Plano de Bush de US$700 bi premia banqueiros

A crise financeira e econômica que se espalha a partir dos EUA deu um salto nas últimas semanas. Bancos centenários quebraram e o mercado financeiro sofre uma forte turbulência que atinge as bolsas de todo o planeta. O governo Bush e os bancos centrais, por sua vez, tentam conter a crise despejando bilhões nos mercados.

No último mês o Fed, banco central norte-americano, radicalizou sua política de resgate das instituições em crise e já gastou, desde o início da crise, algo entre US$1 trilhão e US$1,5 trilhão. Quase o dobro de tudo o que foi gasto até agora na invasão do Iraque. Grande parte do sistema financeiro norte-americano está hoje nacionalizada.

Pacote de Bush
No último dia 14, o governo Bush anunciou o mais ousado plano de resgate financeiro desde a grande depressão de 1929. O pacote, cujos valores vazaram para a imprensa antes de serem oficialmente anunciados, pode chegar a US$700 bilhões. Consiste basicamente na compra de ativos podres de instituições financeiras, ou seja, ações lastreadas nos créditos hipotecários cujo retorno, por causa da inadimplência, é bastante improvável.

O plano divulgado, de apenas três páginas e sem detalhes, ainda concede poder ao secretário do Tesouro nacional norte-americano, Henry Paulson, de escolher quais ações serão compradas. Ainda garante imunidade ao Departamento do Tesouro contra futuros processos judiciais. O plano de Bush está sendo comparado ao Ato Patriota, lei aprovada após o 11 de setembro que conferiu maiores poderes ao Executivo.

Na prática, o pacote premia os próprios banqueiros que ergueram o castelo especulativo que agora desaba e mergulha o mundo numa crise sem precedentes. O plano prevê a compra das ações podres pelos valores que elas tinham antes da crise. Isso representa o dobro do que essas ações valem hoje no mercado, para garantir a solvência do mercado, ou seja, os lucros dos banqueiros e investidores.

Num período em que a economia norte-americana já mergulha numa recessão, a inadimplência sobe, assim como a inflação e o desemprego, o plano de Bush desvia bilhões do orçamento público para ajudar banqueiros e especuladores. O plano eleva o limite do endividamento público, dos atuais US$10,6 trilhões para US$11,3 trilhões. Hoje ele está em US$9,6 trilhões.

Resistência
No dia 23, o governo apresentou o plano à Comissão de Bancos do Senado. Henry Paulson e Ben Bernanke, atual presidente do Fed, defenderam, lado a lado, a aprovação imediata do plano, sob o risco da economia cair numa grave recessão. Já as bolsas em todo o mundo caem devido à indefinição sobre a aprovação do projeto, numa clara chantagem para o pacote ser aprovado na íntegra.

Tal tarefa, porém, não será muito fácil. Sentindo-se desprestigiados e em ano eleitoral, os senadores, tanto republicanos quanto democratas, contestaram o plano tal como está. O congresso norte-americano propõe estender a ajuda aos mutuários com dificuldades de pagar os empréstimos, limitação dos salários dos executivos das instituições beneficiadas e o aumento da fiscalização. Embora as propostas dos congressistas não contestem a essência do pacote, Bernanke e Paulson rejeitaram categoricamente qualquer ajuste.

Apesar do discurso do governo Bush e do pacote emergencial, a forte intervenção estatal está se mostrando insuficiente para estancar a crise financeira, que só se aprofunda.