Rubem Fonseca: Cala-se a grande arte da literatura brasileira

Diego Cruz

Há algum tempo, quando o hábito da leitura ainda não era majoritariamente digital, e os sebos ainda assiduamente frequentados, não era incomum se deparar com estudantes de jornalismo escarafunchando as prateleiras de literatura nacional bem ali, na letra “F” de Fonseca.

Não é difícil entender a razão. O autor era recorrentemente recomendado por professores e colegas da área por seu estilo “jornalístico”, direto e objetivo, destituído de adjetivos ou advérbios desnecessários. Não havia ali o rococó dos escritores românticos do século XIX que muitos liam por obrigação para o vestibular. E convenhamos, depois de um “Amor de Salvação” do português Camilo Castelo Branco, mergulhar numa obra de Rubem Fonseca como Lúcia McCartney, ou até mesmo um romance como Agosto, era uma delícia.

“Se você quer aprender a escrever, leia Rubem Fonseca”, era uma frase comum. Exagero, por certo, mas fato é que, o que muita gente pode ter começado por obrigação, invariavelmente se tornava puro prazer. Descobria que ali havia muito mais que um monte de frases curtas. Havia histórias surpreendentes, personagens complexos (tridimensionais diriam alguns) e diálogos marcantes. Tudo concatenado de modo que você podia ter certeza de que cada vírgula ali tinha um motivo.

A morte de Rubem Fonseca neste dia 15 de abril, aos 94 anos, vítima de um infarto fulminante, traz à memória aquelas obras que marcam nossas vidas.

O retrato de um Brasil urbano e violento

Os anos mais profícuos de sua carreira literária se estendem pelas décadas de 1960 aos 1980. Recorrendo a um estilo policial, e dando vida a personagens como o detetive Paulo Mendes, o Mandrake, Rubem Fonseca escreveu, e descreveu, um país violento, desigual, com uma elite apática e esnobe. Refletia, assim, um país que se urbanizava rapidamente, e acumulava as contradições desse desenvolvimento capitalista periférico.

Foi também o período de ouro do conto brasileiro, principalmente na década de 1970, e foi exatamente como contista que Rubem Fonseca se consagrou. Era a narrativa curta própria de um tempo moderno que já sofria a influência dos novos meios de comunicação, como a televisão, e os acontecimentos se precipitavam numa outra velocidade. As histórias, em geral recheadas de violência, muitas vezes explícita; sexo, muitas vezes explícito, vinham também com demonstrações ostensivas de erudição. E nisso, o formato do conto se adequava perfeitamente.

A desigualdade social e a barbárie aparecem de forma crua, como no conto inicial de Feliz Ano Novo (1975), em que jovens periféricos invadem um réveillon de uma família burguesa, trucidam a sangue frio, assaltam e estupram. O texto objetivo e seco, “jornalístico”, confere ainda mais impacto à narrativa.  Foi, aliás, da sua vivência como comissário de polícia, ocupação que manteve durante alguns anos na década de 1950, que tirou algumas histórias e personagens, além de descrições perfeitas do ambiente do crime, garantindo enorme verossimilhança às obras.

Seria injusto, porém, reduzir Fonseca a um mero narrador das próprias experiências como um autor beat. Como ele próprio dizia, um pressuposto para ser um escritor era ser doido, motivado, e ter imaginação. E alfabetizado, mas isso nem precisava tanto. Mas imaginação era o que não faltava. Como no conto “O desempenho”, texto de abertura de Lúcia McCartney (1969), que narra uma luta de vale-tudo, em primeira pessoa, com uma riqueza de detalhes, tanto técnicas como de sensações, que é difícil de acreditar que seja mesmo um texto ficcional. O próprio conto homônimo, sobre uma prostituta, também em primeira pessoa, é demonstração dessa capacidade. Lúcia McCartney, aliás, embora não seja considerado um dos melhores livros de conto do autor, é recheado de experimentalismo.

Embora tenha feito seu nome com o conto, Rubem Fonseca também transita com desenvoltura em outros formatos da prosa, como o romance (O Caso Morel, o romance “histórico” Agosto ou o noir A Grande Arte), e na novela (E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto). Obras que vão de geniais a medianas, mas que, em comum, guardam um perfeito domínio da narrativa. Por isso que grudam na mão de quem pega.

Reclusão e polêmica

Uma marca de Rubem Fonseca foi a sua aversão aos holofotes. Evitava entrevistas, fotografias ou qualquer tipo de aparição pública, a ponto de se disfarçar para sair na rua. Especula-se que isso tenha a ver com fatos pouco conhecidos, ou lembrados, de sua trajetória. Como o fato de ter integrado a direção do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), órgão formado e financiado no início dos anos 1960 por setores golpistas, com ajuda dos EUA, para organizar a base ideológica para a deposição de Goulart e a futura ditadura militar.

Aliás, teria sido a relação próxima com o próprio Golbery do Couto e Silva que teria viabilizado a edição dos primeiros livros de Rubem Fonseca, através do integralista Gumercindo Rocha Dorea, da direção da editora GRD (saiba mais aqui). Essa relação próxima com os golpistas teria surgido da posição do escritor, então alto executivo da empresa de energia Light.

Ironia do destino, a própria ditadura censurou a principal obra de Fonseca, Feliz Ano Novo, supostamente pela violência e o seu linguajar chulo (mesmo destino que teve outro grande nome da literatura e dramaturgia nacional, Nelson Rodrigues). O livro foi liberado definitivamente para publicação só após 1985. O autor nega qualquer apoio ao golpe de 1964, mas essa relação mantém-se obscura ainda hoje.

Legado

Mais de quatro décadas depois, Rubem Fonseca foi novamente vítima de censura. No início do ano, o governo de Rondônia, alinhado a Bolsonaro, inscreveu o autor no índex de escritores censurados, ao lado de escritores como Euclides da Cunha, Carlos Heitor Cony, Machado de Assis e Allan Poe, determinando o recolhimento de todos os seus livros da rede pública de ensino. A censura foi um escândalo, mas mostrou a relevância de Rubem Fonseca ainda hoje.

O escritor manteve-se ativo até os últimos anos de vida. Embora seus livros mais recentes não cheguem perto da originalidade das décadas anteriores, parecendo mais exercícios despretensiosos de escrita, mostram sua pulsão em criar.

Foi agraciado merecidamente com o Prêmio Camões em 2003, o maior prêmio da língua portuguesa, e com o mesmo merecimento figura no panteão dos grandes escritores da literatura nacional, inspirando e influenciando gerações de ficcionistas, ou de simplesmente leitores vorazes que tiveram a sorte de se deparar com sua obra perdida em algum sebo.