O que a história haitiana nos ensina

A mensagem que as redes de TV e os governos passam do Haiti fala que uma ocupação militar é necessária, pois os haitianos levaram seu país a um caos completo e não têm condição de se governar. Isso é mais do que uma mentira. É a reprodução da ideologia colonial e escravagista. Durante a época colonial, se justificava a escravidão dizendo que os negros não tinham condições de fazer outra coisa que não fosse se submeter aos brancos.

Tanto naquela época como agora, não se pergunta a opinião dos próprios haitianos. Ao invés disso, tropas estrangeiras são enviadas para ocupar o país. Como se fosse para “ajudar os haitianos”, essas tropas garantem a continuidade de uma economia a serviço dos países ocupantes.

Uma revolução que é um exemplo mundial
A história haitiana demonstra exatamente o contrário do que nos dizem. O povo haitiano deu um exemplo para toda a humanidade, com a revolução dos escravos de 1804. Sua miséria não é produto da “incapacidade dos haitianos”, mas da exploração das potências imperialistas, que destruíram o país para obter mais lucros.
Os haitianos foram o único povo de toda a história mundial que realizou uma revolução de escravos vitoriosa. Houve muitas rebeliões de escravos na história, como a liderada por Spartacus, em 74 AC, contra o Império Romano. E muitas outras, no Brasil e nos Estados Unidos. Todas, porém, foram derrotadas, menos a haitiana.
Entre 1791 e 1804, os negros derrotaram os exércitos das principais potências coloniais da época (Inglaterra, Espanha e França). Napoleão Bonaparte invadiu o país para reestabelecer a escravidão com 60 mil soldados, e conheceu no Haiti sua primeira grande derrota militar.

Essa revolução foi também a primeira a libertar uma colônia na América Latina, ajudando, inclusive, Simon Bolívar nas lutas pela libertação diante da Espanha.

Esse exemplo mundial precisava ser apagado pelo imperialismo, pois incomoda até os dias de hoje. Por isso, o Haiti sofreu um boicote econômico duríssimo, e depois uma exploração selvagem que devastou o país. E por isso foi criada essa ideologia, da “incapacidade dos haitianos”. A verdade é que esse povo heróico não só é capaz de se autogovernar, mas também de se rebelar. É para evitar as possíveis rebeliões que o Haiti sofreu tantas invasões, como a atual.

Uma exploração brutal de quase dois séculos pelo imperialismo
A outra versão que pretende culpar os haitianos pelo desastre atual tampouco se sustenta. A verdade é que a exploração imperialista selvagem destruiu o país antes mesmo do terremoto.

Logo depois de se libertar da dominação colonial, o Haiti teve de enfrentar um brutal bloqueio econômico, imposto pelo imperialismo nascente dos EUA e por todas as outras potências derrotadas.

Em 1825, o governo haitiano, formado pelas novas classes dominantes negras, se rendeu ao imperialismo francês, aceitando uma dívida externa de 150 milhões de francos, como indenização pelas propriedades francesas confiscadas pela revolução. Esse acordo buscava romper o bloqueio econômico, mas teve severas consequências para o país. O pagamento dessa dívida, mesmo rebaixada para 90 milhões de francos (21 bilhões de dólares atuais), consumiu 80% do orçamento nacional até o ano de 1947. O Haiti retrocedeu então para uma situação de semicolônia.

Em 1915, os EUA invadiram o Haiti, lá permanecendo por cerca de vinte anos. Praticamente todos os governos haitianos, desde então, foram diretamente dirigidos pelo imperialismo norte-americano. Isso inclui a ditadura de François Duvalier, o Papa Doc – fiel aliado dos EUA (1957 a 1971) que teve continuidade com seu filho Baby Doc, até este ser derrubado por uma revolução democrática, em 1986.

Esse controle da economia haitiana pelo imperialismo provocou verdadeiros desastres. O país que era o maior exportador mundial de açúcar passou a importar açúcar, arroz e praticamente todos os alimentos. Houve uma matança sistemática dos porcos haitianos (fundamentais na economia camponesa) na ditadura duvalierista, com a desculpa de erradicar a gripe suína. Tratava-se de um plano de longo prazo, articulado pelo imperialismo, de destruir as pequenas propriedades da economia camponesa e forçar uma migração para as cidades, fornecendo mão de obra abundante para as indústrias multinacionais.

Ou os governos aplicam o plano econômico dos EUA… ou novas invasões
Depois da queda de Baby Doc, as primeiras eleições reais ocorreram em dezembro de 1990. O candidato do imperialismo, Marc Bazin, conseguiu apenas 14%, sendo eleito o padre Jean-Bertrand Aristide, adepto da Teologia da Libertação. As primeiras eleições relativamente livres no Haiti, após dezenas de anos, levaram ao poder um governo de colaboração de classes, também chamado de “frente popular”. Um golpe militar derrubou o governo eleito sete meses depois, matando cinco mil adeptos de Aristide.

A ditadura militar se afundou em novas crises, e enfrentou uma grande resistência popular. Quando já estava cambaleante, o governo dos EUA (Clinton, na época) fez um acordo político com Aristide. Os EUA invadiram o país pela segunda vez em 1994, depuseram a ditadura e recolocaram Aristide no poder.

