Sem Lênin, a Revolução de Outubro de 1917 teria acontecido?

Lenin

Notas sobre o papel do indivíduo na história, no nonagésimo aniversário da Revolução Russa“Se Rosa Luxemburgo não tivesse sido assassinada; se a classe trabalhadora alemã não tivesse passado por um longo ano de recuos (…); se a social-democracia austríaca não tivesse deixado a revolução húngara de 1919 na mão; se a classe trabalhadora do norte da Itália tivesse alcançado em 1919 o nível de combatividade que ela demonstrou em 1920; então, em 1919 ou 1920, o estabelecimento da Terceira Internacional em Berlim teria sido possível. (…) Uma Internacional nestes moldes, independente do aparato do partido/Estado russo, é o que Trotsky e Lênin teriam desejado. Após o início da revolução alemã, húngara e austríaca, ela tornou-se uma possibilidade. Que ela não tenha se materializado constitui um segundo golpe do destino…”
Ernest Mandel (1995:49)

Que lugar o marxismo reconhece para as lideranças que estiveram à frente de grandes revoluções políticas e sociais? Ou, em outras palavras, qual é o papel do indivíduo na história? Como se articulam as complexas cadeias de causalidades mais distantes e mais imediatas que tornam cada acontecimento único? Como reconhecer, sem exagerar, mas também sem diminuir, a dimensão de responsabilidade do dirigente revolucionário?

A história tradicional das “grandes narrativas políticas” tinha exacerbado, como sabemos, até o limite, a importância dos partidos e, de forma ainda mais superlativa, das grandes personalidades. O lugar do acaso e fortuito era tal que a ausência de qualquer personagem histórico teria, supostamente, gerado terríveis paradoxos.

Entre os extremos da máxima exposição e máxima obscuridade, o marxismo ajudou a procurar uma explicação que poderia ser considerada, no mínimo, razoável, mesmo pelos seus adversários. Não porque diminuísse à condição de “causalidades de décimo quinto grau” a influência das idéias e partidos políticos ou mesmo das personalidades, mas porque tentava demonstrar que, as escolhas, em cada encruzilhada histórica, se colocavam entre poucas hipóteses previamente condicionadas por inúmeros fatores, muito além das vontades dos homens e mulheres que comandavam. Nesse sentido, o marxismo insistiu em colocar os sujeitos políticos coletivos sob uma nova perspectiva, destacando o lugar central dos antagonismos nas relações econômico-sociais.

Esta contextualização resultava de um processo de longa duração histórica. Não poucas foram as resistências que o marxismo despertou, entre outras razões, porque a sua teoria da história agiganta, em primeiríssimo lugar, o papel das grandes massas anônimas ou invisíveis em condições de normalidade da dominação político-social: as classes que vivem do trabalho.

A Revolução de Outubro foi, possivelmente, o paradigma revolucionário mais influente do século XX. Não só porque foi a primeira revolução social anti-capitalista que venceu – provando, portanto, que era possível – mas porque assumiu, conscientemente, uma perspectiva internacionalista de que o poder dos sovietes, em Moscou e Petrogrado, era uma trincheira da revolução mundial. A qualidade excepcional do núcleo dirigente da revolução russa não deixou de despertar a curiosidade de historiadores como Hobsbawm:

“Os debates mais acalorados sobre a história russa do século XX não giram em torno do que aconteceu, mas do que poderia ter acontecido. Eis aqui algumas questões. Era inevitável uma revolução na Rússia? O czarismo podia ter se salvado? (…) E se Lênin não tivesse voltado para a Rússia? A Revolução de Outubro teria sido evitada?(…) E se a revolução européia – ou seja, a revolução alemã, na qual apostavam suas fichas – tivesse acontecido?” (HOBSBAWM, 1998: 258).

