Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça

    Artigo de Zé Maria sobre os 50 anos do Golpe Militar no Brasil

    No dia 31 de março, ou 1º de abril segundo parte da historiografia mais independente, completaram-se 50 anos do golpe militar que inaugurou 21 anos de um regime de exceção no país. Foram anos de perseguição em que a oposição foi cassada, presa, torturada, assassinada e exilada. Durante alguns anos, esse tema consistiu num certo tabu na sociedade brasileira, mas de um período para cá apareceram inúmeros filmes, livros, estudos, etc. O Brasil se esforça para entender aqueles anos. Seu significado e as marcas profundas que deixaram no país até hoje.

    Sofri de perto as agruras do regime de chumbo. A primeira vez em que fui preso foi em abril de 1977, junto com Celso Brambilla e Marcia Basseto. Éramos bastante jovens na época, tinha apenas 19 anos e não sabia que meus dois companheiros integravam uma organização clandestina na época, a Liga Operária, que daria depois origem à Convergência Socialista e ao PSTU. Fomos presos pela única razão de estarmos distribuindo um panfleto sobre o 1º de maio em São Bernardo do Campo (SP).

    Fomos detidos e então levados ao DOPS, onde ficamos uma semana sendo espancados e torturados. O Celso inclusive ficou com sequelas graves, perdendo a audição de um ouvido. Ficamos 40 dias presos e só fomos soltos porque houve uma mobilização estudantil, inclusive com greve de fome, a nosso favor e o regime foi obrigado a reconhecer que estávamos sob sua custódia.

    Em 1980 fui preso pela segunda vez, agora já como membro do comando de greve dos metalúrgicos de Santo André, junto com outros sindicalistas, como o próprio Lula. Ficamos um mês presos e fomos enquadrados na Lei de Segurança Nacional.

    Da primeira vez que saí da prisão, fui direto para as fileiras da Liga Operária, movido principalmente pela indignação com tudo que passei lá, principalmente, pelo que vi meus camaradas sofrerem. Saí da prisão com uma certeza, pelo menos. A de que era preciso fazer algo para mudar o país. E com a Liga Operária aprendi que a melhor maneira de fazê-lo era através da organização.

    A Liga Operária existiu até o final da década de 1970 para dar lugar ao movimento Convergência Socialista. Tentamos construir um partido socialista, amplo, no país. Não conseguimos, toda a direção do nosso grupo foi presa pela polícia política do regime, em agosto de 1978. Buscamos ajustar nossa política e deste processo nasceu a idéia de um partido dos trabalhadores no país, a proposta do que viria a ser o Partido dos Trabalhadores.

    Foi todo um período muito rico e efervescente, em que a classe operária se mobilizava, derrubava os pelegos dos sindicatos e confrontava o governo. Vimos recentemente a força dos garis do Rio de Janeiro que, com o apoio da população, dobraram o governo e a polícia.

    Estamos vendo agora a rebelião dos operários da construção civil no Comperj, contra a direção pelega do seu sindicato. Processos como estes eram muito comuns naquela época, e foi essa energia e disposição para a luta da classe trabalhadora que alimentou a campanha pelas Diretas-já e jogou a pá de cal naquele regime que agonizava.

    Passados 50 anos do golpe militar e 30 do final da ditadura, apenas recentemente vem ganhando corpo em nosso país a idéia de que é preciso rever este período da história de nosso país. Buscar a verdade, a memória e justiça. O Brasil é o país mais atrasado da América latina nesse quesito. Na Argentina, no Uruguai e mesmo no Paraguai já há generais e oficiais militares punidos pelos crimes que cometeram durante o regime militar. Os governos civis, desde a transição até hoje – incluindo, infelizmente os dois governos do PT – acobertaram e protegeram os generais.

    A Comissão da Verdade designada pela presidente Dilma está buscando informações e avançando em conclusões mais por iniciativa de seus integrantes do que pelas atribuições a ela definidas pela lei que a criou (que descarta a utilização das informações levantadas para fim de qualquer punição aos militares).

    Não são apenas os militares que estão sendo protegidos neste processo. Inúmeras empresas, multinacionais inclusive, ajudaram a financiar a preparação do golpe de 64 e, depois, financiaram a estrutura para a repressão oficial e extra-oficial do regime contra trabalhadores e jovens que ousaram questionar a ditadura. Repousa sobre as costas destas empresas, também, a responsabilidade pelas torturas e assassinatos praticados pelos DOI-CODIs, pela Operação Bandeirantes, etc. Foram empresas que financiaram até a compra dos móveis destes aparelhos de repressão. Por isso tem sido usado o termo “ditadura civil-militar” para designar o regime inaugurado em 1964.

    Rever este período é necessário para resgatar a memória, restabelecer a verdade e buscar justiça, com a punição dos torturadores, seus mandantes e das empresas que os financiaram. Mas não só para isso. Como se diz por aí, é sobre o nosso passado que construímos nosso futuro. O Brasil vive nos dias atuais, por determinação dos governos dos estados e também do governo federal, uma onda de repressão violenta contra as manifestações populares e da juventude.

    Há uma enxurrada de inquéritos e processos sendo produzidos pela polícia dos estados contra ativistas e lutadores políticos e sociais. A presidenta Dilma acaba de colocar as Forças Armadas do país à disposição para conter mobilizações durante o período da Copa do Mundo, trazendo a tona novamente a militarização das ruas como forma de enfrentar os protestos do povo.

    Aqui, o que está sendo colocado em questão são os direitos democráticos da população, as liberdades que tanto lutamos para conquistar contra a ditadura. Muitos perderam sua vida nesta luta. A própria presidenta da República foi presa e torturada nesta luta. Que explicação então se pode dar a essas medidas que, obviamente, não apontam para o futuro que queremos construir para o nosso país, e sim para o passado que queremos superar?

    A explicação convém procurar nas relações dos governos atuais, incluindo os do PT, com as grandes empresas, que controlam a econômica em nosso país e no mundo. Foi a serviço destes grandes grupos econômicos, nacionais e internacionais (que no âmbito internacional tem no governo dos EUA seu principal representante político), que os militares deram o golpe e governaram este país por 21 anos.

    Os governos atuais governam o país e os estados a serviço destes mesmos grandes grupos econômicos (antes as empresas financiaram a repressão, agora financiam as campanhas eleitorais dos políticos destes partidos). Ao reprimir e criminalizar os movimentos sociais estão defendendo os interesses dessas grandes empresas. Triste ver também o PT cumprindo um papel como este.

    Fica, por último, minha homenagem a todos que lutaram contra a ditadura civil-militar, principalmente àqueles que perderam sua vida nesta luta. E a exigência de que seja restabelecida a verdade, a memória e a justiça, com a punição dos torturadores, seus mandantes e empresas que os financiaram. Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça!

    Texto originalmente publicado no site do Congresso em Foco no dia 02/04/2014

     

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