Sobreviventes contam como é a vida 10 anos depois do massacre de Eldorado

Esta segunda-feira, dia 17 de abril, marca os 10 anos do assassinato de 19 trabalhadores rurais na Curva do “S”, na rodovia PA-150, município de Eldorado dos Carajás, no Sul do Pará. Além dos mortos, mais de 60 trabalhadores, entre homens e mulheres, foram feridos. São os “mutilados”, alguns com seqüelas físicas que comprometem suas vidas até hoje. Neste intervalo de tempo há casos de sobreviventes que já faleceram, provavelmente em função dos ferimentos recebidos no massacre.

A operação foi autorizada pelo governador do Pará em 1996, Almir Gabriel, do PSDB, em comum acordo com o então secretário de segurança, Paulo Sette Câmara, e o comandante geral da PM, coronel Fabiano Lopes. Estes sequer foram indiciados. Os 150 PMs que participaram do massacre, incluindo alguns oficiais, foram absolvidos pela Justiça. Os comandantes locais, coronel Pantoja e Major José Maria Oliveira, foram condenados em um segundo julgamento, mas estão em liberdade. A impunidade marca o caso a tal ponto que alguns anos depois o dirigente do MST, Fusquinha, foi assassinado por um grupo composto por pistoleiros e, segundo denúncias, por alguns PMs que haviam participado do massacre.

Em função do massacre e da luta dos companheiros foi desapropriada uma parte do complexo de fazendas Macaxeira e nele fundado o assento e vila 17 de abril, onde estivemos. Estão vivos os traumas do massacre, mas também a luta e os sonhos.

O assentamento é composto por 690 famílias que produzem arroz, feijão, milho, frutas, entre outros produtos, sendo que uma boa parte está se concentrando na agropecuária. Descaso público marca a Vila, mas a proximidade dos 10 anos de massacre fez com que o governo federal liberasse verbas para construção de uma ponte na estrada de chão que leva à comunidade, um posto de saúde e um sistema de abastecimento de água. As famílias dos mortos e mutilados não recebem quase nenhuma assistência do Estado. A ação indenizatória já teve decisão favorável aos companheiros, mas o governo estadual se recusa a pagar. O dirigente estadual do MST Antônio Alves, o Índio, que sobreviveu ao massacre após receber três tiros, lembra que os mutilados vivem cotidianamente um outro massacre, “tão ou mais cruel que o do dia 17 de abril porque os tiros que levamos nos impedem de trabalhar”. “Vivemos doentes e sem apoio. Alguns tiveram que abandonar o assentamento para procurar tratamento em outros lugares”, denuncia.

Dona Maria Abadia, 66 anos, para salvar o filho baleado, entrou na zona de tiro e levou dois tiros na perna, o que hoje faz com que em alguns momentos ela não consiga ficar em pé. Apesar das muitas dificuldades, ela afirma que valeu a pena ter lutado: “a vida melhorou para todos”.

Avelino Germiniano, o Gaúcho, 52 anos, recebeu nove tiros e conseguiu sobreviver. Agora exibe com orgulho seu sítio e fala dos sonhos: “Eu tinha dois sonhos. Um eu já cumpri que é ter o meu pedaço de terra, nela produzir até meus últimos dias, sendo nela enterrado. Já produzo coco, cacau, banana, laranja, leite e galinha. O outro sonho é ver o meu filho numa faculdade pública.”

O governo estadual, do PSDB, não tem nenhum interesse em condenar os assassinos, mas o governo Lula também nada fez neste sentido, tampouco conduziu uma política de reforma agrária diferente do que fez FHC, manipulando números de desapropriação e apoiando o latifúndio e o agronegócio. Mesmo afirmando que ainda votaria em Lula contra um candidato da “direita”, Índio reconhece que a política de reforma agrária deste governo não é satisfatória: “Ainda não temos a reforma agrária que queremos, ainda falta muito.” Porém quando faz um balanço do ocorrido, é enfático ao dizer que “falo com sinceridade, tirando nossos companheiros mortos, se tivesse que começar tudo de novo, nós começaríamos novamente. Sem luta não tem como melhorar nossa vida.”

  • Leia a pérola do jornal O Globo sobre o massacre