Poder-se-ia argumentar que as classes sociais em luta utilizaram, na história, o material humano que encontraram à sua disposição para realizar a defesa de suas aspirações, e isso independe da qualidade, maior ou menor, dos talentos disponíveis. Isso também é certo. Quantas páginas decisivas da história não foram escritas por homens comuns que se descobriram surpresos sendo arrastados por situações terríveis? Mas, embora este argumento mereça ser considerado em um certo nível de análise, não resolve a questão: se as qualidades comparativas de sujeitos políticos rivais fossem sempre, em última análise, irrelevantes – porque, diante de todos os outros fatores envolvidos na luta, se anulariam – então, a explicação para as vitórias e derrotas das classes exploradas e oprimidas se restringiria à maturidade, maior ou menor, dos fatores objetivos, ou seja, uma aproximação quase fatalista ao tema da representação política, desqualificando a direção. A improvisação maior ou menor da direção parece ter sido um fator histórico que merece nossa atenção. Trabalhemos com um exemplo clássico, extraído de Deutscher, para a ilustração dos termos do problema:

“A História esclarece duas grandes ‘crises internas’ do bolchevismo no ano da revolução. Na primeira, Lênin, que acabara de voltar da Suíça, apresenta suas ‘Teses de Abril’ e ‘rearma’ poIiticamente o seu partido para a guerra contra o regime de fevereiro; na segunda, no penúltimo estágio da revolução, os defensores e adversários da insurreição se enfrentam mutuamente no Comitê Central bolchevique. (…) Em ambas as crises, somos levados a sentir que é dos poucos membros do Comitê Central que a sorte da revolução depende: seus votos decidem se as energias das massas devem ser dissipadas e derrotadas ou dirigidas para a vitória. O problema das massas e líderes é apresentado com toda a sua agudeza e quase que imediatamente as luzes focalizam de forma ainda mais limitada e intensiva, um único líder, Lênin (DEUTSCHER, 1984: 250).

Mas, afinal, indo ao âmago da questão: quando e em quais circunstâncias o papel dos indivíduos poderia ser excepcional e insubstituível, se é que esses momentos devem ser considerados? Façamos nós mesmos, também, um exercício de história contra-factual: e se Lênin não tivesse atravessado a Alemanha no trem blindado e não tivesse ganhado a maioria do partido bolchevique para as Teses de Abril, e depois, para a iminência da insurreição, Outubro teria ocorrido? O que nos sugere Deustcher?:

“Tanto em abril como em outubro, Lênin fica quase que sozinho, incompreendido e renegado pelos seus discípulos. Membros do Comitê Central quase queimam a carta na qual ele insiste em que se preparem para a insurreição, e Lênin resolve ‘travar a guerra’ contra eles e, se necessário, for recorrer às fileiras, desobedecendo a disciplina partidária. ‘Lênin não confiava no Comitê Central – sem Lênin’, comenta Trotski, e ‘Lênin não estava muito errado nessa desconfiança’. Em cada crise, porém, acabou convencendo o partido a adotar sua estratégia e lançou-o na batalha. Sua ousadia, realismo e vontade concentrada surgem da narrativa como os elementos decisivos do processo histórico, pelo menos da mesma importância que a luta espontânea de rnilhões de trabalhadores e soldados. Se a energia destes foi o ‘vapor’, e o partido bolchevique o ‘êmbolo’ da revolução, Lênin foi o condutor. Trotski enfrenta, aqui, o problema clássico da personalidade na História e talvez tenha menos êxito” (DEUTSCHER, 1984: 250).

