Otávio Aranha, de Salvador (BA) 

Noite de 13 de março, você e sua namorada estão em casa dormindo, quando de repente alguém bate fortemente a porta, o que lhes assustam. Sem mais nem menos, a porta é destruída por um forte impacto (causado por um aríete), seguido de diversos tiros. Este episódio aconteceu na vida real numa cidade do Kentucky (Estados Unidos) e levou a morte de Breonna Taylor, negra, de 26 anos, técnica de enfermagem, atingida por disparos da polícia que invadiu a sua casa no cumprimento de um mandado judicial de busca e apreensão de drogas, o que não foi encontrado na ocasião.

Os policiais que mataram Taylor alegaram legítima defesa, foram colocados em licença administrativa e recentemente foram considerados inocentes pelo júri do Estado, o que gerou comoção e protestos em vários cantos do país. Imagine agora que, em vez de policiais, tenham sido pessoas com habilidades extraordinárias e sobre-humanas, chamadas “super-heróis”, que tenham matado esta jovem, no cumprimento da “justiça” e no que consideram ser “o seu dever”?

Este é o enredo base de The Boys (Os Rapazes), série televisiva adaptada de uma História em Quadrinho (HQ) criada por Garth Ennis, disponível pela Amazon Prime e exibida em canal aberto pelo SBT. A narrativa de super-heróis é apresentada com incrível grau de realismo e complexidade, usando a sátira e o humo-ácido para abordar não somente a questão dos “supers”, mas a própria sociedade, principalmente na conjuntura de crescimento da ultradireita no mundo.

O grau de realismo da série chega a chocar pela brutalidade e violência, como quando um dos heróis de nome Trem-bala, no uso de sua super velocidade (similar ao Flash), atravessa uma pessoa por acidente, despedaçando-a instantaneamente. A cena inusitada é seguida por um “foi mal, cara!”, dado pelo herói ao namorado da vítima.

Hughie Campbell, o protagonista da série (interpretado por Jack Quaid), fica inconsolado mais ainda pelo trato com que as autoridades, a mídia e o herói em questão dão ao assunto, tendo que reafirmar diversas vezes que não foi um acidente porque ela não estava no meio da rua, como alegou o super velocista. A sensação de desprezo pelo ocorrido, materializado inicialmente na merreca de indenização de 45 mil dólares oferecida a ele para que não falasse mais no assunto, é confirmada quando Campbell ouve secretamente uma conversa do Trem-Bala, onde ele descreve de forma zombeteira e debochada o episódio que ceifou a vida de sua namorada.

Campbell, um jovem trabalhador, funcionário de uma pequena loja de produtos eletrônicos até estuda processar os responsáveis pela morte de sua namorada – a empresa Vought, responsável jurídica dos super-heróis e administradora de suas carreiras e imagens, no qual um grupo de heróis de elite chamado Os Sete são uma espécie de “menina dos olhos” da empresa.

Os Sete é formado por: Trem-Bala, Translúcido, Profundo, Black Noir, Rainha Maeve, a estretante Starlight e liderados pelo Capitão Pátria (intencionalmente, eles são uma espécie de paródia dos heróis da Liga da Justiça, como Super-homem, Mulher-maravilha, Aquaman, Batman, etc.) e como qualquer grande empresa capitalista, o que move os interesses da Vought é o lucro.

Super-heróis e lucro

A relação entre os super-heróis e a empresa é interessante. A empresa vende a imagem do herói, materializado em diversos produtos, como brinquedos, bonecos, filmes, videogames, camisetas, bolsas, utensílios plásticos (copos, escovas de dente, embalagens de produtos alimentícios como cereais), refrigerantes, energéticos, etc. Em síntese, há toda uma cadeia produtiva que gira em torno da imagem dos heróis, principalmente dos Sete.

A imagem é construída estrategicamente para vender no mercado e, por isso, ela é constantemente mensurada por meio de índices de popularidade. Mas o capital da Vought não vem só da venda de produtos, mas também de “investimentos” bilionários de grandes empresas que usam a imagem do herói para a divulgação de seus produtos e marcas. Deste modo, a empresa, que gerencia não só a imagem, mas a vida do super-herói se constitui como um grande monopólio deste ramo, tornando-se uma das maiores empresas capitalistas que existe no mundo fictício da série.

Tríade: capital-política-igreja

Como qualquer empresa capitalista de grande porte, a Vought faz lobby com os donos dos meios de produção de outros ramos do capital, além de políticos e da igreja. Essa tríade entre capital-política-igreja que perpassa o roteiro é o ponto alto da série. Na crítica à sociedade contemporânea, The Boys nos mostra que uma grande empresa capitalista não pensa duas vezes em chantagear senadores para que aprovem medidas e leis que a beneficiem, ou ainda, negociar em melhores condições a venda de um produto (um super-herói) ao prefeito de uma cidade, o que pode ajudar a campanha eleitoral deste com a redução de índices de criminalidade.

O discurso religioso como um dos sustentáculos da ideologia dos super-heróis é outro tema intrigante. A mega corporação Voght avalia diariamente a popularidade dos heróis e para alavancar seus índices, apropriou-se da narrativa bíblica com o intuito de convencer a sociedade que seus produtos são de “inspiração divina”.

Assim, a existência de super-heróis é explicada como seres que foram escolhidos e iluminados por Deus, com dons especiais para fazerem o “bem” ou, se necessário, a “fúria divina”. Deste modo, o discurso religioso assume o pensamento conservador e tradicional da população média norte-americana, construindo a imagem de um herói puritano, contra o aborto, a homossexualidade e o sexo antes do casamento. Imagem cuidadosamente construída que oculta o real e esconde a verdadeira personalidade destes seres, passíveis de desejos e fantasias, como qualquer ser humano.

