Palestra comemora 70 anos da IV Internacional em São Paulo

Apesar da chuva e do frio, mais de 100 pessoas lotaram o auditório da Apeoesp no centro de São Paulo (SP) na tarde do último sábado, 20 de setembro. O que atraiu essas dezenas de pessoas foi a palestra sobre a IV Internacional, em comemoração aos seus 70 anos. Dirceu Travesso, candidato a vereador pelo PSTU e pela Frente de Esquerda em São Paulo, compareceu ao debate e foi convidado a compor a mesa.

A atividade foi organizada pelo PSTU de São Paulo e a palestra foi feita por Eduardo Almeida Neto, dirigente nacional do partido. Eduardo começou sua apresentação afirmando que “nosso programa ultrapassou com honra estes 70 anos”, ressaltando a atualidade do programa de fundação da IV.

Em seguida, comentou a atual crise econômica que varre a principal economia do país, a do imperialismo norte-americano. Ele relacionou a recessão dos Estados Unidos com a tarefa de fazer a revolução que segue viva.

Trotsky, o fundador
Eduardo resgatou a história do idealizador e principal dirigente da IV, Leon Trotsky, assassinado pelo estalinismo menos de dois anos após criada a nova organização. Ele falou do papel do velho bolchevique na Revolução Russa, como um de seus principais dirigentes, ao lado de Lênin e à frente do Exército Vermelho. Mesmo assim, disse Eduardo, para Trotsky nada disso era mais importante do que construir uma nova internacional diante da falência da III.

Trotsky “encarou o desafio de entender o que se passava no Estado burocratizado russo depois da vitória de Stalin”. O dirigente bolchevique previa que “na União Soviética, ou se caminhava para uma revolução política, ou se reconstituiria o capitalismo”. infelizmente, confirmou-se a segunda hipótese.

III Internacional
Para Eduardo, a III Internacional foi uma das principais conquistas da classe trabalhadora, fruto da Revolução Russa. A organização assumiu um “caráter de partido mundial da revolução, apoiada em partidos revolucionários nacionais, com congressos vivos, polêmicas de enorme importância”.

Ele classificou a III como “uma experiência fantástica que, no entanto, a burocratização levou à morte”. Eduardo apontou a Revolução Espanhola como um marco na destruição da III, pois aponta que foi a primeira vez que o estalinismo teve uma estratégia conscientemente contra-revolucionária. É neste momento que Trotsky percebe que não pode resgatar a Internacional Comunista e resolve defender a construção da IV.

Os obstáculos da fundação
As dificuldades encontradas, mesmo no interior das forças que compunham a IV, foram relatadas também. Um exemplo foi o questionamento de grupos importantes sobre o momento, se era adequado ou não para a fundação de uma nova internacional, pois diziam que não havia nenhum grande acontecimento que justificasse. A isso, Trotsky respondeu que os grandes acontecimentos existiram: foram as maiores derrotas que a classe sofrera com a derrota das revoluções na Europa, com a ascensão do nazismo.

Além disso, Eduardo lembrou que havia uma perseguição implacável do estalinismo aos seus opositores. O responsável pelos estatutos da IV foi assassinado semanas antes da conferência de fundação e os documentos foram roubados. O próprio Trotsky não pode ir à conferência para garantir sua segurança. Ele enviou uma declaração gravada.

A conferência, que tinha uma pauta extensa e temas de ricos debates, teve de ser realizada em apenas um dia. Membros da família se Trotsky e pessoas próximas a ele foram assassinadas pelo estalinismo. “Mas a IV se manteve, sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e até ao assassinato de Trotsky”, disse Eduardo.

As dificuldades após a morte de Trotsky
“É um fato que o trotskismo não tem peso de massas hoje e temos de explicar esse fato”, falou Eduardo. Para ele, existem dois motivos principais. Primeiro, porque não se cumpriu uma das previsões de Trotsky. Na declaração à conferência de fundação, ele dizia que com a guerra, processos revolucionários se abririam e milhões abraçariam a bandeira as IV.

Isso, tragicamente, não aconteceu. O estalinismo ganhou força e foi obrigado a tomar o poder em vários países. Isso se deu pela pressão dos trabalhadores mobilizados, por um lado, e para se defender do imperialismo, por outro.

Em segundo lugar, Eduardo apontou a morte de Trotsky. Ele citou Nahuel Moreno, que dizia que a IV com Trotsky era “um anão com a cabeça de um gigante”. assim, após sua morte, novas direções surgiram, só que com políticas que, em geral, capitulavam ao estalinismo. Ele citou correntes de origem trotskista que se integraram a governos burgueses, inclusive. É o caso, por exemplo, da Democracia Socialista no Brasil, que compõe o governo Lula.

Um outro exemplo recente desta capitulação citado por Eduardo é a corrente Movimento Esquerda Socialista (MES-PSOL). Essa organização apóia governos burgueses sem criticá-los, como o de Hugo Chávez, na Venezuela, e de Evo Morales, na Bolívia. Recentemente, no Brasil, essa corrente aceitou uma doação financeira da Gerdau para sua campanha eleitoral, uma das maiores siderúrgicas do mundo.

A atualidade do Programa de Transição e a necessidade de reconstruir a IV
Para responder a estas polêmicas, Eduardo opinou que “se não tiver uma alternativa de esquerda independente, no campo dos trabalhadores, vamos a uma tragédia”. “Estamos vivendo um novo momento de lutas e de crise do estalinismo, se abre a possibilidade de reconstruir a IV”, afirmou.

Ele ressaltou a importância da Liga Internacional dos Trabalhadores, fundada pelo revolucionário argentino Nahuel Moreno, na reorganização da internacional. Moreno se manteve independente, no campo revolucionário, mesmo depois de muitas crises, rupturas e perda de dirigentes e correntes que capitularam ao estalinismo ou ao reformismo.

A realidade atual, segundo Eduardo, é privilegiada. “Moreno era muito superior à direção atual da LIT e dos partidos, mas não teve as condições na realidade para realizar coisas que estamos fazendo hoje”, disse referindo-se ao Elac e à Conlutas.

Eduardo também criticou o sectarismo de algumas correntes. “Buscar uma via para o movimento de massas é a nossa vocação, disputar a direção dos trabalhadores com o PT e a burguesia”, falou.

Sobre as tarefas colocadas, ele foi categórico em afirmar que a estratégia da LIT é reconstruir a IV e, para isso, atualizar o Programa de Transição. Disse que essa “não é uma tarefa só da LIT, deve ser fruto de um debate entre as correntes revolucionárias”. O resgate da moral revolucionária, da solidariedade e da lealdade entre a classe também foi colocado como tarefa imprescindível neste processo de reorganização.

“Para nós, não é um elemento menor comemorar 70 anos da IV, é motivo de orgulho, mas, volto a dizer, uma parte da história está por ser escrita: se seremos capazes de dirigir os trabalhadores ou não”, concluiu. Ele encerrou sua fala com a leitura de um trecho da declaração de Trotsky à conferência de fundação da IV.

Após, Eduardo respondeu a perguntas dos presentes. Os temas variaram entre as grandes polêmicas existentes na história da LIT até a crise econômica atual, passando pelas perspectivas de uma revolução socialista nos dias de hoje. Ele finalizou a atividade dizendo: “somos abusados, nosso objetivo é reconstruir a IV e fazer a revolução, e isso não é pouca coisa”.

*Atualizado em 22/9/2008, às 19h37