A análise de Deutscher é satisfatória? O bolchevismo teria encontrado o caminho de Outubro sem Lênin? A resposta não é simples e não poderia ser irrefutável. Trotsky, talvez surpreendentemente, escreveu variadas vezes que sem Lênin a oportunidade histórica teria sido perdida, e nos seguintes termos:

“A ditadura do proletariado se deduzia de toda a situação. Mas ainda era necessário instaurá-la, e isso não teria sido possível sem o partido. E este só podia cumprir sua missão se fosse capaz de compreendê-la. Para isso, precisamente, se necessitava de Lênin. Antes de sua chegada a Petrogrado, nenhum dos chefes bolcheviques se havia atrevido a fazer o diagnóstico da revolução. Pelo curso dos acontecimentos a liderança de Kamenev-Stalin se viu empurrada para a direita, na direção dos social-patriotas: a revolução não deixava lugar para uma posição intermediária entre Lênin e os mencheviques. A luta intestina no seio do partido bolchevique era de qualquer ponto de vista inevitável. A chegada de Lênin somente acelerou o processo. Sua ascendência pessoal reduziu as proporções da crise. No entanto, poderia afirmar alguém com segurança que, sem ele, o partido haveria encontrado sua senda? Nós não nos atreveríamos, de modo algum, a afirmá-lo” (TROTSKY, 1978: 300, tradução nossa).

O argumento polêmico mais forte de Trotsky consiste numa apreciação de que a oportunidade poderia ter sido perdida, porque os prazos seriam irreversíveis. Sem Lênin, a crise política do bolchevismo – inexorável em qualquer organização revolucionária, em sua opinião, e uma lição para todos os processos ainda por virem – teria se prolongado muito além de umas poucas semanas e exaurido o partido numa luta interna fracional da qual não poderia sair intacto. Outubro de 1917 não se teria adiado para Maio ou Julho de 18, mas, simplesmente, não teria ocorrido: a crise de governabilidade de Kerensky se teria fechado com outro desenlace, muito provavelmente, a instalação de uma ditadura militar, ou seja, as alternativas eram Lênin ou Kornilov.

Não se trata de um argumento bizarro. Uma revolução tem os seus tempos e ritmos, e a pulsação das conjunturas numa crise revolucionária se alterna em velocidade acelerada, de tal modo que as oportunidades perdidas não se repetem necessariamente. Vejamos as conclusões finais nas palavras de Trotsky:

“O decisivo nestes casos é o fator tempo e quando a hora já passou, é terrivelmente difícil ter uma visão retrospectiva do relógio da história. De todos os modos, o materialismo dialético não tem nada em comum com o fatalismo. Sem Lênin, a crise que, inevitavelmente, teria que provocar aquela direção oportunista, teria assumido um caráter excepcionalmente agudo e prolongado. Desde logo, as condições da guerra e a revolução não deixavam ao Partido muita margem de tempo para cumprir com sua missão. Portanto, poderia ter ocorrido até que o partido, desorientado e dividido, perdesse por muitos anos a ocasião revolucionária. O papel da personalidade ocupa nessas circunstâncias, diante de nós, proporções verdadeiramente gigantescas” (TROTSKY, 1978:300, tradução nossa)

Deutscher argumenta contra a interpretação de Trotsky em História da Revolução Russa que a liderança “excepcional”, elevada a uma posição de grande autoridade – pelos seus talentos ou pelas circunstâncias – bloqueia, necessariamente, o caminho de outros que poderiam ocupar o seu lugar, ou seja, substituí-lo. Outros teriam imprimido aos acontecimentos as marcas próprias de suas personalidades, os limites ou as grandezas dos seus caracteres, mas, ainda assim seria pouco razoável concluir que o curso mais geral da história pudesse ter sido alterado porque, afinal, a Revolução Russa aconteceu porque era necessária. É o “eclipse” de outros candidatos, que criaria a “ilusão de óptica” a que se referiu Plekhanov quando, em sua obra sobre a teoria da história do marxismo, se referiu às grandes individualidades:

