Precisamos ou não de uma nova entidade?

Desde a chegada de Lula ao governo federal, uma apaixonada discussão tomou conta do movimento estudantil nacional: a necessidade ou não de uma ferramenta de luta e de organização alternativa à UNE. Passados seis anos, é preciso realizar um balanço dessa polêmica. Em nossa opinião, existe um critério fundamental para essa avaliação: as lutas que os estudantes protagonizaram ao longo destes anos, quais foram seus significados e quais são suas perspectivas.

Duas posições centrais se constituíram no interior do movimento estudantil combativo e de oposição ao governo. De um lado, os que defendem a necessidade da ruptura com a UNE e a construção de uma alternativa democrática, de luta e independente. De outro, os que defendem a permanência na UNE e o fortalecimento da oposição interna. Neste período, os estudantes foram às ruas, ocuparam dezenas de reitorias, realizaram importantes greves e protagonizaram grandes mobilizações. Achamos que foram essas lutas que melhor responderam à questão: romper ou não com a UNE, construir ou não o novo?

O que disseram as lutas?
O movimento estudantil voltou à cena política do país com as ocupações em 2007. A ocupação da reitoria da USP, a luta contra o Reuni e a ocupação na UnB marcaram esse novo momento. O enfrentamento com a implementação da receita neoliberal para a educação ganhou força. Nessas mobilizações, foi possível melhor avaliar o papel que cumpre a UNE e a necessidade de uma alternativa.

A UNE não somente não esteve nas lutas, como se encontrou do outro lado da barricada. Foi contra a ocupação da reitoria da USP, ficou na linha de frente da defesa do Reuni, foi a co-autora do projeto de reforma universitária, recebeu milhões do governo federal. O resultado não deixa dúvidas, os processos de luta que sacudiram a juventude no último período se deram por fora da UNE e objetivamente foram contra ela.

Mas as lutas disseram mais. Na medida em que avançou o processo de mobilização, se fez sentir uma debilidade: a falta de um instrumento de luta nacional que pudesse organizar as lutas nacionalmente. A onda de ocupações e a luta contra o Reuni poderiam ter obtido um resultado superior se encontrassem apoio em uma entidade nacional que articulasse e unificasse os processos de mobilização. Uma nova ferramenta de luta é uma necessidade para o fortalecimento das lutas do movimento, assim demonstraram as lutas dos últimos anos.

É preciso disputar a UNE?
Existe um amplo consenso no movimento estudantil combativo: a UNE não organiza mais as lutas, se encontra burocratizada, atrelada ao governo federal, e não é possível mudar os rumos da entidade. Contudo, os setores de esquerda que defendem a permanência na UNE argumentam em torno de três questões centrais: como é possível abandonar a disputa dos milhares de estudantes que vão aos fóruns da UNE? Se a UNE é amplamente majoritária nas universidades pagas e, portanto, maioria entre os estudantes do país, não seria absurdo romper com uma entidade de massas? Sem um crescimento das lutas, não seria uma aventura construir um nova entidade?

Em primeiro lugar, achamos muito importante realizar a disputa de consciência dos estudantes que são base da UNE. Mas não concordamos que ela se dá nos fóruns da entidade. A disputa fundamental ocorre nas salas de aula, nas mobilizações concretas, no dia-a-dia do movimento. É assim que ocorre a batalha efetiva pela consciência dos estudantes e o enfrentamento com o governismo. Acreditar que a disputa pela base da UNE passa pelos seus fóruns só faz semear ilusões de que é possível mudar os rumos da entidade.

Mas, se a UNE é majoritária nas universidades pagas, que são a grande maioria das escolas do país, romper com a entidade não deixaria os estudantes das particulares na mão dos governistas? Mais uma vez o mesmo erro: identificar a disputa dos estudantes com a disputa dos fóruns da UNE. É fundamental que a esquerda combativa atue nas particulares. Em cada universidade paga, é preciso disputar os rumos do movimento com o governismo.

Mas há um segundo erro de avaliação da esquerda da UNE: superestimar o peso da entidade em pagas. Os principais processos de lutas em particulares não vêm sendo dirigidos pela UNE: foi assim nas ocupações de reitoria da PUC-SP e da Fundação Santo André. Onde existe movimento real em particulares, o peso da UNE é pequeno ou inexistente. Essa foi realidade expressa nas mobilizações nas particulares.
Existe um terceiro argumento que questiona a ruptura com a UNE e a construção de uma alternativa: a falta de um ascenso de lutas. Também não concordamos com esse argumento. Em primeiro lugar, porque a juventude passou por um intenso processo de mobilização. Foram lutas que envolveram milhares de estudantes, ganharam repercussão nacional e obtiveram conquistas importantes.

Em segundo lugar, porque a construção de uma alternativa pode contribuir e facilitar o surgimento de uma nova onda. Sendo assim, a existência de uma nova entidade se sustenta nas mobilizações da juventude do último período e na necessidade de uma nova ferramenta de luta para fortalecer os combates do futuro.

De que precisamos?
A crise econômica coloca a juventude diante de grandes desafios. Novas e grandes lutas virão, a juventude voltará às ruas e às ocupações de reitoria. A construção de um novo instrumento de luta e de organização é uma necessidade para que possamos avançar em nossas mobilizações. Contudo, essa nova ferramenta deve se organizar e ter um formato radicalmente distinto da UNE.

A nova entidade deve ser amplamente democrática, controlada pela base dos estudantes. Um instrumento de luta não deve ter diretoria eleita, deve ser organizado pelas entidades de base e DCEs. A independência em relação aos governos e reitorias deve ser total. Seu programa devem ser as bandeiras históricas do movimento que a UNE abandonou e a aliança com trabalhadores para enfrentar a crise. Com a palavra, a esquerda da UNE.

Post author Gabriel Casoni, da Secretaria Nacional de Juventude do PSTU e do DCE da USP
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