Restrição à entrada de haitianos no Brasil é uma medida discriminatória

A decisão do governo brasileiro de limitar a 100 o número de vistos aos haitianos é uma medida inédita e discriminatória. É a primeira vez na história do nosso país que é tomada uma decisão desse tipo. Não bastasse a absurda intervenção militar no Haiti, agora o governo toma essa atitude que é mais uma faceta do papel que o Brasil tem cumprido na propalada “missão de paz”. Ao mesmo tempo em que invade o Haiti com milhares de soldados, limita a entrada dos haitianos aqui. Essa é a paz que a missão chefiada pelo nosso país tem levado àquele povo.

O êxodo dos haitianos demonstra o desespero de um povo cujo país tem uma história de governos ditatoriais, tragédias naturais, miséria e fome. Desde a crise política aberta com a queda do Presidente Jean-Bertrand Aristides, o Haiti vive sob a nefasta intervenção militar da ONU chefiada pelas forças armadas brasileiras. A prometida reconstrução do país, necessária após o terremoto de janeiro de 2010, não aconteceu. Um furacão e uma epidemia de cólera somaram-se aos demais ingredientes que levaram a essa fuga em massa que começa a ocorrer na sofrida ilha do Caribe.

Brasil como “eldorado” é “isca” para mão de obra barata e precarizada – Atraídos pela propaganda enganosa de que o Brasil vive tempos de prosperidade e de que está imune à crise internacional, os haitianos pagam aos “coiotes” (atravessadores pagos pelos refugiados) até 5 mil reais. Eles enfrentam às vezes seis dias de viajam para chegar até aqui. No caminho muitas vezes são roubados, sofrem todo tipo de violência e privações. É uma versão sul americana do que acontece na fronteira dos EUA com o México. O que está reservado aos haitianos é o subemprego, o trabalho precário, baixíssimos salários e certamente péssimas condições de trabalho. As greves e revoltas nos canteiros de obras da copa demonstram isso.

Brasil: coiote oficial dos haitianos – O governo brasileiro tenta aparecer como quem se preocupa com os haitianos e diz que vai regularizar a situação dos que entraram clandestinamente. Em contrapartida anuncia o fechamento das fronteiras e a limitação dos vistos. O governo quer fazer do limão uma limonada. Tendo em vista que estes trabalhadores não têm nenhuma perspectiva em seu país, estarão mais suscetíveis a submeter-se ao trabalho precarizado nas obras do PAC e dos mega eventos (Copa e Olimpíadas). Ou seja, o governo vai assumir o papel de “coiote oficial”.

R$ 1 bi de gastos com militares para levar violência e repressão ao Haiti – Segundo dados oficiais, entre 2004 e 2011 foram gastos R$ 1 bi com a “missão brasileira” no Haiti. A presença hoje é de 2.200 militares, mas já passaram por lá cerca de 15 mil. Ao contrário da propagando oficial onde aparecem soldados brasileiros sendo saudados por haitianos, o que se viu nesses 7 anos de ocupação militar é outra coisa. Estupros, violência, repressão aos movimentos que se levantam indignados com a situação do país e nenhuma ação concreta para ajudar o Haiti a se reerguer como nação.

Os haitianos precisam é ter seu país reconstruído, sem intervenção militar e com autonomia para decidir seus rumos.

É preciso dar um basta na intervenção militar no Haiti e que aquele país possa ter sua autodeterminação garantida. Que os trabalhadores haitianos possam se organizar para lutar em defesa dos seus interesses e por um país justo. E por um governo que realmente atenda os interesses do povo pobre e não aos interesses da burguesia entreguista e associada ao capital internacional.

O Haiti precisa é de profissionais para a reconstrução e para ajudar a combater as doenças que assolam o país fruto da miséria que atravessam. Promessas de melhoria de vida para os haitianos no Brasil é uma armadilha para atrair trabalhadores para serem submetidos à super exploração e ao trabalho precário. Os nossos irmãos haitianos têm todo o direito de buscar melhoria de vida em nosso país, mas o que o governo está fazendo é vender ilusões para aproveitar-se do desespero desses trabalhadores.

  • Fora as tropas brasileiras, pela reconstrução do Haiti!
  • Alexandre Lopes, Assessoria Política da CSP-Conlutas