Os culpados estão vivos

Lula, mais uma vez, “não sabia de nada”Existem mais coisas entre o governo federal e as companhias aéreas do que sonha nossa vã filosofia. É justamente essa relação promíscua que se esconde por trás da mais recente articulação para jogar a culpa do acidente envolvendo o Airbus da TAM no aeroporto de Congonhas nas costas dos pilotos mortos na tragédia. Como os acusados não podem mais se defender, governo e empresas querem se livrar da responsabilidade pela morte de 199 pessoas.

A mais nova versão, sustentada pela revelação de dados das duas caixas-pretas do Airbus, dá conta que o chamado “manete” da aeronave (espécie de alavanca que controla a aceleração das turbinas) estava em posição irregular no momento da aterrissagem. Os computadores da aeronave teriam entendido, então, que o piloto tentava decolar novamente (arremeter), o que teria provocado a aceleração do avião quando ele deveria desacelerar na pista.

No entanto, como a revista IstoÉ revelou, o modelo do Airbus utilizado pela TAM, o PR-MBK, de 1988, não contava com um equipamento que alertasse o piloto sobre esse tipo de erro. Tal alarme foi elaborado após um acidente semelhante ocorrido em Taiwan, na Ásia, em 2004. Porém, não foi apenas esse erro da empresa que causou o acidente.

Bode expiatório
Vários pilotos já declararam à imprensa que o erro apontado como causa da tragédia seria algo muito improvável de ocorrer nas mãos de profissionais experientes, caso dos que guiavam o Airbus. Segundo a versão que vem se construindo, o piloto não teria nem tocado o manete, o que, na visão de especialistas, é algo quase impossível de acontecer.

Com uma turbina acelerando e outra parando, os “freios” (spoilers) não funcionaram, apesar de os pilotos aparentemente terem tentado acioná-los. A falha em um dos reversos do avião, o tamanho insuficiente da pista e a ausência de uma área de escape completaram os elementos que formaram o maior desastre da aviação no Brasil. Tragédia esta que conta com várias digitais.

O fato de o desastre ter ocorrido em plena crise do setor aéreo não pode ser visto como mera coincidência. O caos no setor é provocado diretamente pelo descaso do governo Lula e a conivência sem limites com as empresas aéreas. A situação de calamidade foi o que provocou inclusive a mobilização dos controladores de vôo, que reclamavam da falta de funcionários e dos equipamentos precários. Contra os controladores, o governo agiu com repressão e truculência.

Não sabia?
Durante reunião reservada do conselho político, Lula repetiu a mesma coisa que afirmara durante a crise do men-salão e todos os outros escândalos que estremeceram seu governo. O presidente afirmou que “não sabia” da situação precária e de risco do setor aéreo. Isso significa que Lula pessoalmente autorizou a punição dos controladores de vôo sem saber de nada…

A pista de Congonhas não possuía as mínimas condições de operar da maneira como estava ocorrendo. Sem o término das reformas pelas quais vinha passando, a pista só foi liberada devido à pressão das grandes companhias, principalmente Gol e TAM, ávidas por manter seus lucros.

A Infraero e a Anac, por sua vez, responsáveis pelo gerenciamento dos aeroportos e pela fiscalização do setor, estão afundadas em denúncias de corrupção. Entre julho de 2006 e fevereiro de 2007, o presidente da Anac e seus quatro diretores viajaram 288 vezes com bilhetes pagos pelas companhias que deveriam fiscalizar.
O diretor da Anac Josef Barat afirmou não ver nada de errado nessa relação entre a agência fiscalizadora e as empresas. Ele disse ainda que a mesma coisa ocorre no Ministério da Fazenda e no Banco Central. Algo muito provável.

A Anac funciona ainda como cabide de emprego para apadrinhados políticos. Um exemplo é o da advogada Denise Abreu, amiga de José Dirceu.

Durante reunião entre a Anac e a Infraero, a diretora tentou empurrar a culpa para a estatal. O então presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, respondeu a Denise: “Não faça mais isso, senão eu abro sua caixa-preta e mostro quantos passageiros a TAM leva em cada avião: gente acomodada na cabine e até nos banheiros, sem que vocês façam nada”.

Por fim, Lula se aproveita da crise para anunciar a privatização da Infraero e tenta se recuperar do desgaste nomeando novas pessoas para o setor. A primeira foi o novo ministro da Defesa, Nelson Jobim (PMDB), ex-ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal (STF) durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O comando da Infraero e da Anac também deve mudar. Mas a lógica fisiológica não se altera e o avanço da iniciativa privada deve agravar ainda mais a crise do setor.

A culpa das empresas
Se as mãos do governo na morte das 199 pessoas são evidentes, não dá para esconder a culpa das empresas. Da pressão das companhias para a liberação da pista de Congonhas à precariedade dos equipamentos, são inúmeros os exemplos de como a busca pelo lucro máximo está acima das regras de segurança.

A turbina do Airbus da TAM já havia apresentado problemas duas vezes antes do acidente. No dia 12 de julho, foi registrado um problema com o chamado “ponto morto” das turbinas, justamente o que se está investigando como principal causa do acidente. Na própria tarde da tragédia, a turbina esquerda do avião teve que passar por manutenção.

Além disso, o pouso do avião em uma pista molhada com um reverso defeituoso contraria resolução da Anac, que exige nessas situações o máximo reverso. Durante o depoimento do presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, à CPI do Tráfego Aéreo, um deputado pediu que ele lesse a resolução da agência. Bologna leu o documento, mas simplesmente pulou a parte que compromete a TAM.

Como se isso não bastasse, os pilotos denunciam a carga horária de trabalho nas empresas aéreas. Muitas vezes eles são obrigados a trabalhar além do permitido. Aparelhos precários, sem segurança, infra-estrutura débil e superexplo-ração fazem parte da lógica das empresas, expressa no primeiro mandamento da TAM: “Nada substitui o lucro”.

Culpados
Apesar das especulações, o motivo do acidente ainda não foi encontrado. O que se sabe é que os culpados estão vivos. Seja qual for o motivo determinante para a tragédia do aeroporto de Congonhas, as digitais do governo federal e das empresas aéreas estão impressas na morte das 199 pessoas que viajavam no vôo 3054 da TAM.

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