O naufrágio da grande imprensa

Enchentes no Norte e no Nordeste enfrentam um verdadeiro boicote midiáticoAs enchentes que castigam os municípios do Norte e do Nordeste são mais uma tragédia enfrentada pela parcela mais pobre da população brasileira. São mais de 1 milhão de afetados. O número de mortos já passa de 40.

No entanto, chama a atenção o total descaso da grande imprensa e do governo diante deste flagelo. O corte de verbas de R$ 1,7 bilhões no Ministério da Integração Nacional, responsável pelo resgate de vítimas de desastres, é um dos exemplos mais gritantes. Até agora, o governo se limitou a abrigar uma parte da população afetada em locais públicos, como escolas e galpões precários.

Muitos desabrigados tiveram de trocar de alojamento depois que eles também foram atingidos pelas águas. É o caso da aposentada Antônia Feitosa, 62, entrevistada pelo jornal Folha de S.Paulo. Ela disse que foi obrigada a se mudar cinco vezes. “A gente fica para lá e para cá, que nem cachorro perdido, sem saber para onde ir, sem conseguir se sentir em casa em nenhum lugar”, declarou.

Por outro lado, a grande imprensa praticamente ignora a dimensão da tragédia. No mês passado, contudo, a mesma imprensa deu um destaque imenso a uma outra tragédia, os terremotos que atingiram o centro da rica Itália e mataram cerca de 300 pessoas.

Na ocasião, jornalistas da rede Globo realizaram transmissões ao vivo, com atualizações e novas informações sobre esse desastre que, sem dúvida, foi monstruoso. As primeiras páginas dos jornais foram infestadas por imagens do terrível drama enfrentado pelos italianos.

Também salta aos olhos o tratamento totalmente distinto que a grande mídia dá às enchentes atuais com o desastre que atingiu Santa Catarina no ano passado. Naquela ocasião, a nação inteira foi convocada pela mídia para socorrer os catarinenses. Artistas e empresários convocaram até a formação de uma corrente de ajuda. Mas, agora, o silêncio impera diante da agonia do povo do Norte e do Nordeste.

Mas qual é a razão para as atuais enchentes praticamente sumirem da pauta dos grandes jornais? Por que não se mostram cenas da situação dos abrigos abarrotados de gente pobre em condições precárias de higiene? Como disse o jornalista Alberto Dines, a verdade é que a grande imprensa “está se lixando para as enchentes”. Principalmente por ela se abater sobre as regiões mais miseráveis do país e por atingir, sobretudo, gente pobre que sempre “se virou” diante do descaso dos governantes. No mapa da pobreza no Brasil, Maranhão, Pará, Ceará e Piauí disputam o topo.

O descaso com as enchentes nessas regiões é mais uma triste mostra do preconceito e da exclusão sofrida por sua população. A enchente também é uma prova do completo naufrágio da grande imprensa e dos governantes.