Encontro em Paris lança rede sindical internacional

Encontro Sindical Internacional convocado pelo Solidaires (França), a CGT espanhola e a CSP-Conlutas, aprova campanhas e lutas comuns contra a crise

Manhã fria em Paris. Estamos na Bourse du Travail de Saint Denis, utilizado por todas as centrais sindicais para reuniões. Mas, hoje, dia 22 de março, sexta-feira, é um dia especial. Está começando um encontro internacional do sindicalismo alternativo, um contraponto ao reformismo das centrais sindicais dominantes. O desafio é enorme: unir as experiências de reorganização do movimento de massas de cada país, com distintas tradições, em uma rede internacional.
O Encontro foi convocado pela Union Syndicale Solidaires, da França; a Confederación General del Trabajo (CGT), da Espanha, e a CSP-Conlutas, do Brasil. Essas correntes já vinham em um processo de colaboração há alguns anos e haviam realizado uma reunião preparatória, no Brasil, em 2012, logo depois do congresso da CSP-Conlutas.
A chegada dos delegados foi dando uma dimensão da vitória do encontro. Sem dinheiro da burguesia nem dos governos, ou o aparato das centrais sindicais reformistas, se reuniram delegados de 32 países e mais de cem organizações sindicais. Umas trezentas pessoas falando todas as línguas, se identificando pelas experiências de lutas. Um encontro muito diferente dos organizados pelas burocracias sindicais das centrais reformistas: os próprios dirigentes carregavam caixas e faixas, eram parte da organização concreta das atividades.
Reorganização
Esse encontro seria impossível há alguns anos atrás. É produto da contestação das travas que constituem as centrais sindicais europeias em função da gigantesca crise e das grandes lutas que estão ocorrendo. A partir daí, está se fortalecendo o sindicalismo alternativo na França, Espanha, Inglaterra, Itália, etc. Da mesma maneira, estiveram presentes as organizações sindicais que se localizam à esquerda dos governos atuais no Norte da África, incluindo os países que derrubaram governos e ditaduras.  E, por outro lado, as organizações sindicais que se chocam com os governos nacionalistas burgueses ou “de esquerda” da América Latina, como Lula, Cristina Kirchner etc. Ou seja, o encontro é uma expressão da reorganização em nível mundial, com suas desigualdades.
Na abertura, o representante de Solidaires, Christian Majheux, saudou as delegações presentes. Disse que a crise capitalista tem consequências econômicas, sociais e ecológicas em todo o mundo, interconectadas, e que se realimentam umas às outras. E que é necessário trabalhar em conjunto, mesmo com diferenças filosóficas e organizacionais, porque o que nos une é a luta dos trabalhadores, desempregados, jovens e aposentados.
Depois da CGT espanhola, falou a CSP-Conlutas, que esteve presente com 45 delegados. Dirceu Travesso, representando a central, disse que é fundamental construir a resistência contra o Capital baseada no internacionalismo e na solidariedade. Para isso, é preciso resgatar o sindicalismo de luta contra os pactos sociais e  o imperialismo,  apoiado na democracia operária.

