Nesta quinta-feira (22), quando se completam 45 anos da invasão do campus pelas tropas militares comandadas pelo cel. Eramos Dias, a Universidade realiza o evento “PUC-SP pela Democracia – 45 anos depois da invasão”. A atividade acontece no Tuca, a partir das 9h, com entrada livre.

O ato é organizado pela PUC-SP em parceria com o Prerrô (Grupo Prerrogativas) e o Washington Brazil Office, que lançará um manifesto de convocação por eleições livres e respeito pelos resultados das urnas no Brasil (clique aqui para saber mais).

Diversos artistas, representantes da sociedade civil, juristas, jornalistas e acadêmicos, além da comunidade da PUC-SP, participam da atividade. Entre os nomes já confirmados estão a atriz Tuna Dwek (ex-aluna da PUC-SP), Helio Campos Mello (fotógrafo e jornalista que cobriu a invasão da PUC-SP em 1977), Kenarik Boujikian (juíza, ex-desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de SP e presidente do Tribunal do Genocídio), Silvia Pimentel (profa. da Faculdade Direito da PUC-SP e chefe de gabinete da Reitoria no ano da invasão), Rosalina Santa Cruz (profa. da Fac. de Serviço Social, Comissão Verdade da PUC-SP e presa política durante a ditadura militar), James Green (historiador e professor da Brown University – EUA), João Pedro Stédile (MST), Fernando Moraes (jornalista e escritor), Ricardo Melantônio (ex-aluno preso na invasão e atual diretor CIEE), além da reitora da PUC-SP em exercício, profa. Angela Cavenaghi Lessa.

Não é necessário fazer inscrição para participar.

Abaixo convocação pelos organizadores:

“45 ANOS DEPOIS DA INVASÃO, DITADURA NUNCA MAIS

Em todo o país, as ruas gritam: a democracia está em jogo. O ataque permanente às instituições democráticas, movido por aqueles que deveriam defende-las; o incentivo explícito, velado ou a simples conivência com a escalada da violência sob todas as suas formas, contra os povos originários, contra negras e negros, em especial, a juventude que vive nas periferias das grandes cidades, contra as mulheres e a comunidade LGBTQIA+, contra trabalhadores e trabalhadoras sem terra e sem teto; os assassinatos de lideranças e ativistas de movimentos de defesa dos direitos humanos, incluindo Marielle Franco, Dom Phillips e Bruno Pereira – tudo isso embalado pelo discurso do ódio, da intolerância ideológica, religiosa e política, tendo como contrapartida a permissão para o armamento indiscriminado da população coloca o Brasil no caminho de uma catástrofe. É urgente impedir o livre curso da barbárie.

A comunidade puquiana, formada por professores(as), funcionários(as), estudantes e ex-alunos(as), junta-se às vozes de milhões de brasileiras e brasileiros que gritam “não” ao autoritarismo, ao machismo, ao racismo e a todas as formas de intolerância. Ao fazê-lo, somos coerentes com a nossa história de resistência à ditadura militar, da qual o nosso Tuca é símbolo. Lembramos hoje, que há 45 anos, em 22 de setembro de 1977, as mesmas forças que agora ameaçam a democracia orquestraram a invasão da PUC, com um contingente de soldados armados com fuzis e bombas, como se preparados para tomar de assalto um terreno inimigo.

Fizeram centenas de estudantes prisioneiros, feriram dezenas – alguns, com grande gravidade. Mas, afirmamos, com orgulho, que a violência militar não nos abateu. A ditadura foi jogada ao lixo da história, mas nós continuamos aqui, como um espaço de democracia e liberdade. No próximo dia 22, vamos dar a nossa resposta, com a realização do ato “PUC-SP pela Democracia – 45 anos depois da invasão”, a partir das 9h00, no Tuca. Estaremos todas e todos juntos – comunidade puquiana, jovens, trabalhadoras e trabalhadores, integrante de movimentos sociais, intelectuais, militantes, artistas, representantes e porta-vozes de todas as forças que combatem os agentes do atraso e da barbárie. O ato vai lembrar o momento sinistro em que as tropas da ditadura violaram brutalmente a autonomia universitária. Mas também será um grito de alerta e resistência contra as sombras do passado autoritário que ainda atormentam o nosso presente e ameaçam o nosso futuro.

