Quando o amor só é possível além das montanhas

Os atores principais do filme
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Ao acompanhar a história de persistência e impossibilidade do amor entre dois caubóis, O segredo de Brokeback Mountain é uma bela e poderosa metáfora sobre os obstáculos criados pela homofobiaO filme de Ang Lee tem que ser visto não simplesmente porque já recebeu alguns dos principais prêmios da indústria e da crítica cinematográficas mundial, além de ter recebido oito indicações para o Oscar (no qual, diga-se de passagem, apesar de todas as expectativas e da opinião da maioria dos especialistas, acabou não levando a estatueta de melhor filme). Brokeback é um filme essencial por aquilo que tem a dizer e pela forma que o faz.

Principalmente numa época como a atual, quando, por maiores que tenham sido as conquistas arrancadas (a duras custas) por gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros (GLBT), ondas conservadoras ganham força em todos os cantos do mundo. E quando, sob a capa de uma pretensa “aceitação” da homossexualidade, violência e homofobia continuam a brotar por todos os lados, fazendo da vida de milhões de pessoas uma história muitas vezes marcada pelo sofrimento e a dor.

Uma situação que permeia as vidas dos dois personagens centrais do filme – Ennis del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) -, fazendo de seu emocionante caso de amor uma história tão bela quanto profundamente melancólica.

Quando o isolamento é a única saída
Já não é “segredo” para ninguém que Ennis e Jack são dois caubóis “modernos” que, em pleno meio-oeste dos Estados Unidos, vivem uma história de amor, durante quase 20 anos, tendo como ponto de encontro a montanha que dá o título ao filme.

Uma montanha que, sem muita dificuldade, poderia ser equiparada aos muitos “guetos” aos quais o público GLBT se vê confinado nos dias de hoje. Afinal, tal qual as boates, os bares e locais similares da atualidade, a “montanha” de Ennis e Jack é o único espaço onde os dois podem “ser o que são”. É somente afastados do “mundo real” que eles podem viver seu amor.

Fora da montanha, assim como muita gente mundo afora, Ennis e Jack são empurrados para outras vidas. Vidas marcadas por casamentos infelizes, que tornam ainda mais infelizes não só estes homens como suas mulheres, que acabam servindo como meras coadjuvantes numa espécie de farsa para dentro da qual todos eles foram jogados por um mundo que prefere conviver com a mentira e com a hipocrisia do que aceitar que duas pessoas do mesmo sexo têm todo o direito de amar e construir uma vida juntos.

A grande força (e ousadia) do filme de Ang Lee é localizar esta história num mundo onde a própria idéia da homossexualidade é sistematicamente negada: o universo dos caubóis. Apesar de já ter sido insinuada ou aparecido de forma implícita em filmes como Rio Vermelho, Butch Cassidy ou Minha vontade é lei, este território sempre foi preservado como símbolo da masculinidade e dos valores tradicionais norte-americanos, principalmente o da “família” e dos princípios religiosos.

Neste sentido, também, Brokeback é brilhante. Baseado num conto de Annie Proulx, o filme conduz o espectador por dentro da história de Ennis e Jack com uma incrível delicadeza. Mais uma vez espelhado no que pode ser visto no mundo real, os dois homens se aproximam e se envolvem como se tudo fosse fruto de uma sucessão de casualidades e de um desejo quase animal por sexo, que resultam num sentimento de culpa e negação.

Contudo, não tarda para que eles descubram que o que os une é algo muito superior: a vontade de compartilhar a vida juntos, o companheirismo, a sensação de que é na relação deles que reside a felicidade. Enfim, aquilo que convencionamos chamar de amor.

Uma descoberta que, em nenhum sentido, é fácil. Criados e inseridos num universo que lhes nega sequer cogitar esta possibilidade, Ennis e Jack têm uma enorme dificuldade em lidar com suas próprias emoções, o que faz com que, em momentos chave do filme, eles se comportem da única forma que o mundo espera dos “machos”: através da negação dos próprios sentimentos e da agressividade.

Artifícios que, no entanto, não resistem a uma paixão que, apesar de vista como um “problema” é a única coisa que, de fato, dá sentido às suas vidas.

Vivendo num mundo errado
Em alguns dos mais belos momentos do filme, os personagens se dão conta que o real “problema” é que eles estão vivendo num mundo errado, num momento errado.

Algo que, de forma bastante interessante, já está explícito em seus próprios nomes. O mais calado e (aparentemente) resignado deles é Ennis del Mar (literalmente, “Ilha do Mar”), um homem para quem a solidão parece ser a única forma de vida. O outro, explosivo e determinado a tentar construir para si uma outra história, é Jack Twist, cuja tradução seria algo como um “Homem do Povo” – um Zé – “torto”, sendo que “twist” é praticamente um antônimo de “straight” (reto), termo que os norte-americanos utilizam para se referir aos heterossexuais.

Diferentes, eles se completam. De uma forma que poderia parecer improvável, eles se amam. Um fato que, certamente, incomoda muita gente. Dos reacionários que chamaram o boicote ao filme a, inclusive, parte significativa da crítica, nacional e internacional, que tem insistido na “tese” de que o filme não é exatamente “gay”.

Houve até quem escrevesse, por exemplo, que Ennis e Jack seriam, na verdade, bissexuais ou um casal “como outro qualquer”, que passa por intempéries em seu relacionamento. A tal “tese” tem como base o fato de os dois, no decorrer da história, constituírem família com mulheres e até terem filhos.

Além de totalmente despropositada na medida em que menospreza o simples fato de que são muitíssimos os homossexuais que trilham este mesmo caminho exatamente em função da homofobia que os persegue, esta abordagem não deixa de ser, ela própria, uma expressão do preconceito ao negar ou subestimar aquilo que o filme tem de mais importante: o fato de que estes dois personagens se amam (algo que está para muito além do ato sexual) e de que este amor tem que lutar durante quase vinte anos contra um preconceito muito maior do que a montanha que os abriga.

É neste sentido que o filme de Ang Lee é de uma perturbadora atualidade. Ao localizar a história num período que transcorre entre 40 e 20 anos atrás (a partir de 1963), o filme parece estar comentando sobre um “passado” há muito superado. Um mundo que já não existe mais. Contudo, como muitos sabem, a realidade é bem outra, apesar das muitas conquistas que a comunidade GLBT tenha conquistado.

E, talvez, seja isso que tenha incomodado tanto a muitos gays e lésbicas que assistiram ao filme e, apesar de terem se emocionado com ele, se sentiram insatisfeitos com os rumos que a história toma e o destino dos personagens, que (sem querer revelar o “segredo”) está longe de ser um final feliz.

Certamente, todos nós que vivenciamos a homossexualidade ou que defendemos os direitos GLBT gostaríamos ir ao cinema para ver histórias com “happy end”. Contudo, a realidade, infelizmente, ainda faz com tenhamos conviver também, com uma dolorosa freqüência, com a situação oposta ou com cenas de violência homofóbica como as que pipocam em dois “flashbacks” brilhantemente inseridos no filme.

Uma realidade que é tanto mais intensa quanto dolorosa para gente como Ennis e Jack. Gays e lésbicas que vivem distantes das grandes metrópoles ou simplesmente não tem poder aquisitivo para escapar desse mundo e adentrar os guetos. Gente, enfim, que vive sufocada por um mundo ainda mais conservador do que aquele em que os “guetos” são mais numerosos e acessíveis do que a linda montanha Brokeback.