Os debates sobre a crise
No sábado, o encontro foi dividido em três partes: análise da crise capitalista, a relação do sindicalismo com outros movimentos sociais e as campanhas.
A primeira mesa foi aberta com um informe de Desidério, da CGT espanhola. Ele falou sobre a crise, mostrando como o capitalismo aparece com novas regras do jogo em que não existe nenhuma regulamentação para o Capital. Mostrou que as políticas de ajuste são iguais, sempre com ataques aos salários, reformas trabalhistas, reformas previdenciárias e a crise da dívida pública dos Estados. Abertas as inscrições, os delegados expressaram a realidade da crise em cada um de seus países.
 A situação na Europa veio à tona com depoimentos impressionantes. Salvatore d’Amato, um operário italiano de uma fábrica da Fiat (Iribus) que está sendo fechada, falou sobre como é importante acabar com a competição com que os patrões nos dividem.  Fabiana Stefanoni, da coordenação italiana “No austerity”, disse que nessa fábrica, os direitos mais básicos, como de sindicalização, são negados. Deu ainda o exemplo de uma fábrica ocupada (Ginori) com mulheres na linha de frente. Reivindicou também a democracia operária com o método das votações em assembléias.
Um delegado do RMT (sindicato dos transportes da Inglaterra) denunciou as demissões no país e defendeu a ruptura com a União Européia. Martin, de Liverpool, falou dos processos da reorganização no país, destacando que o sindicato dos professores e a TUC (Trades Union Council)  de Liverpool estão discutindo a necessidade da greve geral no país.
Uma companheira grega, Yota Lazaropoulou, fez um dos depoimentos mais comoventes, falando da fome das crianças nas escolas, da proibição das greves e dos cortes salariais. Disse que está se regredindo aos inícios do capitalismo, e que é preciso construir alternativas contra as duas centrais reformistas do país. Terminou dizendo que não há futuro para os operários dentro da União Européia.
O Norte da África, palco das revoluções que se insurgem contra ditaduras sanguinárias, foi representado através da delegação da Tunísia. O representante da UGT denunciou que a revolução foi roubada dos que a fizeram. Mostrou como o assassinato do líder oposicionista Chokri Belaid levou à greve geral e a derrubada do governo. Denunciou que hoje os sindicatos são alvos de ataques dos islâmicos.
A América Latina se expressou com força. Herbert Claros, metalúrgico de São José dos Campos (SP), denunciou os governos Lula e Dilma, e mostrou como alternativa a luta articulada internacional. Deu como exemplo a mobilização de janeiro de 2013, dos metalúrgicos, em 9 países, a partir da solidariedade aos trabalhadores da GM.
Didier Dominique, do Batay Ouvryié do Haiti, denunciou a ocupação militar da Minustah, liderada por tropas enviadas pelo governo brasileiro do PT, assim como da Argentina e da Bolívia de Evo Morales. Falou da repressão aos sindicatos, como a demissão de 70 operários do SOTA (Sindicato dos trabalhadores têxteis de Porto Príncipe). Também se referiu ao início de coordenação dos sindicatos têxteis do Caribe e América Central.
Um delegado argentino denunciou o governo de Cristina Kirchner, que resgatou as privatizações e está levando a uma nova crise no país, já com o dólar paralelo 60% acima do oficial. Falou da necessidade da independência política dos sindicatos em relação ao governo e da crise da burocracia sindical argentina, assim como da greve geral que paralisou o país, no dia 20 de novembro passado.
Julio López falou em nome da Confederação da Classe Trabalhadora (CCT) do Paraguai , surgida como expressão da reorganização ocorrida durante o governo Lugo. Denunciou a perda de direitos históricos dos trabalhadores e a concentração de terras no país (2% são donos de 85% das  terras).

Sindicalismo alternativo e outros movimentos
A segunda mesa, coordenada por Anick Coupeé, do Solidaires, foi centrada na relação do sindicalismo de luta com os movimentos sociais como os movimentos contra a opressão das mulheres, dos negros, homossexuais e imigrantes.  A mesa foi composta integralmente por companheiras, corrigindo um erro ocorrido na manhã em que não havia nenhuma mulher. Isso gerou um mal-estar no plenário, que levou a uma autocrítica dos organizadores e a uma mesa só de mulheres no resto do dia.
Ana Rosa falou em nome do MML (Movimento Mulheres em Luta, filiado à CSP-Conlutas). Mostrou como as mulheres estão em luta, e que a unidade não deve se estender às mulheres burguesas como Angela Merkel, Cristina Kirchner e Dilma Roussef, mas às trabalhadores em luta.  Houve diversas intervenções denunciando a situação das mulheres em todo o mundo, destacando-se companheiras da Turquia, Inglaterra e outras.
Moustapha Wagne, senegalês , representante de um dos principais movimentos de imigrantes da Itália, realizou uma intervenção mostrando os violentos ataques sofridos por eles e chamando o encontro para uma ação concreta nas lutas.  O sindicato de professores da Argélia, por sua vez, defendeu a necessária ligação do movimento sindical e social, e como o sindicalismo alternativo deve envolver também os desempregados.

