Peru:Histórica Jornada Nacional de Luta de 11 de julho

Publicamos um artigo do Partido Socialista dos Trabalhadores peruano – seção da LIT-QI no país – sobre a mobilização do último dia 11 que sacudiu o país. Desde o mês passado o Peru é varrido por uma onda de greves que tiveram início com um movimento de professores das escolas públicas contra a Lei da Carreira Pública do Magistério, promulgada pelo governo e que estabelece avaliações e demissões aos docentes. Mineiros e metalúrgicos se juntaram às mobilizações nos dias 10 e 11. O governo do presidente Alan García, eleito no ano passado, respondeu às manifestações com uma brutal repressão.

Superando todas as estimativas e expectativas, no 11 de julho foi realizada uma massiva e estrondosa jornada nacional de luta contra o governo de Alan García. Suas extraordinárias proporções fizeram recordar a Marcha de los 4 Suyos*, de julho de 2000, que significou o início do fim do regime ditatorial de Fujimori e Montesinos.

Em Lima, mais de 50 mil trabalhadores abarrotaram mais de vinte quadras do centro da capital em uma mobilização de três horas, para terminar na praça San Martín, a qual se manteve cheia durante o comício de encerramento. Previamente, ao ponto de origem – a praça Dois de Maio – chegaram intermináveis colunas de professores dos diferentes setores da educação de Lima, assim como as massivas formações de professores das outras regiões que se encontram em Lima como parte da greve indefinida que iniciaram no dia 18 de junho. Por estar protagonizando uma greve, a principal luta nacional, o Sutep (sindicato dos professores) foi designado para presidir a mobilização.

Também se concentraram os trabalhadores da construção civil e sindicatos do setor têxtil como Topy Top – que acaba de obter uma vitória importante com a reposição de seus 93 demitidos – e São Sebastião, e as bases de Lima dos docentes universitários da Fendup.

Outra coluna importante, composta por mais de uma centena de trabalhadores corretamente organizados, foi a do sindicato operário de Celima, que cumpriam o segundo dia de sua vitoriosa paralisação de 48 horas. Na concentração também balançaram as bandeiras dos trabalhadores estatais de saúde e educação, numerosas bases em luta da indústria e agrupações estudantis das universidades San Marcos, La Cantuta e La Molina. Também foram erguidas bandeiras exigindo a liberação de Rony Cueto e Tomás Cari, dirigentes sindicais dos contratados da Shougang injustamente detidos – o primeiro está preso desde 5 de junho.

Também estiveram presentes organizações políticas e grupos de direitos humanos, para somar à luta o protesto contra a indignante sentença do juiz chileno que negou a extradição do sanguinário e corrupto ex-ditador Alberto Fujimori.
No interior do país houve mobilizações e greves em numerosas cidades, muitas delas radicais. Entre as mais destacadas figuram as mobilizações dos camponeses contra o TLC (Tratado de Livre Comércio) e das comunidades que enfrentam os estragos da exploração mineira, petroleira e gasífera por parte de transnacionais e das grandes empresas.

Resposta contundente
A jornada de 11 de julho foi uma clara resposta à política de repressão criminal e às constantes provocações e chacotas do governo de Alan García e do Apra, uma conduta de governo gorila que se manifestou também em sua decisão de mobilizar as tropas do exército para provocar medo na população.

A extraordinária magnitude da mobilização em Lima não foi a única semelhança com a Marcha de los 4 Suyos. Também o foi o impressionante deslocamento das forças policiais e do exército. No centro de Lima foram vistas exatamente as mesmas formações de três a quatro filas de policiais em cada entrada de rua do Damero de Pizarro, bloqueando o ingresso na praça Mayor e ao Palácio de Governo. As pontes que dão acesso ao centro desde o Rímac também foram fechadas ao tráfico de pedestres, provocando um grande mal-estar na população. A julgar pelo deslocamento policial e militar, foi um dia de pânico para o governo.

A conduta gorila desse governo se mostrou patente também em sua resposta quase simultânea a essa jornada de luta: uma direta provocação ao promulgar de maneira violenta a Lei de Carreira Pública do Magistério, precisamente a medida contra a qual estão mobilizados mais de 200 mil professores dos colégios primários e secundários de todo o país, os quais se encontram em greve indefinida com mobilizações cotidianas.

É pois um governo que está incitando o confronto ao redor das medidas do plano neoliberal, as “reformas” que privatizam e promovem as demissões em massa, o pagamento da fraudulenta dívida externa e a aprovação do TLC, medidas que afundarão mais nosso país na recolonização por parte do imperialismo norte-americano. Neste propósito, goza do eufórico respaldo da patronal e das multinacionais, assim como dos setores políticos mais reacionários. Mas do povo trabalhador, a amplíssima maioria do país, só obtém o repúdio e o rechaço.

A jornada de luta do dia 11, que sem dúvida elevará o espírito de luta das massas trabalhadoras peruanas, marca o caminho rumo a novas grandes jornadas. É fundamental dar continuidade a esta luta, organizando uma paralisação nacional e a greve geral.

Fazendo o jogo do governo

Da redação,

No último dia 19, a Convenção Nacional Extraordinária do Sutep, presidida por Luis Muñoz, suspendeu a greve nacional causando uma reação de rechaço em amplos setores do magistério em Lima e nas províncias. Muitos consideraram a decisão uma traição. Agora o governo se encontra negociando entre quatro paredes com os burocratas sindicais.

Vários ativistas estão denunciando a manobra de Muñoz e tentam reverter a situação, propondo a retomada da greve.

A decisão faz o jogo do governo, que chantageou o movimento e disse que os professores deveriam suspender a greve se quisessem dialogar. O movimento docente, em várias assembléias anteriores, resolveu que a greve continuaria até que o governo se dispusesse a solucionar as demandas.

Apesar das manobras, a situação política do país continua explosiva e muitas categorias ainda se encontram mobilizadas. O desgaste do governo agora se amplia para as tradicionais direções sindicais. Muitos percebem a hora de construir uma direção para as lutas.

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