O Vaticano e os homossexuais: uma cruzada movida pelo preconceito

A vinda Joseph Ratzinger ao Brasil, atualmente conhecido como Papa Bento XVI, está se tornando um fato midiático digno das grandes celebridades do mundo pop. A grande mídia tem utilizado todo seu potencial para alardear a alegria do povo ao receber o seguidor da obra do apóstolo Pedro e reavivar a fé de milhões de pessoas, buscando sua reaproximação com a Igreja. A imagem que se tenta forjar é a de devoção, esperança e fé.

Porém, nem tudo será alegria na visita de Ratzinger ao país. Já estão agendados diversos protestos e manifestações de diferentes grupos de gays e lésbicas nas principais capitais. Antes de acusar os homossexuais de serem contrários a Igreja, conforme farão os setores mais conservadores, é preciso lembrar, porém, o quanto a Igreja é contraria ao homossexualismo.

Uma breve retrospectiva histórica
Apesar do fato de as relações homossexuais estarem presentes em todas as sociedades ao longo da história, sendo parte constitutiva da sexualidade humana, com o advento das sociedades divididas em classes e baseadas na exploração, um conjunto de normas tentou regular a o comportamento sexual das pessoas de forma a adequá-los à nova estruturação social.

O advento da propriedade privada ajudou na transição para um ordenamento social patriarcal, em que a figura do homem como chefe da família é central na organização social. É preciso lembrar que antes disso a linha familiar era definida pela mulher. O acúmulo de riqueza oriunda da exploração de uma classe sobre a outra levantou o problema de como preservá-la e transferi-la através das gerações, de forma a garantir a permanente acumulação de propriedade. Assim, se colocava a necessidade da certeza da paternidade como base para o direito de herança.

Funda-se então a monogamia, que transforma a mulher em parte das posses do homem, devendo casar-se virgem e manter-se fiel unicamente ao seu marido e por toda a vida, como forma de garantir a certeza da paternidade dos filhos. Desse modo, estava garantida a preservação da propriedade privada. Entretanto, para sustentar a nova estruturação social, era necessária a introdução de um conjunto de normas que proibissem todas as práticas que pusessem em risco a propriedade. As relações sexuais esporádicas, a poligamia, e principalmente as relações homossexuais tiveram de ser fortemente combatidas.

Diante das necessidades de normatização da sexualidade humana e da reprodução, a religião católica se apresentou como uma eficaz resposta, alastrando-se pelo mundo. É fundamental lembrar que a afirmação do catolicismo não ocorre enquanto adesão voluntária das pessoas, mas num processo histórico bastante violento de enfrentamento com outras religiosidades, que ganha força decisiva quando o catolicismo se transforma em religião de Estado. Isso garante à Igreja o elemento decisivo para consolidar sua força: o poder político.

Com tal poder nas mãos, os dogmas católicos podem ser impostos de forma a garantir um padrão de relacionamentos e de comportamento sexual condizente com as exigências da manutenção das sociedades de classes. Toda e qualquer conduta que ameaçasse essas exigências era violentamente combatida, sob a legitimidade de Deus, através das punições impostas pelo Tribunal da Santa Inquisição da Igreja, que, como prática, torturava e queimava gays, lésbicas e outros hereges na idade média.

Com o capitalismo e o advento da sociedade industrial o modelo de família patriarcal monogâmica é reforçado. Esta tem de cumprir papéis como a difusão de ideologias dominantes, através de normas morais transmitidas pela educação aos filhos – a transmissão da herança e a reprodução da força de trabalho, que se expressa na necessidade do casal heterossexual expandir sua prole. Mais do que isso, o novo ritmo de produção imposto pela indústria exigia a total subordinação física e psicológica dos trabalhadores para o máximo aproveitamento de suas energias.