E agora, como avançar?
A terceira mesa foi coordenada por Dirceu Travesso, da CSP-Conlutas. Didi fez um resgate das duas mesas anteriores, retomando a caracterização da crise do capitalismo e da guerra social que está sendo imposta contra os trabalhadores. Ressaltou que as diferenças existentes entre os componentes do encontro são uma qualidade, não um problema. E falou que esse encontro não pode ser a repetição de outros da burocracia sindical em que só se faz “turismo sindical”. Afirmou, com clareza, que é fundamental que ali se definissem campanhas que levem a ações conjuntas no movimento de massas. Ou então, não avançaremos na construção de uma alternativa.
Concretamente, propôs campanhas ao redor de quatro eixos: contra os planos de austeridade; em defesa do direito de organização, contra a criminalização dos movimentos; contra as opressões as mulheres, imigrantes, negros e homossexuais; em defesa da Palestina. Didi propôs que isso se expressasse em um manifesto a ser apresentado no 1º de maio, assinado por todas as organizações presentes ao encontro.
A discussão foi reaberta com muitas intervenções. Entre elas, se destacou a de Angel Luis Parras, o “Cabezas”, em nome da Cobas Madrid. Ele retomou o chamado de Didi à ação. E disse que os trabalhadores espanhóis iriam perguntar a eles, quando voltassem: “Quem são vocês?” E que era necessário responder: “aqui estão os que lutam contra os planos de austeridade, os que não se submetem aos governos que os impõem e as burocracias que os sustentam. Os que defendem que não se deve pagar a dívida aos banqueiros”.
A noite terminou com um jantar na sede do Solidaires. Fomos, em pequenos grupos, pelas ruas de Paris. O guia de nosso grupo, Arturo, um operário espanhol que ali estava pela primeira vez, estudava a cada passo o mapa da cidade. Quase um símbolo: um operário buscando os caminhos na cidade que abrigou a Comuna. E chegamos bem, com o alegre Arturo à frente.

Nasce a Rede Sindical Internacional de Solidariedade e de Lutas
O domingo foi de conclusões. Foi definida a criação da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e de Lutas, que vai ter uma coordenação ampla, a partir das três correntes que convocaram esse encontro, aberta à participação de outras entidades. Essa coordenação se reunirá a cada seis meses e deve avaliar, na próxima reunião, a possibilidade de um novo encontro.
Foi apresentada uma proposta de manifesto para o 1º de maio, a ser distribuído por todas as entidades que estiverem de acordo. Esse manifesto parte de um rechaço a todos os governos que aplicam os planos de austeridade e a defesa da suspensão do pagamento das dívidas externas; dos direitos trabalhistas e previdenciários; a defesa da autodeterminação dos povos, com destaque para a luta palestina, e o rechaço a toda forma de opressão.
Foram definidas as campanhas comuns propostas no dia anterior.  A primeira, as lutas sindicais comuns contra a crise e suas consequências (demissões, precarização, ataques aos serviços públicos etc.). A segunda, a defesa dos direitos sindicais e de organização, a luta contra a criminalização dos movimentos sociais e a repressão antissindical. A terceira, desenvolver uma ação de solidariedade internacional ao povo palestino. E a quarta, a luta pela igualdade de direitos, que terá como centro a luta contra a opressão das mulheres.
Foi acertada ainda a manutenção da página na web criada para o encontro, que avançará a partir do lançamento da Rede Sindical Internacional. Ocorreram, ainda, reuniões de distintos setores profissionais e foi acertada uma primeira divisão de acompanhamento desses trabalhos.  Solidaires vai coordenar a organização de trabalhadores da saúde, dos call centers  e de ferroviários. A CSP-Conlutas deve assumir a coordenação da construção civil, setor automobilístico e o trabalho entre as mulheres.
Os participantes saíram com um sentimento de vitória, de terem feito algo inédito. Na verdade, a importância de tudo o que foi decidido só poderá ser avaliado daqui a algum tempo, quando o que foi votado for implementado. Mas, pode estar nascendo algo novo no sindicalismo alternativo em escala internacional. Bem mais forte que qualquer uma de suas partes.
 

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