“A necessidade social mais urgente da França em fins do século XVIII consistia na substituição das velhas instituições políticas por outras que se harmonizassem mais com o novo regime econômico. Os homens públicos mais eminentes e úteis daquela época foram precisamente aqueles mais capazes de contribuir para a satisfação dessa necessidade urgente.(…) A mesma coisa se pode dizer, mais ou menos, acerca de Robespierre. Admitamos que ele representa no seu partido uma força insubstituível em absoluto. Mas, em todo o caso, não era a sua única força. Se a queda casual de um azulejo o tivesse morto (….) o seu lugar teria sido ocupado, naturalmente, por outro, embora esse outro se mostrasse inferior a ele em todos os sentidos, mas os acontecimentos, apesar de tudo, teriam tomado o mesmo rumo que tomaram com Robespierre” (PLEKHANOV, 1977: 62)

A necessidade histórica exigia que novas instituições e um novo regime assumissem o lugar da arcaica e obsoleta monarquia absoluta dos Bourbons. Mas a História é sempre processo e nunca sujeito. Sem a presença dos sujeitos sociais e dos seus respectivos sujeitos políticos, seria impossível encontrar as explicações para as formas concretas que a luta de classes assumiu. Como explicar a liderança do clube dos jacobinos sem considerar a força da revolução? Foi a revolução que, ao despertar para a arena política milhões de pessoas, até então, politicamente desinteressadas e socialmente resignadas, exigiu e impôs o deslocamento temporário da burguesia.

Quando as forças capitalistas começaram a hesitar e não puderam mais conter a fúria da pequena-burguesia, a própria dinâmica interna do processo revolucionário encontrou uma solução histórica atípica. Ela abriu o caminho para a radicalização em massa da pequena-burguesia urbana de tal modo que, ainda que por um lapso de tempo reduzido, pudesse ocorrer o substitucionismo social que explica o fenômeno político decisivo: primeiro, o apoio da maioria dos jacobinos a Robespierre e, depois, a conquista dos votos na Convenção pelos republicanos radicais. Essa foi a obra da revolução que mudou a natureza social do Estado, deslocando a aristocracia e levou a burguesia ao poder, para se desembaraçar, rapidamente, de seus aliados pequeno-burgueses dos dias “heróicos” e alavancar a transformação das relações econômico-sociais que estavam bloqueadas.

Reconhecemos, portanto, que a força da necessidade histórica se manifestou e em tal intensidade que esteve na raiz do substitucionismo social e, depois, do político: deslocamento à esquerda do processo revolucionário, levando a que a mobilização iniciada por uma classe, fosse levada adiante por outra. A revolução, como força motriz do processo de mudança econômica e social, também se expressou na vertigem que levou a que os partidos fossem sucessivamente descartados, na medida em que se demonstravam incapazes de compreender, até o fim, a radicalidade do desafio histórico. Aliás, o mesmo processo, que podemos identificar como a “fórmula jacobina” voltou a operar nas revoluções de 1848 e, para o essencial, nas revoluções do século XX.

Deutscher foi um herdeiro desta leitura do materialismo histórico de Plekhanov: quando a necessidade histórica se manifestou de forma suficientemente forte, uma série de pessoas, indiferenciadamente, pôde ocupar o papel de comando. Acrescentou, a propósito da Revolução Russa, que, mesmo que a crise revolucionária aberta entre Fevereiro e Outubro fosse mais longa do que foi e, finalmente, se a oportunidade da luta pelo poder se perdesse, outras voltariam a se abrir. Vejamos a sua conclusão:

“Trotski afirma que somente o gênio de Lênin poderia enfrentar as tarefas da Revolução Russa e insinua, freqüentemente, que em outros países também a revolução deve ter um partido como o bolchevique e um líder corno Lênin, para vencer. Não há nada de novo em falar-se da extraordinária capacidade de Lênin ou da boa sorte que teve o bolchevismo encontrando um líder como ele. Mas em nossa época, as revoluções chinesa e iugoslava não triunfaram sob partidos muito diferentes do bolchevique de 1917, e sob líder de menor estatura, em certos casos de muito menor estatura? Em cada caso, a tendência revolucionária encontrou ou criou seu órgão com o material humano de que dispunha. E se parece improvável supormos que a Revolução de Outubro teria ocorrido sem Lênin, tal suposição não será tão pouco plausível quanto a inversa, de que um tijolo caindo de um telhado em Zurique em princípios de 1917, poderia ter modificado a sorte da humanidade neste século” (DEUTSCHER, 1984:255).