As eleições que se aproximam serão um momento de teste. Queremos que o resultado das urnas seja respeitado. Abominamos, de imediato, qualquer tentativa de golpe, intimidação ou desvio do curso do processo democrático. Por isso mesmo, nós nos declaramos em estado de vigilância permanente até o fim das eleições e a garantia de empossamento dos eleitos. Fazemos parte do movimento de conjunto oprimido, reprimido e explorado da nação brasileira, que hoje se levanta para lutar por seus direitos. Por isso, porque nós somos o futuro, sabemos que a vitória será nossa.”

A invasão militar e presos políticos

Sob o comando do então secretário estadual de Segurança Pública, coronel Erasmo Dias, no dia 22 de setembro de 1977, cerca de 900 homens da polícia política do general Ernesto Geisel, presidente da República, e da Polícia Militar de São Paulo invadiram o campus da PUC de São Paulo para reprimir uma manifestação estudantil. Isto ocorreu há 45 anos.

Uma reunião clandestina dentro da universidade havia dado o pontapé inicial para a reorganização da UNE (União Nacional dos Estudantes), fundando a Comissão Pró-UNE. Haveria um ato à noite. Dentre relatos sobre a época, alguns disseram que era para comemorar a reorganização da UNE, outros afirmaram que era em repúdio a prisões ocorridas no dia anterior. Na verdade, era uma combinação de fatores. O motivo central, sejam quais tenham sido as motivações, era enfrentar a ditadura militar. Para isso, mais de duas mil pessoas se juntaram em frente ao Tuca, o Teatro da PUC-SP.

Contudo, a tropa de choque invadiu a universidade pelos dois lados forçando os estudantes a entrarem no prédio. Espancaram alunos, funcionários, professores. entraram em salas de aula, nos diretórios acadêmicos. Destruíram parte do patrimônio da PUC-SP. Jogaram bombas de fósforo. Houve muitos feridos.

O integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Luís Carlos Prates, o “Mancha”, estudava Engenharia na Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e era membro do DCE e do Comitê Pró-UNE. Ele estava representando a Liga Operária na reunião clandestina. “Ao chegar a polícia, os estudantes se refugiaram dentro do campus, e eles invadiram o campus arbitrariamente, fizeram um corredor polonês e detiveram quase mil pessoas. Todos os estudantes indiscriminadamente foram presos. Eles alegavam que era a época do regime militar e que a gente estava fazendo um ato subversivo”, conta.

As pessoas foram levadas em cerca de vinte ônibus da PM para o batalhão Tobias de Aguiar. Após uma seleção, aproximadamente 80 estudantes foram encaminhados ao Dops e indiciados pela Lei de Segurança Nacional (LSN). Os presos que foram enquadrados na LSN acabaram sendo soltos no dia 23 diante das inúmeras manifestações que pipocaram pelo país inteiro.

Erasmo Dias, em entrevista ao Contraponto em abril de 2007, teve coragem de assumir e debochar da repressão sobre as mulheres. “Ali a rua é muito pequena, a Monte Alegre é muito estreita e mulher não sabe fugir. E mulher usava calcinha e sutiã de nylon, a fumaça do gás lacrimogêneo é quente pra burro. Resultado: queimou lá umas sete, oito meninas”. Foi dessa forma que mencionou as queimaduras que sofreram diversas estudantes.

Fonte de memória: PSTU (https://www.pstu.org.br/memoria-ha-30-anos-policia-invadia-a-puc-sp-e-espancava-estudantes/)

Foto: José Barbacena