O outro lado dos jogos Pan-Americanos

Desde o dia 13 de julho, boa parte da população está acompanhando a realização dos Jogos Pan-Americanos. Mas o evento está longe de ser apenas um momento da consagração esportiva. Já nos seus preparativos, os jogos foram marcados por denúncias de remoção e despejo de moradores, repressão e muita corrupção. A milionária festa de abertura da 15° edição dos jogos, que custaram cerca de R$ 1,8 bilhão aos cofres públicos, pretendia esconder as sangrentas ações policiais nas favelas cariocas – com fartas denúncias de matança de inocentes –, além da corrupção que envolve as obras. Mas a verdade é que o evento está mostrando todas as mazelas sociais do país com mais clareza do que nunca.

Vaias pan-americanas
A pomposa festa de abertura do Pan reuniu, segundo os organizadores, cerca de 90 mil pessoas no monumental estádio do Maracanã. Dezenas de autoridades estavam presentes, como o prefeito e o governador do Rio de Janeiro e o presidente Lula. Todos querendo colher as glórias políticas do evento.

Mas algo fugiu ao roteiro oficial: as vaias para Lula. Apesar de toda demagogia, parece que o presidente não pegou carona na beleza da abertura dos jogos. Bastava ser anunciado no microfone ou surgir com a sua imagem no telão do estádio para que o público o vaiasse de forma retumbante. Ao todo, Lula recebeu seis vaias e passou pelo constrangimento de ser o primeiro chefe de Estado a não fazer a abertura oficial do Pan. A cena final mostrou o presidente, com um papel na mão, pronto para declarar o Pan oficialmente aberto. Mas, diante das vaias, o presidente do COB (Comitê Olímpico Brasileiro), Carlos Arthur Nuzman, retomou o microfone e poupou Lula de um novo constrangimento, fazendo ele mesmo a declaração de abertura.

Nunca um presidente havia sido vaiado por um Maracanã lotado. Absolutamente surpreso, Lula teve que ouvir aquelas vaias geralmente dedicadas a um jogador mau-caráter e a gatunos juízes de futebol.

Não demorou muito para que os “puxa-sacos” do governo tentassem explicar as vaias pan-americanas. “Achei que as vaias foram orquestradas. Era só observar de onde vinham”, disse o ex-presidente da UNE e atual ministro do Esporte, Orlando Silva (PCdoB). Já o partido do ministro formulou uma desculpa ainda mais absurda, dizendo que as vaias foram para os atletas dos Estados Unidos. Vexame total.

Os “puxa-sacos”, possivelmente, vão tirar da cartola novas desculpas para defender Lula. Fazem isso para esconder que a máscara do presidente está caindo e que o governo começa a sentir o peso do desgaste.

Pan, pan, pan, boom!
O evento também está sendo utilizado como pretexto para uma nova política de repressão. Não foram coincidências as ações da polícia nas favelas do Complexo do Alemão, que mataram 50 pessoas e deixaram mais de 70 feridos. A repressão é estimulada pelo governo estadual com a chamada “promoção por bravura”. Trata-se de uma lei que concede gratificações salariais para policiais que demonstrem “bravura”. Na prática, estes benefícios têm sido utilizados para recompensar policiais que assassinaram suspeitos de crimes, independentemente das circunstâncias.

Entre as vítimas das ações policiais, está o jovem esportista e jogador de futebol Leandro da Silva David, de 16 anos. Ele foi baleado dentro de casa quando tomava café da manhã. A irmã do garoto, Jane da Silva David, acusa a polícia pelo assassinato. “Ele foi atingido por balas de fuzil da Polícia Militar. As pessoas acham que todo mundo é vagabundo, traficante, mas aqui também tem morador”, disse ela indignada.

Ao contrário do que diz o governo, o objetivo das ações policiais no Rio não é apenas combater narcotraficantes, mas reprimir a população de acordo com uma política de higienização da cidade. Isso significa que o plano considera toda a população da comunidade ocupada como uma força hostil e, portanto, alvo da repressão. Os civis inocentes assassinados em tais operações passam a ser considerados “danos colaterais” inevitáveis, como disse o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

Esse modelo é uma cópia do que as tropas brasileiras fazem na ocupação do Haiti, onde soldados invadem e ocupam favelas, deixando rastros de sangue e destruição.

Por outro lado, a grande imprensa aplaude a repressão da população pobre e realiza uma sistemática campanha para ganhar o apoio do setor da população mais amedrontado com a criminalidade.

Lula já anunciou que pretende estender as ações de repressão para outras localidades. Além de manifestar apoio à chacina no Alemão, dizendo que não se combate o crime com “pétalas de rosa”, o presidente anunciou que as ações no Rio inauguram o novo modelo de repressão para todo o país. O chamado PAC da Segurança anunciado pelo governo prevê a ocupação de comunidades pela Força Nacional de Segurança em várias partes do país.

Onze regiões metropolitanas receberiam as tropas num primeiro momento. A força nacional reforçada atuaria nas periferias de São Paulo (SP), Vitória (ES), Belém (PA), Recife (PE), Maceió (AL), Salvador (BA), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR) e Brasília (DF).

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