Papa Francisco: uma renovação da Igreja Católica?

    A escolha do cardeal argentino, Jorge Mario Bergogl como o novo papa surpreendeu boa parte do mundo. Primeiro, porque o cardeal sequer era cotado entre os principais “especialistas” no assunto. Em segundo lugar, porque Bergoglio, agora o papa Francisco, é o primeiro latino-americano que assume a liderança da Igreja Católica na história.  
    A escolha de um papa argentino é uma óbvia tentativa de renovação de uma Igreja mergulhada em escândalos sexuais e de corrupção, mas que não recua um milímetro sequer na ortodoxia católica mais conservadora.
    Muito rapidamente, a grande imprensa começou a festejar a eleição de “um pastor que sempre acompanhou aos pobres” e de um papa que “surpreende por sua modéstia e singeleza”, taxado como um “conservador moderado”.  A “humildade” do novo papa foi bastante destacada por todos, inclusive pelos setores da Teologia da Libertação, como Leonardo Boff. “Francisco não é um nome. É um projeto de Igreja, pobre, simples, evangélica e destituída de todo o poder”, escreveu ao Jornal do Brasil.
    Mas afinal, de que Igreja vem Bergoglio e quais são suas posições sobre os temas mais polêmicos da atualidade? O papa Francisco representa algum tipo de renovação da igreja?

    Igreja na Argentina
    Diferente do que ocorreu no Brasil, onde muitos integrantes da Igreja lutaram contra a ditadura militar ou se envolveram em causas populares, na Argentina, a Igreja cumpriu um papel extremamente reacionário e entregou muitos ativistas à famigerada ditadura (1976-1983) que assassinou pelo menos 30 mil pessoas.
    Em contrapartida, a ditadura promulgou leis em benefício da Igreja Católica, como, por exemplo, a Lei n º 21.950 de março de 1979, assinada pelo ditador Jorge Rafael Videla, que responsabilizava o Estado pelo pagamento do salário dos arcebispos, bispos e seus auxiliares. Os governos dos Kirchner nunca disseram nada sobre este assunto e os pagamentos são realizados até hoje. Para ser ter uma ideia sobre a influência da Igreja no país, basta lembrar que, até 1994, na Constituição da Argentina, o presidente tinha que ser um católico romano. O artigo foi alterado por Carlos Menem, que nasceu em uma família de muçulmanos.
    A íntima relação da Igreja com a ditadura resultou em um imenso desgaste do catolicismo na Argentina. Segundo o jornalista argentino Ariel Palacios, uma pesquisa realizada em 2009 apontava que aproximadamente 76% dos argentinos foram originalmente batizados católicos. Mas, apenas 6% são praticantes. O número de ateus, porém, ultrapassa o de católicos e evangélicos praticantes, representando 11,3% da população, segundo a mesma pesquisa. Nos últimos anos, como arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio tentou reverter o declínio da Igreja Católica em seu país.
    O problema é que o cardeal, ordenado em 1969, construiu toda a sua carreira eclesiástica ao longo dos anos 1970 em meio à sangrenta ditadura. Bergoglio, um membro da ordem Jesuíta, acompanhou a cúpula eclesiástica argentina no apoio à ditadura militar de Videla. Há acusações de que ele facilitado a detenção e tortura de dois padres que faziam trabalho na Villas Miséria. As acusações foram publicadas no livro “El Silencio” ,do jornalista Horacio Verbitsky. É acusado, também, pelas Avós da Praça de Maio pelo sequestro de bebês durante a ditadura.
    O Vaticano não tardou em reagir, qualificando as acusações de mentirosas. O porta-voz do Vaticano Federico Lombardi afirmou que “jamais houve uma acusação verossímil contra o Papa”.
    Todavia, não é nenhuma casualidade que, sob o comando de Bergoglio, a Igreja argentina não tenha excomungado qualquer torturador ou mesmo os ditadores, especialmente o católico Videla.  
    Se o antigo papa Bento 16 tinha seu passado marcado por sua militância na juventude hitleriana, o papa Francisco não pode ocultar suas obscuras relações com um dos regimes mais genocidas da America Latina.  

    Conservador moderado?
    Sobre os temas comportamentais, o Papa Francisco não se diferencia em nada de seu antecessor. Em 2010, o Cardeal liderou uma frente conservadora contra a aprovação da união civil entre homossexuais, tida por ele como um “projeto do Diabo” que ameaçava a família tradicional. “Não sejamos ingênuos: não trata de uma simples luta política. Pretende-se a destruição do plano de Deus. É uma jogada do pai da mentira para confundir e enganar os filhos de Deus”, disse.
    Também é um militante contra o aborto e contra toda forma de anticoncepção, incluído o uso de profiláticos como medida sanitária. Dentro da igreja, opõe-se ao ordenamento de mulheres como sacerdotes e a toda mudança no regime machista-patriarcal que a rege Igreja Católica. Por fim, o novo papa também se opõe ao divórcio, que atenta contra o valor do “até a morte os separe”, segundo suas próprias palavras.
    No que se refere a sua atuação política, o candeal Bergoglio é uma das lideranças da oposição de direita aos governos dos Kirchner. Em 2008, por exemplo, apoiou lockout dos fazendeiros de soja contra o aumento de impostos.
    Tudo isto conduz inevitavelmente à pergunta: por que ante a necessidade de dar uma imagem de renovação, recorre-se a um digno representante do que há de mais retrógrado na Igreja Católica? A resposta é que a Igreja Católica não tem outra coisa a oferecer. Aproveitando as expectativas geradas por sua nomeação, acredita-se que a escolha de um papa latino-americano que “defende os pobres” e prega “humildade”, poderá abafar os escândalos sexuais e de corrupção que abalaram o Vaticano.
    Por outro lado, ao contrário de sugerir uma abertura e uma renovação da Igreja, a escolha do novo papa não diminui um evidente distanciamento entre seus dogmas e o modo de vida da esmagadora maioria dos católicos. Tampouco esconde o fato da Igreja Católica (como ficou explícito na Argentina) sempre ter servido e abençoado o poder e a opressão.
     

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