato de superação e sorte. Foram apenas 20 as pessoas resgatadas com vida dos escombros do WTC. O que não dá para relevar é o fraquíssimo roteiro, com pontos mais do que vulneráveis, como a presença salvadora do marine que assiste a tudo pela TV e, num acesso de vontade heróica à la John Wayne, resolve sair para, é claro, salvar o dia (ou o que restou dele) e encontrar os personagens principais no meio do caos da enorme pilha de entulhos; ou ainda a constante apelação para as esposas desamparadas dos heróis e suas famílias, como contraponto automático aos diálogos deles no meio dos escombros, numa técnica muito pouco refinada e nada criativa que nós aqui conhecemos à exaustão nas novelas diárias.

Muita coisa interessante poderia ser feita e dita sobre o que aconteceu ao World Trade Center, principalmente quando olhamos o nada modesto orçamento e as figuras envolvidas nesse filme.

* Rodrigo Baldin, do PSTU – Salvador * é professor, bancário e amante da Sétima Arte.