Sobre vida, morte e arte: Morre, aos 95 anos, Stan Lee

Rodrigo Barrenechea, de Santa Maria (RS)

Um dos maiores editores de quadrinhos da história, Stan Lee morreu nesse dia 13 de novembro. Os mais jovens estão acostumados a vê-lo fazendo rápidas aparições nos filmes da editora, nos mais variados papeis. No entanto, Stan é bem maior que apenas um dono de editora de quadrinhos. Foi um grande inovador nesse segmento, tendo transformado as HQ de coisa de criança em um gênero literário para todas as idades.

Junto a Jack Kirby, seu principal parceiro (Kirby colocava no papel as ideias de Lee), criou todo um universo de heróis – não exatamente de carne e osso – mais realistas. Ainda eram super-heróis de fantasia e capa. Mas tinham problemas. Um era cego. O outro teve sua casa, família e mundo destruídos por um semideus comedor de planetas. Um terceiro era um adolescente criado pela tia que viu o tio morrer depois de uma noite de exibição de suas habilidades, onde seu egoísmo foi mais importante que a vida alheia.

Lee ainda teve outros acertos: deu vida a uma das personagens mais clássicas da literatura “B”, Conan (criada por um obscuro escritor, Robert E. Howard) – a principal concorrente, a DC, tinha feito o mesmo com o Sombra, com a diferença que Conan tinha uma moralidade bem mais questionável que o detetive da DC. Fez a sua versão do soberano dos mares – um êmulo do Aquaman – Namor, sem a ética deste e um chauvinista que só passou a respeitar os habitantes da superfície quando teve que enfrentar seus heróis e viu-se questionando seus próprios princípios. Abriu questão sobre a relação entre racismo e quadrinhos, com personagens como Luke Cage e os X-Men.

No entanto, nem tudo são flores. Casado por 70 anos com a modelo Joan B. Lee e dono de um temperamento extremado, foi acusado de autoritário e esteve envolvido em casos de assédio a funcionárias da empresa de cuidadores que tomava conta dele em função de sua idade avançada; uma imagem de “playboy” que cultivou e fez piada a respeito em alguns filmes mais recentes da franquia. As enfermeiras o acusam de andar nu pela casa, de apalpá-las e pedir sexo oral a elas. Lee, negou as acusações, dizendo que ia processar a empresa. Por mais que fosse rico e poderoso, isso jamais pode ser justificado; o mesmo se aplica aos vários casos de racismo e machismo vistos recentemente em programas do magnata da TV Silvio Santos.

Mesmo tendo em conta de que era um homem dos EUA da segunda metade do século XX, e que esteve de alguma maneira na contramão da revolução de costumes que significou o movimento hippie dos anos 1960, é inegável que Lee lançou vários questionamentos sobre o comportamento da juventude nesse período (mesmo que não cheguem perto de artistas do gênero como Robert Crumb ou Jean Giraud Moebius – este, inclusive, foi seu parceiro numa graphic novel sobre o Surfista Prateado). Seu Capitão América – mesmo investido de um nacionalismo exagerado – contém diversas críticas ao militarismo e às relações nada saudáveis entre indústria armamentista e governo. Da mesma forma, o Demolidor apresenta críticas semelhantes ao sistema judiciário norte-americano e em como o empresariado tinha sua face gângster – vide o Rei do Crime, Wilson Fisk, oficialmente um respeitado empresário.

Na virada do século XX para o XXI, com a queda de vendas, a Marvel teve de se reinventar. A ida ao cinema e à TV, como os seriados, foi um acerto, com produções esmeradas e roteiros de qualidade. Acertos de um empresário – aqui não se trata de tecer elogios a um “bom burguês” – que soube produzir arte em escala industrial. Obrigou a concorrente DC a também se reinventar. Enfim, fez pela arte gráfica algo que a indústria fonográfica tinha feito 10 ou 15 anos com o jazz e o rock. Deu status industrial e abrangente ao que era feito artesanalmente e apenas para crianças.