Para onde vai Hugo Chávez?

Presidente sofreu importante desgaste em setores dos trabalhadores

As eleições na Venezuela foram cuidadosamente acompanhadas em todos os países da América Latina e muitos outros além do nosso continente. Adversários políticos dos governos da Argentina e de outros países acompanharam Henrique Capriles, enquanto outros torciam para Hugo Chávez. As expectativas são bastante compreensíveis. Chávez, após 14 anos no cargo, enfrentou pela primeira vez uma oposição unida ao mesmo tempo em que enfrentava um crescente desgaste entre os trabalhadores, sua base social tradicional.

O que aconteceu na eleição?
Chávez venceu as eleições com 55,25% (8.136.964) dos votos em uma eleição com pouca abstenção: votaram mais de 80% do eleitorado. O número de votos do partido do governo não é pouca coisa quando você considera os 14 anos do chavismo no poder.

Porém, é importante notar que a oposição burguesa liderada por Capriles conseguiu um salto significativo para obter mais de 6 milhões de votos, dois milhões a mais do que na eleição passada (um crescimento de 50%).

O resto dos candidatos dividiu um número muito pequeno de votos, quase 80 mil, mostrando a grande polarização entre os dois principais candidatos. Neste quadro, a candidatura de Orlando Chirino, a única que apresentava independência de classe, conquistou 4.103 votos.

A ruptura com Chávez
Mas os números e o triunfo de Chávez não podem nos confundir. As eleições se realizaram em um cenário prévio de luta, manifestações e protestos com reivindicações de salários, serviços (especialmente água, eletricidade e infraestrutura), acordos coletivos e uma longa lista de reivindicações. Muitas delas apresentavam antigas reivindicações e continuam depois das eleições, pois falta resposta a elas.

A perseguição dos líderes sindicais que impulsionavam essas lutas, ou simplesmente não se encaixam no partido de Chávez (como é o caso de Rubén González, que foi preso por mais de um ano e agora será julgado por liderar um protesto em 2009), a burocratização das organizações dos trabalhadores e a corrupção, produziram rupturas de setores importantes com Chávez. Isso explica o crescimento eleitoral de Capriles. Seus votos vêm principalmente da classe média, mas também de um setor importante dos trabalhadores do petróleo, que desempenhou um papel heróico contra a sabotagem petroleira (lockout) de 2003; os trabalhadores que lutaram pela nacionalização e controle da Sidor (Siderúrgica de Orinoco, nacionalizada em 2008); e da empresa da Corporación Venezolana de Guayana; e dos professores e trabalhadores da educação.

Esses trabalhadores não querem deixar para trás toda a sua luta. Tem expectativas em Chávez e seu governo e querem resolver seus problemas. Muitos escolheram, de maneira confusa, a opção por “punir a insensibilidade do governo e da burocracia.” Tal sentimento foi usado por Capriles que tentou passar uma imagem de “progressista” e “democrático”. O candidato chegou a dizer que tem simpatia por Lula e disse que vai manter as políticas sociais de Chávez, porém com “mais eficácia e livre da corrupção”.

Mas … e os 8 milhões de votos?
Chávez conquistou uma grande quantidade de votos. Alguns desses votos vêm dos setores populares que, de alguma forma, se beneficiaram com as “missões” (programas que subsidiam a habitação, educação, saúde, alimentação etc., financiado com a alta dos preços internacionais do petróleo) e também um setor importante da classe trabalhadora. Não pode se desprezar também o voto das Forças Armadas Bolivarianas, que ocupa posições de poder dentro do aparelho do Estado, incluindo o Ministério da Defesa no comando do general Rangel Silva, entre vários militares lideranças dos governos “democráticos e socialistas”.

Mas essa grande votação não expressa um entusiasmo ou um cheque em branco para o presidente. Há grande desconfiança e rejeição. Tanto é assim que, nas semanas finais da campanha “desapareceram” dos comícios todos os ministros, governadores e burocratas que adornavam os discursos de Hugo Chávez. Foram substituídos por músicos jovens e estudantes. Na hora de votar, muitos tiveram medo de algum “pacote neoliberal secreto como os aplicados na Europa”, uma agitação que marcou a campanha de Chávez.

Na campanha, Chávez não se cansou de perguntar: “vocês acham que a direita vai manter construção de casas e as missões? Vai eliminá-las!”, “Você vai permitir que eles acabem com nossas conquistas?” “Não! Não é certo?”, agitava em seus discursos.

Milhares de trabalhadores do Estado, muitos deles terceirizados, não arriscaram pôr em perigo a estabilidade já precária de seus empregos. Assim, pensando que o pior estava por vir, (e apesar da raiva contra a burocracia e a corrupção do PSUV – Partido Socialista Unido da Venezuela) e na ausência de uma alternativa visível, optaram por votar em Chávez, para evitar o “ajuste neoliberal “.