Deutscher leva o raciocínio às últimas conseqüências e conclui que a hipótese de Trotsky seria “espantosa em um marxista”. Não estamos, no entanto, diante de uma discussão bizantina, mas frente ao lugar do último elo de uma complexa cadeia de causalidades. Onde Trotsky sublinha a responsabilidade do sujeito político, ou seja, da direção bolchevique em luta contra o governo Kerensky sustentado por uma frente que unia dos liberais cadetes aos socialistas moderados – mencheviques e esseristas – Deutscher enfatiza a superioridade político-social do proletariado e seus aliados nas Forças Armadas e no campo sobre a aliança burguesa com a pequena-burguesia urbana.

A hipótese da inversão das causalidades na crise revolucionária
Se até o partido russo, um dos mais revolucionários da história contemporânea, teve uma fração hostil à luta pelo poder em plena crise revolucionária, que dificuldades esperar no futuro? A pressão das classes socialmente hostis a um projeto socialista seria tão grande que esse processo tenderia a se repetir? Não parece haver escapatória para essas perguntas. Elas oferecem uma localização perturbadora para a importância dos fatores subjetivos nas revoluções contemporâneas. Os graus de incerteza histórica aparecem, assim, na sua dimensão mais nua e crua.

O argumento mais poderoso de Trotsky é, ao mesmo tempo, simples e desconcertante: se Lênin foi, de fato, indispensável, a tal ponto, que sua ausência à frente do partido poderia ter levado à derrota, então o papel da liderança se agiganta numa dimensão assustadora. A questão é pertinente porque, nos primeiros meses depois de fevereiro, a direção bolchevique que estava no interior da Rússia defendia uma linha de apoio crítico ao governo provisório. Especulava-se até uma unificação com o menchevismo. Não foram poucas as dificuldades de Lênin para conseguir a aprovação das Teses de Abril. Também foi muito complexo conseguir aprovar a linha de preparação da insurreição: a luta pela maioria foi extremamente ríspida e houve a dissidência pública de Zinoviev e Kamenev. Por isso, o papel de Lênin só pode ser compreendido, apropriadamente, na condição de líder dos milhares de líderes que compunham a organização bolchevique.

Sua autoridade teria sido, de fato, insubstituível, como sugere Trotsky? Não há forma de responder. Trotsky talvez tenha se sentido desconfortável na dupla condição de historiador e líder revolucionário que cumpriu um papel de primeira ordem nos acontecimentos que estava tentando narrar e explicar, ainda nos anos trinta, a dinâmica da revolução russa. Quem sabe, por isso, tenha diminuído o seu lugar, para poder reivindicar, em melhores condições, a herança de Lênin contra a direção estalinista.

Mas não é irrelevante que, quando o líder do Soviete de Petrogrado foi chamado a responder se teria podido se apoiar no Exército Vermelho, entre 1923 e 1927 para tentar bloquear a consolidação de uma fração burocrático-nacionalista à frente do partido e do Estado Soviético, um desafio de interpretação histórica de magnitude também gigantesca, Trotsky não usou para o julgamento do seu lugar na história o mesmo critério que esgrimiu para apreciar o papel de Lênin. Sua conclusão foi que as forças sociais interessadas numa liderança internacionalista à frente da III Internacional engajada na expansão da revolução mundial já tinham sido derrotadas no Estado Soviético e no Partido Bolchevique.

