Oscar: “globalizado”, mas ainda conservador

A grande novidade do Oscar deste ano foi a indicação de um grande número de produções e artistas não-norte-americanos ou representantes de setores “marginalizados”. De resto, o que se viu foi a tradicional breguice na celebração da indústria cinematográfiOs grandes vencedores da 79ª premiação da Academia de Hollywood foram o diretor Martin Scorsese e seu filme “Os infiltrados”. Prêmios que acabaram soando como uma espécie de “prestação de contas” tardia para diretor ítalo-americano, já que seu último filme está muito longe de ser o melhor de sua carreira.

Contudo, se houve algo de realmente marcante nesta edição do Oscar foi o fato das indicações e premiações terem, de certa forma, refletido os descaminhos do nosso mundo globalizado. Nunca antes na história do prêmio houve tantas produções, técnicos, atores e atrizes de países estrangeiros (em relação aos EUA, evidentemente) concorrendo às famosas estatuetas.

Uma verdadeira “Babel”
Apesar de “trocadilho” fácil, não há metáfora mais apropriada para a cerimônia do Oscar deste ano do que a mitológica história da Torre de Babel. Exemplo maior disto, talvez, tenha sido o filme que leva exatamente este nome. Apesar de ter saído da cerimônia apenas com um (trilha sonora) dos sete prêmios para os quais concorreu (o que não deixa de ser um indício da postura conservadora da Academia), “Babel”, além de ser uma excelente reflexão sobre algumas das mais nefastas facetas do mundo atual (racismo, xenofobia e o abismo social que joga milhões na miséria), certamente entrará para a história como uma das produções mais “internacionalistas” do cinema.

O diretor Alejandro Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga são mexicanos (e, diga-se de passagem, já fizeram juntos os excelentes “Amores Brutos” e “21 gramas”). O filme se passa nos EUA, Marrocos, Japão e México e é interpretado por atores que falam japonês, francês, inglês, espanhol, berbere e libra (a linguagem dos sinais).

Entre os outros concorrentes a melhor filme, havia “Cartas de Iwo Jima”, uma produção dirigida por Clint Eastwood – retratando uma das principais batalhas da II Guerra a partir do ponto de vista japonês, sendo falado na língua nativa, algo inédito para os padrões norte-americanos – e “A Rainha”, dirigido pelo inglês Stephen Frears.

Além disso, o grande vencedor não é exatamente um produto totalmente norte-americano e, sim, um “remake” de um filme chinês (que, segundo a maioria dos críticos, é bem melhor que a versão de Scorcese).

Já entre os 20 concorrentes a melhor atriz e ator (como protagonistas ou coadjuvantes), havia quatro britânicos, uma australiana, uma japonesa, uma espanhola, uma mexicana e uma beninense. Por fim, apesar de terem saído de mãos vazias, cabe lembra a questionável e polêmica produção de Mel Gibson, “Apocalypto”, falado quase que inteiramente em maia, e a comédia “Borat”, que concorreu na categoria de melhor roteiro adaptado, a partir de uma tresloucada história de um “repórter do Cazaquistão” em viagem pelos EUA.

Some-se a isto os três prêmios (direção de arte, fotografia e maquiagem) dados à excelente produção espanhola “O labirinto do Fauno” – uma fábula bastante sombria sobre a Guerra Civil Espanhola – e se tem a medida da “internacionalização” do Oscar.

“Devagar com o andor…”
Não faltou quem visse nas indicações e premiações da Academia um sinal de “democratização” na indústria cinematográfica norte-americana. No entanto, como lembrou o jornalista Sérgio D’Ávila, na “Folha de S. Paulo” (25/02/2007), o real motivo para tal, “como tudo em Hollywood, é econômico”.

Numa indústria que, cada vez mais, se apóia no faturamento das bilheterias mundo afora, a “globalização” dos temas, línguas e atores se impõe quase como uma necessidade. O jornalista cita como exemplo, duas das produções concorrentes à estatueta de melhor filme. Mais de 71% do faturamento de “Babel” e 78% da bilheteira de “Cartas de Iwo Jima” foram arrecadados fora dos EUA.

Obviamente, isto não quer dizer que estes filmes não tenham qualquer qualidade. Muito pelo contrário. Só é preciso não perder de vista que o critério fundamental de Hollywood não é a qualidade e, sim, a possibilidade de lucro.

Boas surpresas…
Em meio a tudo isto, cabe ressaltar indicações e premiações que, de alguma forma, fogem à regra. Em primeiro lugar, a produção independente “Pequena Miss Sunshine”, que custou US$ 3 milhões, uma bagatela em ternos hollywoodianos, e levou as estatuetas de ator coadjuvante e roteiro original (além de uma indicação de melhor atriz coadjuvante para a pequena Abigail Breslin, de 10 anos).