“Obama votaria em Chávez”
Mas o discurso de Chávez também se dirigiu à burguesia. Em entrevista a Telesur, ele disse: “Minha vitória convém a eles, disse aos proprietários das grandes redes de televisão, os donos das grandes empresas privadas, que convém a toda a burguesia porque Chávez aqui garante paz, a tranquilidade e o desenvolvimento do país . Eu sou a garantia de que eles continuem a ganhar dinheiro. Sou a garanta de estabilidade”

Também chamou os empresários a realizarem “bons negócios” associado às empresas imperialistas com as empresas do Mercosul. Para garantir que os empregadores não deveriam ter medo, Chávez soltou: “Se Obama vivesse em Caracas, Chávez votaria em Obama. É um cara bom” (Telesur)

Nos últimos dias da campanha, Chávez apontou para o “diálogo” e deslizou até com a possibilidade de uma anistia para os golpistas, como Pedro Carmona, empresário golpista exilado em Miami, “dentro da Constituição”. (Entrevista com TeleVen em 4/10/2012).

O processo revolucionário venezuelano, aberto nos primeiros anos do século, não foi derrotado. Para além dos refluxos momentâneos, ele ainda segue vivo. E as lutas vão se incrementando diante o fracasso do programa democrático burguês de Chávez para dar resposta aos problemas operários. Chávez se apresenta até agora como uma garantia de contenção, uma barreira que desvia as lutas.

Este permanente chamado à burguesia, à oposição a dialogar, ao mesmo tempo em que afirma que foi o responsável por tirar o país da beira do abismo, só pode ser entendido no marco da crise econômica mundial, que já se fez sentir em 2008 e que se aproxima novamente da Venezuela

Quem pagará pela crise caso Chávez convoque uma “unidade nacional” com os patrões para que garantam seus bons negócios? Como já denunciamos em 2008, o aumento do IVA, a desvalorização cambial e a inflação (medidas adotadas pelo governo diante da crise) fizeram que os prejuízos dos patrões fossem jogados nas costas dos trabalhadores!

Votação de Chirino
A votação a Orlando Chirino foi baixa, ainda que significativa, apesar da polarização. Os esforços da cada partido em apresentar uma candidatura classista como alternativa não atingiram os milhares de colegas que não encontraram um ponto de referência.

Nós da Unidade Socialista dos Trabalhadores impulsionamos a candidatura de Chirino, entre os trabalhadores fabris, estatais, estudantes e setores de vanguarda do movimento operário.

No entanto, a baixa votação de Chirino não se chocou com a polarização. Em nossa opinião, também jogou contra a campanha o fato de que não se tenha formado uma frente de todas as personalidades e partidos que deram apoio a Chirino. Essa possibilidade existiu e o PSL, que poderia ter convocado e concretizado esse frente, não a fez, apesar da pré-disposição da UST e de Opção Operária. Isso foi um erro, ainda que a frente não tivesse rompido a polarização, mas poderia ter sido apresentada com maiores possibilidades, como um ponto de referência para esses milhares de desiludidos com Chávez. Esperamos que isso sirva como experiência.

As tarefas por diante
Constatada a importante ruptura com o chavismo, abre-se a possibilidade de lutar por uma fatia dos lutadores e ativistas que começaram a buscar uma alternativa. Por isso, devemos participar e impulsionar as lutas que estão se dando e aquelas que inevitavelmente virão. Junto com isso, começam a surgir novos sindicatos que precisamos ajudar a consolidar para que possam serem reconhecidos.

É tarefa fundamental a construção de uma ferramenta política revolucionária, implantada na classe operária e setores populares. Em dezembro serão realizadas as eleições regionais para governadores e deputados. É uma oportunidade para chegar a todos aqueles que buscam uma alternativa ao chavismo e seus burocratas. A UST chama todos para essa luta. Vamos participar das eleições com candidatos nas cédulas do PSL com o objetivo de defender o programa de independência de classe e construir a ferramenta revolucionária dos trabalhadores.

Esclarecendo confusões
Os revolucionários aproveitam a intervenção nas campanhas eleitorais para fazer propaganda do programa operário e socialista. Os espaços na imprensa burguesa são escassos, por isso devemos ser muito cuidadosos na hora de fazer declarações. No jornal Universal (27/9/2012), em uma reportagem, Orlando Chirino expressou corretamente que chegou a hora dos trabalhadores governarem. Mas quando explicou quais seriam as medidas que tomaria esse governo, Chirino gerou uma grande confusão ao afirmar que “quanto ao aparelho produtivo há que se sentar com os investidores para fixar regras claras e recuperar as instituições para atrair investimentos. Isso passa por melhorar o salário e discutir um plano geral para garantir emprego estável e de qualidade e segurança social.”

Quando se referiu às expropriações de Chávez disse: “Tudo o que está fora da lei se revisará. Terá que se escutar todos os envolvidos, donos, comunidades e sindicatos. Não temos problemas com isso. Nosso governo garante a plena liberdade sindical e à iniciativa privada”.

Nada do que foi dito está no programa apresentado pelo PSL que apoiamos. Não vemos porque seria necessário sentar-se com os investidores… para atrair investimentos, quando o principal setor da economia que os investidores estão de olho é o petróleo que propomos nacionalizar totalmente. Também não entendemos a razão de se revisar as expropriações com os “donos” (as multinacionais também?), nem porque garantir “a iniciativa privada”. Essas confusões, que devem ser esclarecidas, dificultam o diálogo com os lutadores, sobretudo com os das empresas expropriadas para que possam compreender o programa revolucionário.