Rebeca com a prata conquistada na prova do individual geral. Foto: Ricardo Bufolin/CBG

“Estou feliz com a prova. Foi um ano muito, muito difícil. Além da pandemia, tive uma fratura por estresse e estou sem patrocinador. O salário do clube foi reduzido e consegui me manter”, desabafou com os olhos cheios de lágrimas a velocista Vitória Rosa, após não ter se classificado na prova de 200 metros rasos. As dificuldades enfrentadas por Vitória para chegar até Tóquio foram as mesmas de uma grande parcela dos atletas brasileiros.

A falta de investimento também foi questionada pela jogadora da seleção feminina de futebol, a alagoana Marta Silva, eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo. “O peso de quem não trouxe a medalha não é das jogadoras, é de quem não investe no futebol feminino brasileiro”, desabafou.

A delegação brasileira em Tóquio é a segunda maior de todos os tempos, com 309 atletas, com perfis bem diversificados (gênero, raça e orientação sexual), e bastante desigual no quesito condições materiais (financiamentos e patrocínios).

Dos 309 atletas brasileiros nas Olimpíadas, 231 dependem do Bolsa Atleta, incentivo que existe desde 2004 e não teve edital lançado no ano passado, como parte dos cortes no orçamento impostos pelo governo Bolsonaro. Com redução de investimentos, o governo do presidente genocida é o principal adversário dos atletas brasileiros.

Sem Ministério dos Esportes

Logo em seu primeiro dia na presidência, Bolsonaro acabou com o Ministério do Esporte, rebaixando a pasta a uma secretaria ligada ao Ministério da Cidadania. Em 2020, a Secretaria do Esporte recebeu R$ 225 milhões em recursos: 49% a menos, comparado ao orçamento do ano anterior. A pasta também perdeu dois terços de seus funcionários no atual governo.

Em meio à pandemia, quando os atletas precisavam de mais apoio, o governo federal cancelou o edital do Bolsa Atleta. Para muitos atletas, o benefício do programa, que varia de R$ 370 até R$ 15 mil a competidores de diferentes níveis, é a única fonte de renda. Isso deixa os atletas reféns dos patrocínios de empresas privadas, ou são obrigados a alternar a rotina de treinos com outro tipo de trabalho remunerado.

Medalha de ouro da desigualdade

De acordo com um levantamento realizado pelo Globo Esporte, do total dos 309 atletas, 42% (131 deles) não contam com patrocínios e 41 precisaram fazer vaquinha para estar no Japão. Outros 33 não conseguem viver só do esporte e têm outras profissões – motorista de aplicativo foi a mais citada pelos atletas.

E o pouco do investimento concentra-se na região Sudeste, revelando uma desigualdade na representação geográfica dos competidores brasileiros nas Olimpíadas. Cinco Estados, todos do Norte – Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia e Tocantins – não têm representantes na delegação brasileira. Apenas três competidores são nortistas (dois do Pará e um de Roraima), o que representa menos de 1% da delegação brasileira em Tóquio.

Cerca de 190 competidores são da região Sudeste, o que equivale a 61% de toda a delegação brasileira. Enquanto a região Centro-Oeste representa menos de 5%, com apenas 15 atletas.

Os homens ainda são maioria (164), com 53% da delegação. As mulheres representam 47%, com 145 atletas. É o percentual mais alto em todas as participações brasileiras no evento. Elas são destaque nas conquistas brasileiras até agora: Rebeca Andrade (ginástica, prata e ouro), Rayssa Leal (skate, prata), Mayra Aguiar (judô, bronze) e Luisa Stefani e Laura Pigossi (tênis, bronze).

Quanto à raça, 162 atletas (53%) se autodeclaram brancos, enquanto 143, pretos e pardos (46%) e 1% (4 atletas), amarelos. Já quanto à orientação sexual, 251 atletas da delegação brasileira se autodeclaram heterossexuais, 26 bissexuais, 19 homossexuais e 13 não responderam.

Superação

O descaso do governo Bolsonaro, dos cortes no orçamento na pasta do Esporte, à falta de investimento e de valorização, é o que nos leva a comemorar cada feito dos atletas brasileiros em Tóquio.

As histórias de vida e de superação da ginasta Rebeca Andrade, da skatista Rayssa Leal e do surfista Ítalo Ferreira nos emocionam, arrancam lágrimas, porque representam a parcela do nosso povo que luta cotidianamente. Longe da disputa individual que o capitalismo impõe, são vitórias coletivas, alcançadas com a ajuda de muitas pessoas, conforme podemos ver nas declarações dos atletas.

