Rebelião popular barra golpe na Venezuela

Em menos de 48 horas vimos desmanchar-se no ar o golpe militar contra o presidente Hugo Chávez da Venezuela, protagonizado pela Federação dos empresários, a burocracia da Petróleos de Venezuela (PDVSA), estatal petroleira, por setores pró-imperialistas das Forças Armadas e pela pelega Central dos Trabalhadores Venezuelanos (CTV).

A derrota do golpe foi protagonizada por uma verdadeira insurreição popular – acompanhada por uma espetacular divisão das Forças Armadas — que tomou as ruas de Caracas e de outras importantes cidades da Venezuela, como Maracay.

Os EUA estiveram por trás do golpe e tiveram o cinismo de apresentar ao mundo a versão de que o que ocorreu na Venezuela foi uma legítima ação “civil” para “restaurar a democracia”.

No momento que o governo imperialista de Bush desata uma verdadeira guerra contra os povos, apoiando a ofensiva nazista de Israel na Palestina, prometendo invadir o Iraque – depois de ter devastado o Afeganistão – para roubar o petróleo dos árabes; ao mesmo tempo saqueia a América Latina jogando na miséria países inteiros em proveito das multinacionais como fez na Argentina; quando vai estendendo seus tentáculos militares por todo o globo a qualquer pretexto, como o faz com o Plano Colômbia; o golpe militar na Venezuela é mais um lance para fazer valer seus interesses econômicos, políticos e militares.

A Venezuela é o terceiro maior fornecedor de petróleo para os Estados Unidos. Até uma criança sabe que a investida de Bush no Oriente Médio eleva o preço do petróleo e que a Venezuela, ao dirigir a OPEP, junto com os demais países produtores, controla a produção e o preço do mesmo. Como o governo de Chávez não era de sua inteira confiança, Washington patrocinou e comemorou o golpe.

Golpe foi derrotado nas ruas

Ainda era manhã de sábado, 13 de abril, quando os trabalhadores e o povo pobre de Caracas desceram os morros e favelas que cercam a cidade. Aos milhares concentraram-se em frente ao Palácio Miraflores, saquearam lojas e supermercados, cortaram estradas com queima de pneus, como a que liga o centro de Caracas ao subúrbio Guaremas. Calcula-se que morreram mais de 40 pessoas nos conflitos. Os saques continuaram na madrugada de domingo para segunda.

Na medida em que avançava a insurreição popular, as Forças Armadas se dividiam.

Por volta faz 3h30 da madrugada de domingo, Hugo Chávez estava de volta a Miraflores e às 4h35 se dirigiu à população de todo o país em rede nacional de rádio e televisão. Terminava o golpe militar.

Não à reconciliação com os golpistas!

O PSTU saúda a insurreição que derrotou o golpe militar como uma grande vitória do movimento de massas não só venezuelano, mas de toda a América Latina. Foi a espontânea mobilização das massas que derrotou o golpe, e não um contra golpe palaciano. Foi o levante das massas que fez com que a divisão das Forças Armadas desse um salto, levando a insubordinação de soldados, sub-oficiais e de parte da oficialidade, e obrigando os golpistas a recolocarem Hugo Chávez no poder para evitar “uma tragédia”.

Mas mal reassumia o governo, Hugo Chávez, ao invés de prender todos os oficiais e os setores golpistas da burguesia, submetê-los a um tribunal popular e expropriar todos os seus bens, propôs o estabelecimento de uma “mesa de diálogo” e fez um chamado à “reconciliação nacional”.

Da mesma forma que Allende, no Chile, meses antes do triunfo golpista de Pinochet em 1973, Chávez chama os trabalhadores e o povo a depositarem toda a sua confiança nas instituições do Estado, em particular nas Forças Armadas. A política de “diálogo” e “reconciliação” de Chávez só facilitará o caminho para um novo golpe militar mais bem preparado e articulado.

Chávez salvou o regime democrático burguês venezuelano reformando suas instituições e preservando a coluna vertebral das Forças Armadas. Mais do que isso: é um governo com fortes traços bonapartistas, que não hesita em utilizar-se de medidas repressivas contra o movimento operário e popular e sua livre organização política e sindical. Isso permitiu a que a burguesia e a burocracia corrupta da CTV ganhassem uma parte da classe trabalhadora para a oposição de direita.

Por outro lado, com a derrota do golpe e apoiado na mobilização popular, Chávez teria todas as condições de avançar em medidas contra o imperialismo e a grande burguesia para atender as reivindicações e necessidades dos trabalhadores e do povo pobre da Venezuela, como romper com o FMI, não pagar a dívida e estatizar todas as empresas privadas do pólo petroquímico.

Mas Chávez não quer tomar qualquer medida contra o imperialismo e os golpistas nacionais. E ameaça, inclusive, recuar de vários itens do pacote de 49 leis aprovado por decreto no final do ano passado, que havia, por exemplo, limitado a participação do capital estrangeiro no país.

Os trabalhadores e o povo da Venezuela demonstraram sua força com a derrubada do golpe militar. Por isso, devem confiar apenas na sua ação de massas e organização independente.

-Chávez deve romper com o FMI e não pagar a dívida externa!

-Expropriação dos grandes grupos econômicos norte-americanos instalados no país!

-Nenhum diálogo com os golpistas! Não à proposta de reconciliação nacional de Chávez!

-Prisão de todos os militares e burgueses golpistas e expropriação de seus bens!

-Estatização de todas as empresas privadas do pólo petroquímico e dos meios de comunicação do país!

-Eleição de todos os cargos de direção da PDVSA com mandatos revogáveis a qualquer momento pelos trabalhadores da empresa!

-Em defesa da organização independente e combativa dos trabalhadores venezuelanos!

-Fora o imperialismo da América Latina! Retirada das bases militares norte-americanas da Venezuela e de todo o continente!