De qualquer forma, reapresentemos o problema teórico: em que medida a ação recíproca dos fatores objetivos e subjetivos, incidindo uns sobre os outros, no calor de uma crise revolucionária, não poderia provocar uma inversão das hierarquias das causalidades, tal como estabelecidas pelo marxismo clássico? Sem Lênin, o mais revolucionário partido da história contemporânea teria sido capaz de aproveitar a oportunidade de Outubro? A liderança do partido teria seguido, em sua maioria, as posições de Zinoviev e Kamenev ou as de Trotsky? Os critérios de Deutscher, como já vimos, são estritamente deterministas. Os de Trotsky foram mais flexíveis: os fatores objetivos e subjetivos, também são mutuamente relativos, e guardam uma sutil interação entre si. Em relação aos sujeitos sociais, o partido bolchevique era um fator subjetivo, mas em relação aos seus membros ele era um elemento objetivo. Em relação ao partido, a presença de Lênin era um elemento subjetivo, mas nas suas relações com os outros membros da direção sua presença era um fator objetivo.

Sabemos que o grau de influência da personalidade excepcional pode variar da completa irrelevância até à máxima intensidade, dependendo sempre das circunstâncias. Na maioria das vezes, seu papel oscila em algum ponto intermediário entre esses dois extremos. De qualquer maneira, em primeiríssimo lugar é necessário que todos os fatores objetivos tenham amadurecido e o momento culminante de um longo processo de evolução histórica tenha sido alcançado, de tal forma que a pressão objetiva da necessidade se manifeste com a força mais arrasadora. Ainda assim, é preciso que milhões de vontades – a mobilização mais ou menos espontânea dos sujeitos sociais – se unam em torno de um fim comum, de forma irreprimível e com determinação inabalável.

Só então, a presença do sujeito político coletivo pode ser aquele fator a mais, o peso que desequilibra a balança, a última gota que faz o copo de água transbordar, a derradeira chama que faz a água entrar em ebulição. Só então, também, o papel do indivíduo seria decisivo. Será que tudo depende das circunstâncias, ou seja, do ocasional e do aleatório: o estar na hora certa, no lugar certo? A hesitação da mão que escreve não é sobre algo trivial. O argumento mais sólido sobre este tema é o que apresentamos a seguir, num fragmento do marxista americano George Novack:

“O tempo é um fator de suma importância no conflito entre classes sociais enfrentadas. A fase indeterminada em que os acontecimentos podem ser desviados em qualquer direção não dura muito. A crise das relações sociais tem de se resolver, rapidamente, por um caminho ou por outro. Nesse ponto, a atividade ou passividade de personalidades predominantes em grupos, partidos ou entre as massas, pode inclinar a balança para um lado ou para outro. O indivíduo pode intervir como fator decisivo no processo total de determinação histórica, somente quando todas as demais forças em jogo estão temporalmente igualadas. Então o peso suplementar pode servir para inclinar a balança” (NOVACK, 1989:80, tradução nossa).

A questão da articulação das causalidades não deveria ser pensada, portanto, indistintamente, no longo prazo e no curto prazo. Mais importante ainda: o lugar dos sujeitos políticos não pode ser apreciado, indistintamente, em qualquer situação política. Em uma crise revolucionária, quando as decisões dos partidos e organizações podem ter conseqüências irreversíveis para todo um período histórico, a primazia dos fatores conscientes, e entre estes fatores, o papel dos indivíduos, parece ser não só decisiva, mas insubstituível.

A idéia de que os fatores subjetivos sempre se neutralizam mutuamente, em qualquer condição e, portanto, se anulam na longa duração, sendo, ao final, irrelevantes, não parece, portanto, se sustentar. A história é sempre feita pelas classes em luta no marco de conjunturas. O presente se articula, ininterruptamente, num processo que tem ritmos desiguais. Se é verdade que, na maioria das conjunturas, os erros de ontem podem ser corrigidos amanhã porque há tempo, em outras, as posições perdidas podem ser irrecuperáveis. A dinâmica do que aconteceu pode ter tomado uma direção incontornável.