Assim, se desenvolve e se consolida todo um conjunto de valores e normas morais, que buscou seus principais fundamentos no cristianismo, reforçando uma cultura de repressão, proibição e culpa. Essa ideologia atua de modo a regular a conduta das pessoas de acordo com as necessidades de expansão e consolidação do capitalismo. A organização social se assentou, cada vez mais, sobre papéis sociais diferenciados para homens e mulheres. Assim, a subversão destes papéis se constituía numa ameaça contra a própria ordem, devendo ser combatida e eliminada.

Não só a mulher deveria ser submissa e recatada, mas o homem deveria ser forte, viril e dominador. Evidentemente, nessa estruturação de papéis sociais não restou espaço para os homossexuais, por colocarem em xeque a essência dessa divisão. Desse modo, o preconceito, a homofobia e a discriminação não deixam de ser expressões do medo e da insegurança diante da ameaça que a homossexualidade representa por questionar os valores e normas que legitimam a ordem de dominação e exploração do capitalismo.

Qual a relação da Igreja com os homossexuais?
Antes de mais nada, é preciso fazer um debate que traga a público as posições da Igreja quanto aos homossexuais para que se entenda a reação destes à visita do Papa ao Brasil. Ainda que não estejamos mais nos tempos das fogueiras da Santa Inquisição, a Igreja não mudou muito seu discurso. Hoje, o atual Papa demonstra o crescimento de setores ultra-conservadores, com grandes afinidades políticas e ideológicas com a direita reacionária e imperialista, expressa nas amistosas relações de George Bush e Joseph Ratzinger, companheiros correligionários na obscurantista Opus Dei.

A intolerância de Bento XVI para com os homossexuais fica evidente em suas declarações antes e depois de assumir o papado. Diz ele: “segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são grave depravação e intrinsecamente desordenadas, não podendo em caso algum receber qualquer aprovação”. E mais: “a Igreja classifica os casamentos homossexuais como imorais, artificiais e nocivos. Fazem parte da ideologia do mal”. Considerando gays e lésbicas como “uma depravação e uma ameaça à família e à estabilidade da sociedade”.

Mas o papel da Igreja não se resume a ataques ideológicos e estigmatização de gays e lésbicas. Há poucos anos o Vaticano emitiu um documento conclamando todos os parlamentares católicos do mundo a votarem contra qualquer projeto de lei que represente avanços para a comunidade GLBT.

Diante de tais fatos, não podemos nos furtar da dura conclusão: a Igreja católica, o Vaticano e o Papa estão imbuídos do mais profundo ódio aos homossexuais. Mais do que isso, suas declarações, com toda a influência que exercem sobre seus fiéis, não só disseminam a homofobia e o preconceito, como os revestem de legitimidade divina. Conseqüentemente, abrem espaço para a violência fundamentalista que se exerce cotidianamente contra gays e lésbicas. Afinal, estes últimos pertencem à “ideologia do mal”.

Das agressões das quais são vítimas a comunidade GLBT, é preciso dizer que o Vaticano não deixa de ter sua cota de responsabilidade. A contradição entre os princípios da instituição da Igreja e uma sociedade que respeite a diversidade e a liberdade das pessoas é inegável.

O que está por traz da visita do Papa à América Latina?
O imenso alarde que a mídia e os conservadores vêm fazendo sobre a visita do Papa não são à toa. Por um lado, na Europa, onde a influência católica vem diminuindo, uma série de conquistas vem sendo obtidas pelo movimento gay e pelo feminismo. Diversos países incluíram na sua legislação a parceria civil (Espanha, Holanda, Bélgica e Canadá) e muitos outros aprovaram leis que avançam na igualdade de direitos entre heterossexuais e homossexuais.

No mesmo sentido, Portugal aprovou recentemente, em plebiscito, a lei que descriminaliza o aborto. Esses avanços fizeram os porta-vozes do Vaticano se pronunciarem dizendo que “o casamento homossexual é um mal, e o aborto e a eutanásia são formas de terrorismo”.