O filme acompanha a quase surrealista viagem realizada pela personagem de Abigal, uma menina desengonçada e infeliz, rumo a um concurso de beleza infantil. A empreitada da personagem é acompanhada por sua família, cujo “desajuste” serve como ácida crítica à sociedade norte-americana e seu modo de vida.

O pai é autor de um método de auto-ajuda cujo fracasso é exemplificado por sua própria vida; o irmão mais velho vive fechado em seu próprio mundo, devido a um voto de silêncio; o tio é um professor gay e suicida e o avô foi expulso de uma casa de repouso devido a seu contínuo uso de heroína.

Cabe lembrar ainda que foi também das margens da sociedade norte-americana, desta vez os bairros negros, que saíram dois outros premiados: o fantástico ator Forest Whitaker (premiado por sua impecável interpretação do ditador Idi Amin Dada, em “O último rei da Escócia” e a novata Jennifer Hudson, premiada como coadjuvante em “Dreamgirls”, um filme que vale muito mais por sua trilha sonora (um resgate dos sucessos de grupos formados por mulheres negras, como “The Supremes”, na década de 60).

Capítulo a parte no quesito “surpresas”, foi a transmissão do primeiro beijo lésbico em uma cerimônia do Oscar, protagonizado pela cantora Melissa Etheridge (que ganhou o Oscar de melhor canção) e sua companheira, a atriz Tammy Lynn Michaels. Uma atitude plenamente sintonizada com o fato de que a “mestre de cerimônias” foi uma conhecida e assumida lésbica, a apresentadora e atriz Ellen DeGeneres.

…e lamentáveis homenagens
Por se tratar de Hollywood, não poderiam faltar as notas lamentáveis. Além da já tradicional cafonice e questionável “humor” do espetáculo, os momentos mais desconcertantes da 79ª cerimônia do Oscar ficaram por conta das efusivas homenagens ao ex-vice presidente Al Gore (que governou os EUA com Bill Clinton, entre 1993 e 2001) e à rainha da Inglaterra.

Al Gore, diretor do documentário “Uma verdade inconveniente”, sobre o aquecimento global, subiu ao palco duas vezes. Na primeira, ao lado de um dos “queridinhos” de Hollywood, Leonardo De Caprio, para fazer um longo discurso sobre a necessidade de se salvar o planeta; na segunda para receber o prêmio pelo seu maçante filme.

Já a figura de Elizabeth II praticamente saiu premiada da cerimônia do Oscar. Não só pelas mãos da atriz Helen Mirren, que ganhou a estatueta interpretando a monarca britânica, mas principalmente pelo verdadeiro rosário de elogios que a atriz dedicou à sua personagem.

Sobre o filme em si, ficamos com a opinião do também britânico Ken Loach, diretor de obras-primas e politizadas como “Terra e Liberdade”, Pãos e Rosas”, “Meu nome é Joe” e “A canção de Carla”. Questionado pela imprensa sobre sua opinião sobre “A rainha”, Loach não pestanejou: qualquer coisa que tenha sido apreciada pela realeza britânica, Tony Blair e seus asseclas não contará com seu apoio, nem mesmo com o preço de um ingresso.

Notas sobre Scorsese
Como afirmamos, “Os infiltrados” está longe de ser o melhor filme do veterano Martin Scorsese. O que não que dizer que o filme seja “ruim”, apesar que até mesmo os mais fanáticos por filmes de ação e suspense irão concordar que, além de um roteiro um tanto confuso, o filme peca pela falta de credibilidade e pelos exageros.

Por essas e outras, não foram poucos os críticos que comentaram que as premiações dadas a Scorsese e seu filme devem-se muito mais ao conjunto da obra do diretor (que nunca havia ganhado um Oscar, apesar de ter sido indicado cinco vezes) do que a este filme em particular.

Em outras palavras, a estatueta foi um tipo de retificação de “injustiças” anteriores. Que não foram poucas. Em 1980, o excelente “Touro Indomável” de Scorsese perdeu o prêmio para o meloso “Gente como a gente” (de Robert Redford); em 1990, o interminável “Dança com os lobos” (Kevin Costner) foi escolhido no lugar de o excelente “Os bons companheiros” e, em 1976, a patriotada “Rocky, o lutador” foi escolhido como melhor filme, em detrimento ao excelente “Taxi Driver”.

As razões por trás do histórico descaso da Academia por Scorsese e seus filmes encontram-se principalmente no típico universo criado pelo diretor em suas histórias: um mundo cínico, povoado por gente “desajustada” que trilha seus caminhos pelas margens do sistema, geralmente batendo de frente com toda a hipocrisia e falsidade que caracterizam a sociedade norte-americana.

Elementos que não deixam de estar presentes em “Os infiltrados”, que, contudo, é um filme muito mais palatável e aceitável para o público (e, conseqüentemente, mais rentável para a indústria do cinema) do que suas produções anteriores.