São justamente as diferentes margens de erro dos que assumem papéis dirigentes, ou seja, a qualidade diferenciada dos sujeitos políticos coletivos e ou individuais em confronto que podem fazer a diferença e inclinar a balança numa ou noutra direção. Os exercícios contrafactuais podem ser úteis: e se o Príncipe Lvov tivesse convocado eleições para a Constituinte quando a influência dos bolcheviques era ainda muito minoritária? E se os Kadetes e os mencheviques tivessem convencido seus aliados em Londres e Paris que a República russa não podia suportar o custo social da guerra e que uma paz em separado com Berlim teria um custo menor que a presença de Lênin e Trotsky no Kremlin? E se Kerensky não tivesse se lançado na aventura de uma ofensiva final contra um Exército alemão muito superior? Mas não o fizeram porque subestimaram a profundidade da crise e, portanto, desdenharam a capacidade dos bolcheviques de aproveitar o desgaste do governo para incendiar a imaginação política das massas.

Entretanto, nada estava inscrito na história. A pressão da necessidade histórica não resolve a história. A pressão sinaliza tendências, que podem ser desviadas ou contidas por contratendências. Se, na escala da época histórica, ou seja, na longuíssima duração, se abrirá ou não o caminho para que a necessidade histórica se cumpra, é algo indeterminado no que diz respeito a um processo de transição que tem duração secular. Considerar o contrário não pode deixar de ser, em última análise, um juízo teleológico. Se as oportunidades históricas colocadas pela luta de classes se perderem, sempre existe a possibilidade de um impasse histórico prolongado cujos desenlaces são, a priori, indefinidos e imprevisíveis. Conferindo, de novo, Novack:

“A discrepância sinalizada por Deutscher entre as observações de Trotsky sobre que Lênin era indispensável para a vitória de Outubro e as referências (do marxismo) que insiste em que as leis objetivas da historia são mais poderosas que os traços peculiares dos protagonistas, há de explica-las pela diferença entre o curto prazo e o longo prazo na história (…) Dadas suficientes ocasiões no longo prazo, as forças que representam as necessidades objetivas do progresso social quebrarão todos os obstáculos e resultarão mais fortes que as defesas da velha ordem. Mas isso não vale, necessariamente, para qualquer estado determinado, nem para qualquer caso ao longo do caminho. Aqui, a qualidade da direção pode decidir qual das autênticas alternativas que se desprendem das condições prevalecentes vai se realizar. O fator consciente tem uma importância qualitativamente distinta ao longo de toda uma época histórica que a que tem em uma fase o situação específica dentro dela” (NOVACK, 1989: p.80, tradução nossa).

Por outro lado, não é satisfatório considerar que as demandas subjetivas seriam historicamente sempre as mesmas, inalteradas, independente das classes sociais em movimento e das tarefas colocadas. Ao contrário, merece a nossa atenção a evidência de que as tarefas políticas vieram ganhando maior complexidade. A transição burguesa, para citar somente um exemplo, dispensou a formação de partidos políticos, no sentido contemporâneo de complexos sujeitos coletivos de representação de interesses de classe, articulados em torno a um programa. Em outras palavras e, talvez, simplificando: as formas relativamente amorfas dos clubes foram suficientes na revolução francesa para derrotar a monarquia decadente dos Bourbons. Assim como a organização de movimentos de inspiração semi-religiosa, mas articulados por Cromwell com a organização revolucionária do exército do parlamento, corresponderam às necessidades subjetivas da revolução inglesa. O “caudilhismo” civil ou militar foi um atalho para formas de representação político-programática mais complexas, mas demonstrou a sua eficiência em boa parte dos processos de independência latino-americana.

O problema se coloca em outra perspectiva, todavia, quando pensamos as condições originais da transição pós-capitalista. O proletariado, enquanto classe, permanece na condição de classe economicamente explorada, politicamente dominada e culturalmente oprimida, quando se levanta em luta contra o capitalismo. As suas dificuldades de construir a sua subjetividade são, portanto, incomparavelmente mais complexas do que as limitações que a burguesia enfrentou, no seu tempo, na condição de classe média da ordem medieval.