Por outro lado, a América Latina é um dos maiores redutos católicos do mundo, mas vem sofrendo o avanço das igrejas neo-pentecostais. No balcão de indulgências, é preciso defender essa gorda fatia do mercado da fé. Além disso, a pressão por avanços legais favoráveis aos homossexuais é crescente e o movimento GLBT vem ganhando força ano após ano. Assim, a visita de Ratzinger representa um giro tático em seu maior reduto de influência, com vistas a preservar sua base social e combater as ameaças que já se fazem sentir, a exemplo da Europa.

Além das disputas com outras religiosidades e do combate ao movimento gay, lésbico e feminista, essa visita cumpre outro papel. O continente latino-americano, após ser devastado pelas políticas neoliberais, começa a fervilhar com mobilizações sociais cada vez mais fortes. O questionamento à ordem vigente, de miséria e exploração, tem levado a classe trabalhadora a derrubar presidentes (Equador, Argentina e Bolívia), através de lutas sociais que estão colocando em cheque a dominação imperialista e burguesa na região.

A indignação social surge da descrença nos governos, nas ideologias neoliberais e na própria democracia burguesa. Sem alternativas por dentro dos regimes políticos vigentes, as massas vão à luta. Assim, é também para oferecer uma alternativa que desmobilize a classe trabalhadora do continente que o Papa vem à América Latina. Se o sofrimento na terra conduz ao reino dos céus, não há motivo para não aceitar as condições impostas pela política neoliberal. O papel político desta visita é ganhar das massas inquietas o consentimento para a atual ordem social.

A resposta dos movimentos
A reação dos movimentos sociais durante a visita do Papa não será pequena. Na semana passada, no bairro da Boa Vista, em Recife, cerca de 200 pessoas participaram de uma “malhação de Judas” atrasada. No lugar de Judas, estava um boneco em tamanho natural de Bento XVI.

Nessa sexta-feira, a capital pernambucana será palco de outro protesto, em frente à Basílica do Carmo, às 12h. Além dos Leões do Norte, também participarão o Fórum LGBT de Pernambuco, Católicas pelo Direito de Decidir e Associação das Profissionais do Sexo de Pernambuco. Em Salvador, o Grupo Gay da Bahia fará uma “comissão de recepção simbólica” em frente à Catedral da Sé, no Pelourinho, no dia e hora da chegada do pontífice. Além de distribuir uma nota de repúdio contra o pensamento do Papa, o grupo vai queimar fotos de Bento XVI e outros documentos simbolizando encíclicas papais.

Em São Paulo, haverá uma “vigília” com velas na praça da República, no centro, nesta-quarta, às 19h, para lembrar “os nossos mortos pela homofobia”, disse Beto de Jesus, da Ilga (International Lesbian and Gay Association).

Em Porto Alegre, a ONG Somos criou um logo com a Nossa Senhora Aparecida, contra a homofobia, e está disponibilizando a imagem em seu site para grupos independentes usarem, além de distribuir na cidade 10 mil santinhos com o desenho da santa a partir de domingo. Em Belo Horizonte, o grupo Cellos distribuirá 5 mil camisinhas e uma carta que denuncia a homofobia da Igreja, no dia 13, na praça Sete, no centro da cidade.

Contudo, é preciso atenção: o aparato repressivo montado pelo governo Lula em torno à visita do Papa se assemelha ao esquema que foi feito para a visita de seu colega George W. Bush. A segurança de Bento XVI durante os cinco dias de visita ao Brasil envolverá um batalhão de 10 mil homens da Marinha, do Exército, da Aeronáutica, das polícias Civil, Militar e Federal, além da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) de São Paulo. Mais uma vez, fica evidente o quanto os aparelhos ideológicos e repressivos andam juntos, sob a batuta do imperialismo, para que nada de errado aconteça no espetáculo midiático que está sendo preparado.