Rede Globo: 40 anos de ilusões, estereótipos e ideologia dominante

“Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao Jornal Nacional. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranqüilizante após um dia de trabalho.”
Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), general-presidente durante a ditadura civil-militar.

Nunca houve melhor síntese político-ideológica, ética e estética sobre a função social desempenhada pela Rede Globo de Televisão ao longo dos 40 anos em que esteve no ar no país. “A vida é um programa ao vivo / Sem interrupções” – diz um spot publicitário da emissora anunciando o especial que marcará as comemorações, e continua – “Os próximos 40 anos estão começando / O futuro já começou / A gente se vê por aqui”. Na verdade, a declaração de Médici expressa as relações carnais que as Organizações Globo mantém com os aparelhos de Estado e as classes dominantes brasileiras desde que iniciou suas transmissões no Rio de Janeiro, em 26 de abril de 1965. Não é por acaso a quase coincidência entre a rememoração das quatro décadas passadas desde o golpe de Estado que deu início à ditadura civil-militar, durante o ano passado, e a celebração da Rede Globo, neste 26 de abril.

Há dois anos, quando da morte de Roberto Marinho, a semi-canonização do empresário a um só tempo aludia ao suposto empreendedorismo do proeminente “jornalista”, que “revolucionara” a comunicação e a cultura do Brasil, enquanto tratava de ocultar seu vínculo orgânico com o regime militar que possibilitara historicamente a ascensão e a consolidação do maior oligopólio em informação e entretenimento do país. O assento permanente de Marinho como censor jornalístico no Conselho do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da Era Vargas, o financiamento norte-americano para o “combate ao comunismo” – através do investimento de US$ 4 bilhões realizado pelo grupo Time-Life – e o apoio incondicional ao regime que parira a emissora, mais uma vez são eclipsados na revisão histórica que a Rede Globo faz de si mesma.

Muitos outros casos poderiam ser citados: a multitudinária concentração da Praça da Sé pelas Diretas-Já, transformada em celebração de aniversário da cidade de São Paulo, o apoio à Farsa da Nova República e ao Plano Cruzado de Sarney e a demonização da candidatura Lula em 1989. “Do mesmo modo como não se julga um indivíduo pela idéia que faz de si mesmo, não se pode julgar uma época de transformações pela consciência que tem de si mesma”, dizia Marx, “ao contrário, é preciso explicar esta consciência pelas contradições da vida material”.

A história da emissora se confunde com a implementação de uma autêntica indústria cultural de massas no país, a partir dos anos 60 – com a produção, circulação, distribuição e o consumo voltados para a lógica do mercado –, na esteira da modernização conservadora gerada pelo desenvolvimento capitalista associado e dependente no Brasil.

Assim que Lula assumira a Presidência da República, os porta-vozes oficiais das classes dominantes – no Jornal Nacional – trataram de beatificar o ex-operário no altar global, numa cerimônia na qual sacralizou-se a profana trajetória do migrante nordestino, dirigente sindical e agora presidente do Brasil. A empatia e a catarse, junto às classes oprimidas, estavam garantidas. As linhas de crédito conseguidas pela Globopar junto ao BNDES e a aproximação ao discurso (e à estética) propagandístico do “nacional-popular” – tradicionalmente mobilizadas pela direita burguesa e liberal do país – são os elementos materiais e ideológicos que conformam o novo consórcio histórico.

Através de centenas de telenovelas – gênero dramatúrgico dominado com maestria pelos especialistas da empresa –, da instalação da rede em países como Portugal, os projetos de educação à distância (Canal Futura, Fundação Roberto Marinho etc), do braço fonográfico (Som Livre) e da Globofilmes, as Organizações Globo influenciam consciente, objetiva e sistematicamente os “modos de ver, sentir e pensar a vida” de amplos contingentes populacionais que dependem, em 80% dos casos, única e exclusivamente da Globo para obter informações sobre o país. Porém enganam-se aqueles que julgam que não há crítica e resistência por parte das camadas sociais populares em relação às formas e aos conteúdos veiculados pela emissora. Como exemplo temos os acontecimentos de Sta. Cruz Cabrália (BA) e Porto Seguro (BA) onde a manifestação popular “Brasil Outros 500” – brutalmente reprimida pelas forças armadas, pela polícia militar e por tropas de choque de FHC e Antonio Carlos Magalhães – desmascara o governo federal e a Rede Globo – denunciando a farsa comemorativa dos “500 anos de descobrimento do Brasil”, em 22 de abril de 2000. Como se ouviu durante as Diretas-Já – e continua-se a ouvir em greves, manifestações e lutas diretas dos trabalhadores no país – “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”.

LEIA TAMBÉM:

OPINIÃO SOCIALISTA 191: Jornal Nacional: contando a versão dos poderosos

OPINIÃO SOCIALISTA 157: Roberto Marinho: uma longa e espúria história