Ao contrário da burguesia que podia construir a sua subjetividade a partir do material humano destilado de suas próprias fileiras, os trabalhadores dependem, por exemplo, da capacidade de atrair intelectuais de outras camadas da sociedade para a sua causa. Seria, é claro, superficial, ignorar que um fenômeno semelhante a esse, também ocorreu na transição do feudalismo para o capitalismo. Ao longo dos quase quatro séculos da transição burguesa, não foram poucos os “trânsfugas” da nobreza que se uniram à causa revolucionária burguesa. Essa capacidade de polarização das classes revolucionárias, em cada época, revela, portanto, mais da sua força do que da sua fraqueza.

A força social de mobilização do proletariado, ou até dos camponeses e de outras classes subalternas, também se expressa nessa capacidade de atração de personalidades mais sensíveis, mais corajosas ou mais inteligentes das outras classes. Mas as dificuldades subjetivas de uma transição histórica devem ser consideradas, proporcionalmente, às tarefas que ela precisa enfrentar, isto é, à força objetiva e subjetiva da contra-revolução. Nesse sentido a transição pós-capitalista tem pela frente obstáculos únicos e muito superiores à transição burguesa: não se trata de substituir uma classe proprietária no controle do aparelho de Estado por outra, mas de levar ao poder a maioria do povo. Poder-se-ia, é claro, argumentar, na linha do que foi a ortodoxia do marxismo da Segunda Internacional, que as margens de erros são as mesmas para todas as classes e que, ao final, se anulam, de tal maneira que a necessidade histórica, sempre abre o caminho, para além da qualidade maior ou menor dos sujeitos políticos coletivos ou da liderança.

Como a época seria revolucionária, o tempo, a medida última e fundamental da transição, na longa duração, trabalharia a favor das classes sociais historicamente progressivas. Assim, na escala de uma transição que poderia levar séculos, como foi a transição burguesa, para além das vicissitudes transitórias, das escaramuças parciais, das grandes tragédias e das derrotas conjunturais, no longo prazo, a tendência à crise geral seria inexorável, e as classes proprietárias estariam necessariamente se enfraquecendo, e as classes trabalhadoras acumulando forças.

O que pretendemos, portanto, afirmar? Que a disparidade entre a maturidade dos fatores objetivos e subjetivos se desenvolve em um processo desigual e combinado, nas mais diversas proporções, e de tal maneira, que o amálgama resultante é uma surpresa histórica. Em poucas palavras, o subjetivo pode ser qualitativo. Parece, portanto, mais plausível considerar que as escalas de tempo operam, contraditoriamente, sobre os sujeitos sociais em luta: se, na longa duração, amadurecem quantitativamente os fatores objetivos da transição pós-capitalista que fortalecem a classe trabalhadora, nos curtos prazos, o atraso e imaturidade dos subjetivos cobram qualitativamente a desvantagem diante dos aparelhos políticos contra-revolucionários, e dificultam as condições para a vitória.

REFERÊNCIAS
DEUTSCHER, Isaac. Trotsky, o Profeta Banido. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984.
HOBSBAWM, Eric. Podemos escrever a história da revolução russa? In Sobre História. Trad. Cid Knipel Moreira. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

MANDEL, Ernest. Trotsky como alternativa. São Paulo, Xamã, 1995.

NOVACK, George. Para comprender la Historia. Mexico, Fontamara, 1989.

PLEKHANOV, George. O Papel do Indivíduo na História. Lisboa, Antídoto, 1977.

TROTSKY, Leon. Historia de la revolución Rusa. Bogotá, Pluma, Tomo I, 1978.

Valério Arcary é, também, doutor em história pela USP e autor de O encontro da revolução com a História entre outras obras.