Quando o racismo entra em campo

São poucos os que não reconhecem que a Copa é uma festa única, que mobiliza de forma apaixonada os corações e mentes de milhões de torcedores de todo o mundo. Menos ainda são aqueles que não apreciam a beleza dos jogos e a empolgação desmedida das torcidas. Contudo, são poucos, infelizmente, aqueles que conseguem ver que, para além dos estádios, não são raras as vezes em que o futebol reproduz umas das facetas mais nefastas da sociedade capitalista: o racismo.

O longo histórico dos episódios racistas em campos de futebol, no Brasil e na Europa, já é bastante conhecido e foi alvo de um artigo no Opinião, sobre o caso que envolveu o jogador Grafite e o argentino Desábato, em abril do ano passado. Aliás, de tão conhecidos, os ataques racistas se transformaram numa das principais preocupações dos organizadores desta Copa. O que não significou que a discriminação deixasse de ocorrer ou fosse realmente condenada pelos cartolas do futebol mundial.

Muito pelo contrário. A impunidade é o que tem prevalecido na maioria dos casos. As ridículas penas dadas aos racistas só incentivam que as atitudes continuem. Neste sentido, as faixas contra o racismo que foram estendidas nos gramados dos jogos da Copa surtem pouco ou quase nenhum efeito.

Racistas em campo…
As atitudes racistas são relevadas a um plano quase insignificante na carreira de jogadores e demais profissionais da bola. Exemplos lamentáveis disto presentes na atual copa, são os casos dos técnicos da Espanha e da Ucrânia.

Durante um treino da seleção, o espanhol Luis Aragonés foi flagrado dando a seguinte orientação para o meia José Antonio Reys em relação ao atacante Thierry Henry (França): “Olhe para ele e fale: Eu sou melhor do que você, seu negro de merda”. Registrado pelas câmeras, o ataque racista resultou em uma “multa” de 3 mil euros e nenhum questionamento foi feito sobre a continuidade do técnico à frente do time espanhol.

Já o ucraniano Oleg Blokhin ganhou lamentável notoriedade ao sugerir que todos os jogadores estrangeiros que atuam em seu país (africanos e negros em particular) são macacos, declarando à imprensa que seu time tinha que “aprender com o Shevchenko, e não com um Zumba-Bumba que ganha duas bananas para jogar”.

Já no que se refere aos torcedores, a possibilidade de ataques racistas também não são pequenas. Particularmente por parte dos neonazistas alemães, que antes mesmo no início do campeonato iniciaram uma campanha contra a presença de estrangeiros no país e, particularmente, em sua seleção. Um dos alvos preferenciais é Gerald Asamoah (nascido em Gana e hoje integrante da seleção alemã), que já foi alvo de “bananadas” em jogos de seu time (o Hannover) e de uma campanha com o seguinte “slogan”: “Branco. Algo mais que uma cor. Por uma seleção realmente branca”. Para infelicidade dos neonazistas, Asamoah é um dos destaques da seleção alemã, junto com a dupla de atacantes formada pelos poloneses naturalizados Klose e Podolski.

…e muito fora deles
Na Alemanha, somente em 2005 foram registrados 14 mil ataques racistas –, que os organizadores, de forma vergonhosa, distribuíram vasto material alertando os torcedores para as áreas consideradas “perigosas” para negros e estrangeiros em geral (as chamadas “no go areas” – “não vá para tais locais”). Ou seja, ao invés de prender e punir os racistas, decidiram simplesmente “isolá-los”. Uma medida que não é somente absurda e ineficaz, como também estimula os ataques fora destas áreas.

Algo que ficou evidente no dia 19 de junho, quando um adolescente alemão de origem etíope foi brutalmente atacado por neonazistas em meio a gritos de “Negro de merda! Alemanha para os alemães!”. Até o dia 20 de junho, pelo menos outros 30 ataques já foram registrados nas cidades em que estão sendo realizados os jogos.

Globalização do racismo
Outro fato que marca essa Copa é a enorme quantidade de jogadores – a maioria vinda de países pobres – que se naturalizaram e jogam em times estrangeiros. Neste mundial, a “legião estrangeira” atingiu o recorde de 64 jogadores. No Mundial de 2002, esse número era de 43. Além dos já referidos craques estrangeiros da Alemanha, talvez a seleção da França seja o maior exemplo disso. A maioria absoluta dos jogadores, inclusive o ídolo Zidane, descendente de argelinos, provém de ex-colônias do país. Jogadores brasileiros também atuam em outras seleções, como Deco (Portugal), Alex (Japão) e Marcos Senna (Espanha).

Se por um lado, a “internacionalização” do futebol expressa as cifras astronômicas da mercantilização do esporte, por outro, reflete o fenômeno da imigração para a Europa, onde milhares de trabalhadores fogem da miséria de seus países em busca de uma “vida melhor” e acabam trabalhando nos empregos mais precários, além de serem vítimas constantes de racismo promovido, sobretudo, por políticos reacionários e pelos governantes europeus.

Fato explicitado pelo líder fascistóide francês Jean-Marie Le Pen. Diante da insatisfação dos franceses com as evidentes dificuldades do time de seu país, Le Pen não demorou em achar um “responsável”. Segundo ele, a falta de identificação dos franceses com seu time se deve ao fato do técnico ter “exagerado na proporção de jogadores de cor”.

Exemplos a serem seguidos
Diante da vergonhosa conivência dos times e cartolas com o racismo, há de destacar ações como o do grupo teatral brasileiro “3 de fevereiro” – data em que o dentista negro Flávio Sant’Anna foi assassinado por policiais em São Paulo, em 2004.

Convidados para participar da “Copa da Cultura”, o grupo promoveu passeatas contra os ataques neonazistas a imigrantes, denunciou a existência das “no go areas” e apresentou um espetáculo-manifesto contra o racismo.

Aliás, já que estamos falando da Alemanha, um excelente exemplo histórico precisa ser lembrado. Foi no mesmo Estádio Olímpico de Berlim, onde serão realizadas as finais da copa, que o negro Jesse Owens humilhou um furioso Adolf Hitler, ao ganhar 4 medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1936.

Contudo, de lá para cá, a simples presença em campo, ou mesmo o desempenho fantástico de jogadores negros e estrangeiros estão longe de serem suficientes para se combater o racismo. Neste sentido, outro exemplo histórico no esporte tem que ser resgatado. Em 1968, em meio aos protestos que varriam o mundo, dois velocistas norte-americanos – Tommie Smith e John Carlos – ao receberem suas medalhas nas Olimpíadas do México, ergueram seus punhos, na típica saudação dos Panteras Negras e declararam: “Esta é uma vitória dos povos negros de todos os lugares da Terra”.
Uma atitude que está distante da omissão de gente como Pelé ou da vergonhosa assimilação do mito da democracia racial, como a de Ronaldo, que, no ano passado, declarou-se “branco”.

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