O acordo entre Aristide com Clinton para voltar ao poder incluiu o compromisso de impor ele mesmo um plano neoliberal no país. Ele e Préval – o atual presidente do país – impuseram a privatização das estatais e a eliminação das tarifas de importação. Foi o próprio Aristide (reeleito em 2000) que apresentou o plano que criou as 18 zonas francas.

Com a aplicação desta política econômica, Aristide perdeu cada vez mais apoio popular, e o imperialismo resolveu depô-lo em 2004. Em fevereiro, o Conselho de Segurança da ONU legalizou mais uma invasão ao Haiti, agora para tirar do poder o mesmo Aristide. A ONU chamou tropas de ocupação, agora compostas e dirigidas por países latino-americanos. O governo Lula aceitou a liderança da ocupação – atendendo um pedido expresso de Bush –, formada por exércitos do Brasil, Argentina, Bolívia, Chile e outros países.

Nas únicas eleições que a ocupação se atreveu a convocar, em 2006, o candidato direto do imperialismo foi mais uma vez derrotado, tendo 12% dos votos. As tropas de ocupação (sob a direção da embaixada norte-americana) armaram uma gigantesca fraude para evitar a vitória de Préval (candidato do deposto Aristide). Segundo a Folha de S. Paulo, a empresa Boucar Pest Control, contratada pelas tropas da ONU, admitiu ter levado urnas com milhares de votos de Préval para um depósito de lixo.

O conselho eleitoral não queria reconhecer a vitória de Préval, para impor um segundo turno. Milhares de pessoas saíram às ruas contra a fraude. Para evitar uma nova rebelião, o governo recuou e aceitou a vitória. O povo festejou com grandes manifestações.

Mais uma vez, quando chamado para votar, o povo haitiano derrotou os candidatos que identificava com o imperialismo. E mais uma vez foi traído.

Governo Préval e a lei Hope
Uma vez empossado, Préval passou a cumprir o papel de um governo fantoche a serviço da ocupação militar. Aceitou o papel de um presidente que não manda em nada, em um país ocupado por tropas estrangeiras e dirigido pela embaixada brasileira, a serviço de Washington. Seguiu aplicando o plano econômico definido pelo governo dos EUA.
O grande instrumento legal de Préval é a lei Hope. Mais um dos “tratados de livre comércio”, que o imperialismo está impondo aos países latino-americanos. Os acordos retiram todas as barreiras para os produtos e capitais norte-americanos nessas regiões.

No caso haitiano, isso tomou a forma da lei Hope de 2005. “Trata-se de uma lei que abre todas as barreiras para que os dois países possam realizar intercâmbios comerciais livres sem pagar taxas alfandegárias, ou mesmo qualquer taxa que o Estado possa cobrar sobre as mercadorias ou que trave sua livre circulação. As mercadorias indicadas por essa lei se referem aos produtos têxteis provenientes das chamadas maquiladoras”, denuncia a organização Batay Ouvriyé.

Préval, ao voltar dos EUA, onde assinou a lei Hope, anunciou os planos de privatização da telefônica, da saúde, dos portos e do aeroporto.

É na aplicação dessa lei que se entende a construção das zonas francas atuais, onde as multinacionais têxteis produzem para o mercado norte- americano. Essas empresas pagam um salário miserável (equivalente a cerca de R$ 115), com uma taxa de lucros maior do que na China. É por essa razão que se explica a presença de Clinton (mais uma vez na história haitiana) como “enviado especial da ONU para o Haiti”, e os investimentos de George Soros para a construção de zonas francas no país.

Foi contra esse plano que surgiu a grande greve dos operários têxteis, que parou a indústria da capital Porto Príncipe por duas semanas em agosto de 2009, exigindo um salário de 200 gourdes (R$ 190 reais). A greve terminou derrotada pela repressão violenta das tropas da Minustah (dirigidas pelos brasileiros), com duas mortes.

Miséria haitiana é parte de um plano consciente do imperialismo
A miséria do país, portanto, longe de ser expressão da incapacidade haitiana, é o resultado de uma política do imperialismo. É fonte de grandes lucros para as multinacionais que podem explorar a mão de obra haitiana expulsa dos campos e concentrada nas cidades. Os trabalhadores têm de aceitar esse salário de fome ou irão se somar aos 80% de desempregados do país.

Esse plano vem sendo aplicado desde a ditadura duvalierista, com a destruição da economia camponesa. Passou pelo governo de Aristide com a criação das zonas francas, e agora está nas mãos de Préval, com a lei Hope.

Toda vez que pôde, o povo haitiano votou contra esse plano, como em 1990, 1995, 2000 e 2006. Mas em todas elas foi traído. Quando o imperialismo norte-americano sentia que os governos haitianos poderiam opor resistência a esse plano, ou já estavam muito desgastados para aplicá-lo, simplesmente invadia o país. Nas três invasões dos EUA ao Haiti (1915, 1994 e 2004) o imperialismo se apoiou nessa mesma ideologia, culpando os haitianos pelos desastres que são responsabilidade direta do próprio imperialismo. Sempre com o mesmo discurso cínico contra a miséria e a violência dos haitianos. Mas agora conta com a cumplicidade direta das tropas e do governo brasileiro.

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