A relação de hipocrisia é tamanha que a empresa dispõe aos supers um espaço reservado para que eles possam “se libertar” dessa máscara: um daqueles clubes onde tudo é permitido, frequentado secretamente pela elite burguesa, política e religiosa.

A hipocrisia dos “supers” é uma das marcas da série, pois se eles aparecem ao mundo como heróis, bons e altruístas, beirando a seres quase divinos, cultuados pela população que os adoram e os amam a ponto de, dado o grau de confiança que tem neles, só faltam gritar “mito!”, por trás dessa aparência de perfeição e glória, estão homens medíocres, egocêntricos, machistas e perversos e falamos precisamente homens porque as duas mulheres heroínas que compõe os Sete (Rainha Maeve e a novata Starlight) possuem características bem distintas deles, aparecendo inicialmente de forma mais submissa, mas com o desenvolvimento da série, tornam-se mais indignadas e revoltosas com o que  veem.

Falar de hipocrisia é falar do Capitão Pátria, o que tem o poder e força equivalente a um super-homem e que não por coincidência é branco, loiro, olhos azuis e com um topete que lembra o atual presidente dos EUA.

Ele é líder dos Sete e a principal estrela da Voght, ou seja, o que rende maiores lucros. Seu “trabalho” de aparecer em público é administrado diretamente pela vice-presidente da companhia, que tem grande preocupação em preservá-lo para não arranhar a sua imagem. Como qualquer grande companhia capitalista, há uma disputa dos “funcionários” (heróis) para crescer na empresa e compor o grupo de elite (Os Sete), mas o Capitão Pátria possui uma relação distinta. Seu poder, força e resistência sobre-humana o colocam em um patamar quase indestrutível.

O tamanho de sua invencibilidade talvez só não seja maior que sua hipocrisia e arrogância. Seu desprezo pela vida humana, no qual se inclui aqueles que o idolatram, como faz a base de apoio de alguns políticos conservadores de ultradireita, é escondida com um sorriso falso e coberto com as cores da bandeira dos Estados Unidos, fixada como capa em seu uniforme. A patente militar junto à ideologia do patriotismo veio devidamente calhar no seu nome, o que se soma a seu discurso religioso, terminando às vezes com um “que Deus salve a América”.

Caindo as máscaras

Como Hughie Campbell, um simples jovem trabalhador, em associação com o misterioso Billy Bruto (interpretado por Karl Urban), que parece conhecer alguns dos “podres” dos super-heróis e da Voght, e os Os Rapazes conseguirão desmantelar essa megacorporação que possui senadores e líderes religiosos na palma da mão é o que veremos nos próximos capítulos. De qualquer forma, desde as cenas iniciais, “The Boys” nos apresenta uma versão de super-heróis de modo mais realista, onde empresas capitalistas existem e determinam as relações mais gerais da sociedade, da política, da fé e da segurança pública.

A inovação em The Boys é ser direto e explícito em sua abordagem, ao mesmo tempo que nos faz pensar. Ela expõe a podridão por trás das megacorporações de modo que evidencia a hipocrisia de seu discurso, construído cuidadosamente para vender um produto e sua imagem, ao mesmo tempo que não economiza em cenas violentas e absurdas, que vão do assédio sexual e estupro entre os “supers” a explosões de corpos e membros.

Ela nos faz pensar, pois remete a sociedade contemporânea, onde o discurso do “cidadão de bem”, conservador nos costumes e apoiado numa moral burguesa, branca, heteronormativa e machista tem predominado em uma parte considerável da população. Costumes e moral cada vez mais incentivados e levados em conta na elaboração de estratégias de campanhas políticas.

Assim, The Boys consegue retratar muito bem os Trump’s, Bolsonaro’s, Kim Jong-un’s, Putin’s, Duterte’s (Filipinas), Lukashenko’s (Belarus) e tantos outros homens medíocres com poderes demais, que se não matam diretamente as pessoas com visão de calor, por suas omissões e ações políticas, levam a cabo uma política genocida a grupos inteiros (como negros, indígenas, quilombolas no caso brasileiro) e ao meio ambiente. Homens controlados por grandes empresas e corporações e que aparecem até como heróis travestidos como Capitão América (ou montados em ursos) nas redes sociais.

Assim, para quem tem “estômago” vale a pena acompanhar o desenrolar da trama que se torna complexa a cada episódio. Em um mundo onde super-heróis são bancados por empresas, que administram sua carreira, imagem e serviços, a ânsia por lucros faz alçar voos maiores, como querer adentrar no sistema oficial de defesa militar do país ao mesmo tempo que Os Rapazes investigam a origem de seus poderes. Se o papel do capital na vida das pessoas já foi explicada lá atrás com Karl Marx e Friderich Engels, esta ficção dá uma contribuição significativa em ilustrar estas relações por dentro, de forma bastante criativa.

No mundo real, contudo, os verdadeiros heróis continuam sendo aqueles e aquelas que acordam cedo todos os dias para sobreviver, suportando assédios nos ônibus e metrôs, injúrias raciais no trabalho e nas ruas, além da humilhação na exploração do trabalho humano, cada vez mais “uberizado” e sem direitos. Ao contrário de The Boys, são aqueles e aquelas que estão nas ruas neste exato momento, enfrentando o ditador da Belarus, denunciando o racismo policial nos EUA de Trump ou enfrentando a queimada no Pantanal no governo do “deixa a boiada passar” é que podem ser considerados os verdadeiros “supers”. Entender porque estes políticos estão no poder e porque ainda não foram derrubados, exige uma análise mais profunda da realidade. The Boys evidencia a força que o elemento ideológico possui na construção destes personagens da vida real que não deixam a desejar a um Capitão Pátria.