“O povo haitiano não precisa de ocupação”

Há cinco anos o exército brasileiro lidera uma ocupação militar contra o país mais pobre das Américas. Ao contrário do que é dito, as tropas não estão lá para oferecer uma suposta “ajuda humanitária” ao povo haitiano. Pelo contrário. Nesses anos, colecionaram um farto cardápio de denúncias de violação aos direitos humanos e repressão às lutas dos trabalhadores.

No próximo dia 15, o Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) vai renovar a permanência da Missão de Estabilização do Haiti (Minustah).

Para falar sobre a Minustah, o Opinião Socialista entrevistou Franck Seguy, ativista haitiano da ASID (Associação Universitária Dessaliniana), organização que atua na universidade pública do país e que recentemente esteve ao lado dos trabalhadores nas lutas por aumento de salário. Os ativistas da ASID conheceram a mão pesada da repressão conduzida pela Minustah. Muitos foram presos ou ficaram feridos durante a recente jornada de lutas.

Jeferson Choma, da redação

O Conselho de Segurança da ONU vota nos próximos dias a permanência da missão no Haiti. Que balanço a ASID faz da ocupação, e o que você pensa sobre a renovação?

Em primeiro lugar quero dizer que o povo haitiano não tem mais ilusões sobre o papel da Minustah. Ficou claro para o povo que a missão tem o papel de reprimí-lo, para assegurar o capital transnacional que é investido no país. O discurso de missão de paz, ajuda humanitária, etc., não engana mais. Cinco anos já se passaram e nada mudou de maneira positiva. Todas as mudanças que ocorreram no Haiti foram negativas. A presença militar piorou muito a situação. O povo sofre com a repressão.

Toda vez que a ONU vota a renovação, vem com esse argumento de “missão de paz”. Mas o Haiti não vive uma guerra. Não há um conflito militar de um grupo contra outro. O que temos no Haiti é uma missão que está assegurando os negócios do capital transnacional, reprimindo o povo. A miséria no Haiti é grande. Colocam forças armadas para segurar qualquer explosão.

Para comprovar o que estou dizendo, basta ver os acontecimentos de maio pra cá. A classe trabalhadora do país passou dois anos lutando pelo reajuste de seu salário. O salário mínimo era de menos de 2 dólares por dia. Em 2007 um deputado propôs uma lei pra reajustar esse salário, mas o projeto demorou dois anos para ser avaliado no Congresso. Em maio deste ano, a lei foi aprovada. Mas a burguesia não a aceitou. O presidente tinha então duas possibilidades: derrubar a lei ou sancioná-la. Cumprindo o seu papel de capacho da burguesia, o presidente recolocou o projeto no Congresso para ser reavaliado.

Tudo isso gerou uma situação de luta entre os trabalhadores. E qual foi o papel da Minustah nessa situação? Reprimiu todas as lutas dos trabalhadores que exigiam aumento do salário. Depois o que aconteceu? Uma missão de empresários brasileiros chega ao Haiti no final de setembro para identificar os lugares onde implantar as maquiladoras [indústrias têxteis que se aproveitam da mão de obra barata].

Os Estados Unidos aprovaram uma lei chamada Hope [Haitian Opportunity for Economic Enhancement] que permite aos produtos industriais fabricados no Haiti chegarem aos EUA sem tributação de impostos. Essa lei vai beneficiar os empresários brasileiros que estão investindo no Haiti e poderão vender suas mercadorias sem taxas aos EUA. A razão da Minustah em reprimir o povo era manter o salário mínimo barato para beneficiar os empresários brasileiros. No Brasil o salário mínimo é pouco mais de 450 reais. No Haiti é bem mais baixo.

Recentemente o ex-presidente Bill Clinton visitou o Haiti. Na ocasião, membros da sua delegação falaram que o Haiti poderia ser uma opção “mais barata” à China aos empresários norte-americanos…

Ele tem razão. Como se vê, a preocupação dele não é com o povo haitiano, e sim com os empresários. A lei Hope beneficia os empresários norte-americanos e brasileiros, enquanto ao povo haitiano só resta mais exploração e repressão.
O baixo custo da mão de obra haitiana torna possível que empresas sejam desmontadas nos EUA, por exemplo, para serem montadas no Haiti. Com a crise econômica que eles não podem resolver, o Haiti acaba se tornando uma plataforma de exportação. Sob o olhar deles, o Haiti não é uma nação.

Você falou que a relação entre o povo e a Minustah mudou, que as tropas são vistas como portadoras da violência e da opressão. Essa relação também se transformou com o governo do presidente René Préval? Como o povo o enxerga hoje?

René Préval foi eleito com a ajuda da Minustah, mas também contou com uma forte participação do povo. No primeiro turno das eleições em 2006, ele tinha 49% entre 34 candidatos. Ou seja, ele tinha um peso muito forte. Muitas das pessoas que votaram nele são ligadas ao ex-presidente [Jean Bertrand] Aristides, que até vislumbrou a possibilidade de voltar ao país, após a eleição de Préval.

E hoje, mesmo na classe média, que costuma ter posições mais reacionárias, aumenta a percepção de que a Minustah se constitui como inimigo do povo haitiano. Essa percepção está hoje mais ou menos estabelecida na população e a relação do povo com o presidente mudou muito.

O problema, porém, é a fraqueza do setor popular, que não tem bastante força para dirigir e orientar a luta popular. Isso ajuda muito o governo de Préval que, mesmo com sua fragilidade no setor popular, consegue manter-se no poder. A presença da Minustah ajuda muito, mas se o setor popular tivesse uma organização forte, comprometida com as lutas populares, as coisas poderiam mudar.

No Brasil há um boicote da grande mídia sobre tudo o que se passa no Haiti. Não se fala em repressão, protestos por aumento de salários, nada…

A mídia não tem interesse em falar sobre o que está acontecendo. Tem interesse em falar que o exército brasileiro cumpre uma “missão de paz”. Levaram até o MV Bill para “ajudar” o Haiti. A apresentação de sua visita foi realizada no Domingão do Faustão. Ele foi enviado pela Rede Globo.

O povo brasileiro, que não tem outros meios de saber o que está acontecendo no Haiti, vai achar que o governo brasileiro é um governo bom, que o exército está ajudando um país que enfrenta dificuldades, uma missão humanitária… É essa visão que o povo brasileiro vai ter.

A verdade, infelizmente, só é dita por algumas organizações como a Conlutas, a Intersindical, entre outras. E a verdade é que o povo haitiano não precisa de ocupação. E o que existe no Haiti é uma ocupação que desobedece às leis haitianas.
Por outro lado, a mídia e as empresas brasileiras que estão explorando o Haiti estão ligadas. Seus interesses são os mesmos. Se contassem ao povo o que realmente se passa no país, correriam o risco de ver os brasileiros manifestarem sua solidariedade ao povo haitiano, pedindo a retirada das tropas. Essa é justamente a principal reivindicação do povo haitiano.

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