Terremoto deixa centenas de mortos no Peru

Descaso do governo: é preciso apoio real e não palavras às vítimas do desastreÀs 18h41 de quarta-feira, 15 de agosto, a costa central do Peru foi sacudida por mais de dois minutos por um terremoto de 7.9 graus na escala Ritcher, com epicentro no mar da cidade de Pisco, distrito de Ica. O terremoto foi sentido com grande intensidade em Lima, provocando um justo pânico generalizado, ainda que não tenham sido relatados danos significativos. No entanto, o impacto foi catastrófico em várias cidades de Ica e na província limenha de Cañete.

Foram noticiadas 48 pessoas mortas até as 23h; o número subiu para 115 durante a madrugada e, pela manhã de quinta, a cifra havia subido mais de 387 (e segue aumentando). Os feridos, que eram contados às dezenas à noite, na manhã do dia seguinte já eram milhares e se não se sabe o número total de desabrigados, embora muitas casas, a maioria nos bairros populares, caíram e houve corte geral de energia elétrica.

O sindicato dos médicos – que na manhã de quarta havia iniciado uma greve nacional de 72 horas por causa da intransigência do governo em atender às suas demandas, entre elas maior orçamento e recursos para a saúde – decidiu suspender a medida para garantir o atendimento das emergências.

Passividade criminosa do governo
Numa mensagem à nação, o presidente Alan García decretou situação de emergência, principalmente no distrito de Ica e na província de Cañete (Lima). Mas foi uma reação apenas discursiva, pois até a manhã de quinta-feira não havia operações de brigadas de resgate nem deslocamento especial de recursos para as zonas atingidas, sobretudo para o atendimento dos feridos, muitos dos quais agonizaram e morreram sem receber ajuda. Esta é a razão do aumento radical nas cifras de mortos em horas.

A situação dos centros médicos é calamitosa. Os hospitais entraram em colapso em poucas horas pelo fluxo extraordinário de feridos e se mantinham assim, com seus escassos recursos, até a manhã de quinta, sem receber verbas especiais.

“Temos mortos espalhados por toda a cidade, há muitos feridos e não há ambulâncias, leitos nem medicamentos”, declarou o diretor do hospital de Chincha às 23h, ou seja, quase cinco horas depois dos abalos. Na manhã seguinte, os médicos pediam auxílio de helicópteros para transferir os feridos aos hospitais de Lima e ainda não haviam obtido resposta. Nesta localidade, foram registrados mais de 50 mortos até a manhã de quinta.

Há hospitais, como o de Chincha mesmo, que sofreram danos pelo tremor, em alguns casos até estruturais, o que obrigou a evacuar os internos sem um apoio especial da parte do governo. No caso do hospital Daniel A. Carrión del Callao, os internos evacuados permaneciam ao relento às 23h, suportando as inclemências do inverno com apenas algumas mantas, o que é muito grave tratando-se de gente que se encontra em tratamento médico.

Nas praças públicas de Pisco e Chincha, são improvisados “leitos” ao ar livre.

O governo, inexplicavelmente, não respondeu ainda aos urgentes pedidos de hospitais de campanha para atender a especial entrada de feridos. Esta situação não tem nenhuma justificativa nos tempos atuais, em que se exibem cifras de riqueza econômica. Agora vemos que os alertas que lançou a Federação Médica do Peru sobre a precariedade dos hospitais eram totalmente corretos. O governo não ragiu durante meses de diálogo com os médicos e não reage inclusive agora diante da tragédia.

Ao meio-dia de quinta, o presidente García chegou a Pisco, um dos pontos do desastre, com uma comitiva formada pelo presidente do Conselho de Ministros e pelo presidente do Congresso da República, mas com as mãos vazias perante as reivindicações da população.

O terremoto pôs em evidência a incapacidade do Estado ante o ante desastres desta envergadura. A lentidão e descaso do governo só se explicam por sua política de austeridade que afeta, principalmente, aos trabalhadores e aos mais pobres. Será que em meio a esta tragédia o governo continuará empenhado em guardar recursos e fazer caixa para pagar a dívida externa ou para salvar as empresas? Basta de discursos! Basta de indolência do governo! Tem de haver uma imediata mobilização de recursos (hospitales de campanhaa, leitos, equipes médicas, medicamentos, assim como água potável e alimentos) para atender aos prejudicados.

Ambição capitalista ante os desastres
García não pôde deixar de admitir um dos principais problemas que ficaram evidentes após o terremoto e é o total colapso do serviço telefônico: ninguém podia fazer chamadas até, no mínimo, quatro horas após os abalos e as falhas do sistema podiam ser observadas ainda na manhã de quinta. Em situações de emergência, que é quando mais se necessita das comunicações, o sistema entra em colapso agravando a situação.

Por exemplo, as autoridades do Callao não tiveram como comunicar aos moradores que fora levantado o alerta de um tsunami e que poderiam retornar a suas casas. A maioria das vítimas não pôde comunicar suas situação por falta de serviço telefônico. Esta situação tem responsáveis.

O governo e o próprio Gracía, em sua mensagem de 28 de julho, exibiu como indicador de suposto bem-estar que já havia começado a se generalizar a grande expansão do número de celulares (na verdade, nada surpreendente se comparado com que experimentaram países vizinhos). Mas esse grande crescimento se desmascarou como um inescrupuloso negócio das empresas, pois cresceu o número de telefones celulares graças à redução de tarifas de importação, mas as operadoras (Telefonica e Claro, principalmente) converteram em redes de telecomunicações (centrais, comutadores, antenas, etc.) na mesma proporção.

É a mesma criminosa cobiça capitalista que hoje é praticada nos serviços de transportes, com um aumento inescrupuloso das passagens (“de 7 a 16 novos sóis a passagem de Lima a Ica”, informam os noticiários de TV).