O significado do Novo Partido Anticapitalista (NPA) da França

Ao se organizar em torno de “idéias contestatórias”, partido organizado pela LCR, do Secretariado Unificado, aproxima-se do reformismo e abandona a estratégia revolucionáriaNuma entrevista intitulada A extrema esquerda não deveria ser uma reserva indígena, publicado no site de informações Mediapart em 22/05/08, Olivier Besancenot nos apresenta sua visão política e defende o projeto do Novo Partido Anticapitalista (NPA). Começa afirmando, de maneira correta, que as mobilizações do inverno de 1995 marcaram uma virada na luta de classes na França e que “existe uma resistência que permanece e que se exprime mesmo nos momentos difíceis. Muita gente pensava que a eleição de Sarkozy poderia acarretar um golpe nas mobilizações, mas não foi o caso, as resistências continuam”.

Depois, Olivier especifica os objetivos almejados com o lançamento do NPA: “A aposta é dupla. Há conflitos em cascata em setores que não estavam habituados a ter gente entrando na luta. No comércio, Pizza Hut, McDonald´s, Fnac. Então, a primeira coisa pra nós é dar uma resposta política a essa gente que descobriu o engajamento em suas novas lutas. Pra nós, trata-se de estar em sintonia com suas aspirações, de responder à sua vontade de ir mais longe. A segunda aposta é recriar um sentimento de classe majoritário que seja a imagem do proletariado tal como ele existe hoje”.

O primeiro objetivo, ou seja, procurar fornecer uma resposta política à altura da demanda manifesta nas mobilizações, é completamente legítimo. É este, acreditamos modestamente, um objetivo buscado por todo militante político que se respeite, que seja digno desse nome. A segunda aposta parece mais ampla, diríamos. Apesar das lutas em cascata em setores não “habituados a vê-las”, apesar do fato de “jamais ter havido tantos explorados”, o “sentimento de classe” nunca foi tão fraco, afirma Olivier Besancenot. Mas então como explicar todas essas lutas, essas greves, essas ocupações? Seria possível que o sentimento de classe esteja mais forte entre os trabalhadores do que pensa a Liga Comunista Revolucionária (LCR)? Besancenot resume assim seu pensamento: “Então o problema concreto é partir das lutas para reconstruir um sentimento de classe para esse novo proletariado”. Se o objetivo central desse novo partido é de reconstruir um sentimento, por mais honorável que seja, e não de desenvolver a luta, então a burguesia pode dormir sossegada.

Após essa análise político-sentimental, Besancenot prossegue e precisa: “Desde a queda do Muro de Berlim, dizemos que é necessário um novo partido e um novo programa, porque pensamos que há um ciclo histórico que começou em 1917 com a Revolução Russa e que terminou em 1989. Dizer que este ciclo histórico terminou não significa que se deva rejeitar em bloco esse período, mas que é necessário observá-lo para tirar ensinamentos do que se deve ou não fazer, e ao mesmo tempo compreender que estamos em um novo período. A Revolução Russa não pode continuar sendo o ponto de referência que foi para todas as organizações revolucionárias durante um século”.

Agora que a tese está posta, podemos entrar no mérito da questão.

O NPA não é o futuro do movimento operário
Para construir o partido revolucionário, podemos utilizar diferentes mediações táticas. Entretanto, não devemos jamais esquecer o objetivo estratégico, a construção de um partido revolucionário de massas para a tomada do poder pelo proletariado, para a instauração de uma ditadura revolucionária do proletariado, um poder capaz de submeter os elementos mais reacionários da burguesia, de quebrar suas instituições. A instauração de um governo a serviço dos trabalhadores só poderá ser feita a esse preço.

Não poderemos chegar ao socialismo sem passar por um período transitório de duro enfrentamento entre as forças da reação e aquelas da revolução. Este período transitório será mais ou menos longo, o que dependerá do fator subjetivo, do partido e de seu programa. E sobretudo, no quadro do imperialismo, tal batalha será travada e resolvida em grande parte na arena internacional. É esta uma das principais lições da Revolução de Outubro, da falência do stalinismo e de sua teoria dita do “socialismo num só país”. Não se trata apenas de construir “solidariedades internacionais”, mas também de construir uma ferramenta capaz de resistir às instituições militares e econômicas internacionais do imperialismo.

Uma questão secundária…
“Falo a título pessoal. Quando alguém me pergunta quem sou, digo que penso que é necessário derrubar esse sistema e colocar outro em seu lugar. É a natureza de meu engajamento. Depois, cada um tem seu método para o fazer, mas isso é secundário. Não vamos passar nosso tempo a discutir sobre nossa relação com Trotsky e a Revolução Russa. É necessário antes de tudo agir pela revolução. A clivagem reforma-revolução evoluiu. Hoje não há mais revolucionários face a reformistas, mas revolucionários face a gestores do sistema”.

Assim, reformistas “sinceros” e revolucionários poderiam co-habitar num mesmo partido? Então, esse partido não será mais revolucionário! Aliás, o NPA não possui nem mesmo um projeto de sociedade claramente definido. É o que se afirma nas “Resoluções do Congresso Nacional da LCR”: “Dêmo-nos um partido para inventar o socialismo do século XXI”. Ademais, a fórmula é tão vaga que foi retomada por Fabius na sua contribuição para o congresso do Partido Socialista (PS). O antigo primeiro-ministro de Mitterrand propõe “seis linhas diretrizes para um socialismo do século XXI…”. É já um pouco mais preciso.

Nada de projeto de sociedade claramente definido, portanto. A fórmula induz a uma suposição: a de que o socialismo do século XX não é mais atual. Ou, mais precisamente, que as lições e conquistas da Revolução de Outubro empreendida pelos bolcheviques não são mais atuais. Teríamos então mudado de era, não estaríamos mais na época das guerras e das revoluções? Aparentemente sim, teríamos mudado, já que segundo a LCR o socialismo e o comunismo do século XX se reduziriam hoje, no século XXI, a “idéias contestatórias”. No entanto, desde há muitos anos, todas as experiências novas de reforma, por contestatórias que fossem em aparência, tornaram-se inelutavelmente seu contrário. Seja na França (Mitterrand, Jospin), Espanha (Felipe Gonzáles, Zapatero), na Itália (D´Alema), Brasil (Lula), Venezuela (Chávez) ou Bolívia (Evo Morales).

Afirmamos que todos aqueles que se fiam, por pouco que seja, no projeto do NPA, ou reconhecem nele aspectos progressistas ou anticapitalistas se equivocam. Na verdade, esse projeto corresponde à adaptação ao sistema capitalista, via uma política neo-reformista, de uma corrente internacional saída do trotskismo, do Secretariado Unificado (SU). Hoje, o que estrutura essa corrente é a hipótese de humanizar o sistema por meio de sua contestação permanente. Ora, desde o advento da era imperialista tal como definida por Lênin, essa possibilidade não existe mais. Em compensação, após a queda do stalinismo, existe a chance de se construir partidos operários revolucionários pelo socialismo.

A LCR decidiu, por meio de seu projeto do Novo Partido Anticapitalista e das declarações de Olivier Besancenot, romper definitivamente sua ligação com a corrente trotskista de onde ela surgiu, para se transformar em um novo partido de tipo reformista contestatório. Sem nenhum projeto de sociedade alternativa ao capitalismo, sem método ou estratégia revolucionária, o anticapitalismo deste NPA será de fachada. Seu futuro é incerto porque, no terreno do reformismo, do eleitoralismo, existem outros projetos mais ou menos direitistas. A concorrência será dura com os altermundialistas, o Partido Socialista e vários outros.

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