PT, PSDB e PFL buscam acordão para sepultar a crise

ACM Neto (PFL) conversa com Delcídio Amaral (PT-MS), presidente da CPI
Agência Brasil

Somente a mobilização nas ruas pode fazer explodir acordo dos partidos corruptosNos últimos dias, novas denúncias de corrupção combinaram-se com a tentativa da realização de um acordão entre PT, PSDB e PFL para botar a termo a crise política do país.

À medida que o tempo passa, todos esses partidos se vêem cada vez mais submersos no mar de lama. São montanhas de dinheiro que passaram pelas contas de Marcos Valério e pagaram todo tipo de serviço, desde campanhas eleitorais (do PT ao PSDB e PFL), passando por honorários de advogados, despesas com publicidade na campanha presidencial de Lula, hotéis de luxo, até aluguel de jatinhos, festas, garotas de programa, charutos cubanos e uma lista de sujeira sem fim.

Por ora, parlamentares governistas e da oposição burguesa conseguiram costurar “uma interpretação coletiva” – frase pomposa usada pelos picaretas do Congresso que, na verdade, quer dizer acordão – sobre acelerar e encerrar o mais rápido possível os trabalhos da CPI e amenizar as investigações sobre os fundos de pensão.

O objetivo de todos esses partidos é chegar a um acordo fim, no qual alguns parlamentares seriam entregues aos leões – teriam seus mandatos cassados ou optariam pela renúncia –, restringindo ao máximo as investigações. Dessa forma, estaria preservada a política econômica neoliberal, a sujeira dos partidos da oposição burguesa e Lula seguiria blindado, apesar de todas as evidências de que ele sabia de todos os trambiques.

No entanto, a proposta do acordão enfrenta várias crises. Alguns dos parlamentares que deveriam ser cassados, especialmente Roberto Jefferson e José Dirceu, espernearam diante da possibilidade de perderem seus mandatos. Não aceitam servir como bode expiatório da crise.

Por outro lado, Lula não aceita recuar da possibilidade da reeleição, e ainda segue tendo 35% das preferências populares, o que ainda lhe asseguraria a eleição caso fosse hoje.

Isso leva a que o acordão não esteja acertado, e a seqüência da crise. A oposição burguesa até aponta em direções opostas, deixando correr novas denúncias contra Lula, ao mesmo tempo em que segue negociando o acordão.

Bomba atômica de Roberto Jefferson
Diante do depoimento de Zé Dirceu no Congresso, Jefferson resolveu subir o tom e envolveu Lula diretamente nas acusações, dizendo que Dirceu intermediou um contato do presidente com representantes da Portugal Telecom. Chegou a permitir a publicação de um trecho de sua famosa entrevista à Folha de S.Paulo quando admite que “Lula sabia” da corrupção. Dias depois, no entanto, recuou e falou que foi “mal interpretado” e livrou, novamente, a cara de Lula. Mas na última segunda-feira mudou de idéia de novo e voltou a envolver Lula nos escândalos.

Assim Jefferson faz chantagem contra o governo, ameaçando revelar todas as tramóias que sabe, procurando preservar seu mandato. Uma revelação do envolvimento de Lula teria o efeito de uma bomba atômica na crise, por isso Jefferson procura usá-la como uma arma de dissuasão para safar-se, mantendo o governo acuado e com pânico de que ela possa ser usada.

Sobrevida de José Dirceu
José Dirceu não disse uma única verdade no seu depoimento – nenhuma de suas afirmações se sustentou por mais de 48 horas –, mas, mesmo assim, conseguiu uma sobrevida e obter algumas vitórias dentro do PT. Na última reunião da direção desse partido, Delúbio Soares, réu confesso de crime eleitoral, em vez de ser expulso, foi afastado por 90 dias. Na prática, o partido blindou o ex-tesoureiro e nada decidiu sobre punições aos parlamentares que sacaram dinheiro das contas do empresário Marcos Valério. Dirceu foi o responsável direto por essa resolução. Ele também puxou o tapete e desmoralizou o grupo liderado por Tarso Genro, novo presidente do PT que pretende “renovar” o partido, embora faça parte da mesma corrente do ex-ministro, quando impediu a aprovação de uma resolução que impedia os deputados petistas que renunciassem de usar a legenda do partido nas próximas eleições. Desse jeito, livrou sua própria cara e a da sua turma (Luizinho, João Paulo Cunha e Cia.). Além disso, fez chegar até a imprensa denúncias contra Tarso Genro, de como também o novo presidente do PT recebeu dinheiro de Valério nas eleições.

Assim, Dirceu luta para preservar seu mandato, mesmo melando uma parte importante do acordão.

O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, também está ajudando Dirceu e disse que, por ora, não vai mandar a representação de abertura de processo contra o petista.

PSDB e PFL querem voltar
A oposição burguesa procura fazer o acordão com o governo para impedir que a lama dos anos que estiveram no poder não venha à tona. Buscaram com a crise forçar que Lula abrisse mão da reeleição, como FHC sugeriu num artigo publicado pela revista Exame. Nas cordas, Lula procurou fazer um tour popular/demagógico, proferindo discursos exaltados para platéias cuidadosamente selecionadas. A ação de Lula provocou a reação de alguns setores da oposição burguesa. Os senadores Álvaro Dias e Tasso Jereissati, ambos do PSDB, elevaram o tom e começaram a declarar que Lula está envolvido na corrupção. Contudo, a política da oposição burguesa de conjunto não mudou qualitativamente. Não buscam derrubar o governo e sim desgastar Lula, comprometendo a sua reeleição, para voltar ao poder em 2006. O próprio FHC atesta essa compreensão quando num artigo para o jornal O Globo diz: “estamos cheios de cuidados para não atribuir ao presidente culpas específicas em função de suas responsabilidades gerais”.

O acordão ainda não está costurado, enfrenta crises de toda ordem. Mas, no final das contas, PT, PSDB e PFL vão chegar a um acordo, caso o movimento de massas não entre em cena. Por isso, é tão importante o ato do dia 17 de agosto convocado pela Conlutas.

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