A ginasta Rebeca Andrade é uma jovem, negra, filha da periferia, criada sozinha pela mãe com ajuda dos irmãos. Muitas vezes, caminhou por duas horas para chegar ao centro de treinamento, quando começou a praticar o esporte em Guarulhos (SP).

A menina Rayssa Leal, com apenas 13 anos de idade, gravou seu nome na história do skate e dos Jogos Olímpicos, ao ganhar a medalha de prata na categoria street. Seis anos atrás, Rayssa enfrentou perrengues para disputar a primeira competição fora de Imperatriz (MA), cidade onde nasceu. Ela viajou a Blumenau (SC) na companhia dos pais e do irmão mais novo, em outubro de 2015. A viagem contou com vaquinha para pagar despesas, alojamento improvisado e refeições à base de miojo. Quando retornou de Tóquio, com a medalha no peito, o prefeito de Imperatriz, Assis Ramos (DEM), quis organizar uma recepção na pista de skate da cidade, mas a ideia foi rejeitada pela família, pois queriam tirar proveitos. A atleta se negou a posar ao lado dos políticos, já que eles nunca apoiaram sua carreira. O pai da Rayssa chegou a ir várias vezes à Secretaria de Esportes de Imperatriz, nunca obteve resposta positiva. Sem estrutura para treinar, Rayssa contou com o apoio da família, dos amigos e com muita força de vontade para superar as dificuldades.

As mesmas batalhas travadas por Rebeca e Rayssa foram também enfrentadas pelo surfista Ítalo Ferreira. Ele, que nasceu e foi criado numa pousada em que a mãe trabalhava, na pequena Baía Formosa (RN), aprendeu a pegar ondas usando prancha emprestada. Quando não conseguia, improvisava com tampa de isopor do pai, que era pescador. “Eu queria que minha avó estivesse viva para ela ver isso. Para ver o que eu me tornei, o que eu consegui fazer pelos meus pais, por aqueles que estão ao meu redor”, disse, chorando, em entrevista. A avó Dona Mariquinha, que faleceu há dois anos, era uma das principais inspirações do atleta.

O atleta Alison dos Santos, bronze nos 400m com barreiras na Olimpíadas consideradas de mais alto nível da história . Foto: Rodolfo Vilela/ rededoesporte.gov.br
Outro modelo de sociedade

Para que o esporte não seja privilégio de poucos

Se mesmo com todas as barreiras e desigualdades impostas pelo capitalismo, atletas como Rebeca, Rayssa e Ítalo são capazes de feitos memoráveis, imaginem se vivêssemos em uma sociedade igualitária, onde os esportes fossem vistos como parte do desenvolvimento das potencialidades humanas, e não como mercadorias, como faz o sistema capitalista.

Em uma sociedade onde os esportes estejam presentes desde o início dos ciclos educacionais, com escolas preparadas, com recursos e equipamentos necessários, teríamos, com toda certeza, grandes atletas. Mas isso é impossível no capitalismo, que transformou o esporte em privilégio de poucos, recheado de segregações e desigualdades.

Uma pequena mostra da desigualdade é o fato de Marta ganhar do clube Orlando Pride 340 mil euros (R$ 2 milhões) por temporada (de dez meses), valor que representa 1% dos ganhos de Neymar Jr. (que não foi convocado para Tóquio).

Só um sistema que não permite as condições igualitárias leva às comemorações eufóricas pela conquista de uma medalha, como foi o caso do boxeador Hebert, que após derrotar seu adversário, avançando para a semifinal, gritou: “Eu sou medalhista olímpico. Eu mereço pra caralho. Nós trabalhamos pra caralho! Aqui é Brasil, é Bahia, Salvador.” A vitória de Hebert é resultado dos vários projetos sociais que existem em Salvador voltados ao boxe, mantidos sem a ajuda de governos. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), quis surfar na vitória do lutador baiano nas redes sociais, mas o boxeador Robson Conceição, também baiano, campeão nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, rebateu: “De Salvador pro mundo, mesmo sem apoio.” Após a medalha de Robson Conceição em 2016, o governador petista prometeu a construção do Centro Olímpico de Boxe, mas até hoje a obra não foi realizada.

Lutar por um esporte igualitário, com investimentos, com valorização dos nossos atletas, é parte da luta por outro modelo de sociedade. Levando em conta todas as adversidades que nossos atletas enfrentam para estar em Tóquio, nada mais justo que a eufórica comemoração do baiano Hebert, que o lindo e singelo sorriso de Rayssa, a simpatia de Rebeca e as lágrimas de Ítalo. Essas vitórias merecem sim ser comemoradas!