Os 12 trabalhos: da mitologia à periferia brasileira

Heracles, na mitologia grega, é filho de Zeus e da princesa Acmena. É mais conhecido pelo seu nome romano, Hércules. Hera, esposa de Zeus, enciumada com o nascimento de Heracles, pois desejava elevar o primo Euristeu ao trono da Grécia, enviou duas serpentes para matá-lo no berço, mas o herói estrangulou-as. Mais tarde, a tia usa um feitiço para enlouquecê-lo, que faz com que Heracles acabe matando sua própria mulher e filhos. Para ser perdoado, ele é então obrigado a cumprir 12 trabalhos designados por Eristeu, ao final dos quais ele alcança o perdão e a imortalidade.

Esta é a história mitológica que inspirou o filme Os 12 trabalhos, do brasileiro Ricardo Elias. O filme acompanha os acontecimentos do primeiro dia de trabalho do jovem Heracles (Sidney Santiago) como motoboy. Ele é um rapaz negro da periferia, que saiu há pouco tempo da Febem e tenta sair do caminho do tráfico de drogas. Para isso, é auxiliado por seu primo Jonas (Flavio Bauraqui), que o indica para trabalhar na empresa de entregas rápidas. Como experiência para ser contratado, ele tem que cumprir 12 entregas naquele dia.

Um colecionador de histórias
O espectador acaba indo com Heracles em sua motocicleta, passando em alta velocidade por diversos pontos da cidade de São Paulo. As cenas velozes e a câmera na mão dão ao filme o mesmo ritmo frenético da capital paulistana e da vida dos motoboys. A fotografia também é poluída pelo caos visual típico de São Paulo.

Heracles enfrenta preconceitos, grosserias, burocracias e dificuldades em seus diversos trajetos. Em cada destino, o rapaz também colhe uma história, imagina seu desfecho, se sente o narrador daquelas vidas. A moça que vende pastel e quer ser modelo, a namorada que se despede de seu amado no aeroporto, a professora aposentada e seu gato, o senhor sem amigos e sem família que paga o motoboy para que ele o acompanhe nos exames médicos, o publicitário viciado em drogas, a garotinha que o ajuda a desfazer o erro de uma entrega. Nesses momentos, o ritmo do filme muda, torna-se leve, auxiliado pela boa trilha sonora. Tais histórias colecionadas trazem ao rapaz a inspiração para, nas horas vagas, desenhar histórias em quadrinhos em seu caderno.

Apesar de ser ficção, uma paródia da mitologia grega, as cenas do filme mostram muito da realidade, com as dificuldades da profissão, o ritmo pesado, o companheirismo e a união entre os motoboys.

Muitos outros Heracles
Há uma grande diferença entre o Heracles mitológico e este do filme de Ricardo Elias. O personagem mitológico tem seu heroísmo reconhecido através de seus poderes sobre-humanos e da grandiosidade dos trabalhos que realiza, como estrangular um leão de pele invulnerável, matar um monstro de muitas cabeças, ou um touro que lança chamas pelas narinas, ou limpar os estábulos de três mil bois, não cuidados durante trinta anos.

Já o jovem personagem do filme não possui força ou velocidade sobrenaturais, nem tem como desafios monstros apavorantes. Seu heroísmo está nos obstáculos que enfrenta. Para o jovem da periferia brasileira, enfrentar a violência, a má educação pública, a falta de perspectivas profissionais, o tráfico de drogas, é tarefa hercúlea. Segundo o Dieese, 45,5% dos brasileiros entre 16 a 24 anos estão desempregados e os programas de inserção da juventude no mercado de trabalho de Lula são uma farsa. Além disso, quase 18% dos brasileiros entre 15 e 17 anos estão fora da escola, a maioria vivendo nas chamadas áreas de risco.

Como se isto não bastasse, a profissão de motoboy, por onde muitos jovens tentam iniciar uma vida profissional digna, por fora do tráfico, enfrenta preconceito, precariedade e violência (veja quadro).

Subvertendo o heroísmo
Ao observar a universalidade deste personagem, pode-se constatar que, ao parodiar a história de Hércules, Ricardo Elias desconstrói o próprio conceito de herói. O Herói, por definição, é mítico, sobre-humano, semideus. Mas é, sobretudo, uma figura de exceção, é único.

O Heracles do filme, por sua vez, é o rosto de muitos heróis, do povo simples e lutador (e não os “heróis” de Lula, como usineiros e ministros). A ruptura com a individualidade do herói permite identificar, não um, mas milhões de Heracles, que matam um leão por dia nas periferias brasileiras.

Profissão perigo
Pesquisa Datafolha feita em São Paulo e divulgada em janeiro de 2007 mostrou que, quando questionados sobre os motoboys, 33% dos moradores os associam a aspectos negativos, 18% relacionam a categoria a pontos positivos e 47% citam apenas características da profissão. Dos que citaram aspectos negativos dos motoboys, 21% os relacionam à imprudência ou à insegurança; 7% citam termos como loucos, estressados e apressados; e 3% os chamam de malandros e marginais.

Como se o preconceito já não bastasse, os motoboys são um setor característico deste período neoliberal do capitalismo. É um subemprego muitas vezes temporário, com toda a precariedade possível, remuneração por entrega, sem direitos trabalhistas, sem segurança, com carga horária de cerca de 10 horas diárias.

No crescente setor de serviços, os motoboys e o telemarketing são portas de entrada para o mercado de trabalho para toda uma juventude. Somente na cidade de São Paulo, há cerca de 300 mil motoboys. Como os melhores são os que fazem entregas mais rápidas, esses jovens são vítimas recorrentes dos acidentes de trânsito. A cada dia morrem, em média, dois motoboys na capital, sem contar os feridos.

A falta de perspectivas da juventude da periferia e a precariedade e risco da profissão de entregas rápidas se somam à violência. Oriundos da periferia e em sua maioria negros, esses jovens também são vítimas da violência policial e do crime organizado.

Exemplo disso é aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, onde o motoboy Fábio Fernandes Rocha foi um dos assassinados num confronto entre traficantes e milicianos nas comunidades da Cidade Alta (Cordovil) e Barbante (Ilha do Governador).

Post author
Publication Date