“Resistência está organizada em mais de 100 bairros da capital”

Honduras está sendo sacudida por protestos desde o retorno do presidente Manuel Zelaya. Além de manifestações em frente à embaixada do Brasil, onde o presidente se refugiou, há várias outros protestos nos bairros da capital Tegucigalpa. O Opinião Socialista entrevistou Tomás Andino, membro da Frente de Resistência Contra o Golpe, que falou sobre a situação


Opinião – Fale sobre as últimas manifestações populares e também sobre os protestos nos bairros operários.

Tomás Andino – No dia 22, houve uma forte repressão contra aqueles que estavam comemorando o retorno do presidente. A repressão ocorreu por toda a cidade e dispersou todos os manifestantes. Neste mesmo dia, à noite, houve um levante na maioria dos bairros de Tegucigalpa. A população saiu às ruas, mas a repressão foi dura. A polícia estava descontrolada. Neste dia, foi decretado o toque de recolher, que foi praticamente um estado de sítio, pois foram cassadas todas as liberdades.

A brutalidade do governo golpista causou uma grande indignação na população, inclusive em pessoas que não estavam participando dos conflitos. Ocorreram saques em supermercados nos bairros. As pessoas tomaram os supermercados para obter alimentos e remédios. Essa reação da população tem a ver com o toque de recolher imposto pelo governo, que impediu a população a comprar alimentos. Algumas delegacias de polícia também foram atacadas pelos manifestantes. As mobilizações nos bairros foram muito fortes e isso assustou muito a burguesia.

No dia seguinte [23], foi suspenso o toque de recolher. Neste dia, fizemos uma manifestação com 50 mil pessoas. Fomos até a embaixada, onde o cerco militar é muito grande. Lá, a manifestação foi reprimida pelo exército. Na quarta-feira, a polícia também desencadeou uma repressão mais seletiva nos bairros, indo à captura de dirigentes, mas teve o interesse particular de reprimir os jovens. Foi quando levaram os prisioneiros ao Estádio Olímpico [Chochi Sosa].

Ontem [quinta-feira, 25] foi um dia mais calmo. Não ocorreram mobilizações, apenas uma pequena marcha. A orientação foi trabalhar na organização nos bairros.
Como está essa organização nos bairros?

Tomás Andino – A organização é ainda rudimentar. Foi formada recentemente, em meio ao processo de lutas. Eu diria que em Tegucigalpa existem uns cem bairros que estão organizados, onde a base é praticamente formada por jovens. São os jovens que estão na vanguarda disso e se organizaram espontaneamente. Há outros bairros onde não existe organização da frente de resistência, mas as pessoas estão saindo pra lutar. Isso porque existem outros tipos de organização, como a de clubes desportivos, ligados aos clubes de futebol. São organizações dos próprios moradores que têm enfrentado as ações da polícia.

A orientação é continuar fortalecendo essas organizações locais. Também de manter-se nas ruas realizando manifestações centrais se dirigindo à embaixada brasileira. Também chamamos as pessoas de outros departamentos do país para que venham a Tegucigalpa. Neste momento há uma manifestação indo em direção à embaixada.

Como está o governo no momento? Existem fissuras nas fileiras da classe dominante?

Tomás Andino – Aparentemente existe um setor mais “político” que busca algum diálogo para evitar uma reação do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da comunidade internacional.

Mas, ao mesmo tempo, existe um setor duro no exército que pressiona para retirar o presidente Zelaya da embaixada. É uma situação contraditória. Na noite passada, esteve na embaixada uma comissão de diálogo, composta por políticos e pela Igreja. Mas hoje o exército lançou ataques com um gás tóxico contra a embaixada. Muitas pessoas lá dentro estão com graves problemas de saúde. Vomitam sangue e têm problemas para respirar. Estão lançando gases e não se sabe de que tipo. Aparentemente, há uma tentativa de retirar rapidamente o presidente antes que se agrave a situação. Por outro lado, há todo um discurso de diálogo por parte dos partidos golpistas.

O discurso de Zelaya chamando o diálogo tem causado muita confusão entre a resistência. As pessoas se questionam: do que está falando o presidente? Está dialogando com os golpistas ou está contra eles? Está pela derrubada dos golpistas?

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