“O feijão tem de durar para o dia seguinte”

Dejanira Gonçalves Santos, 33 anos, solteira e mãe de dois filhos, realiza trabalhos domésticos em São Paulo para sobreviver. Ela ganha cerca de R$ 600 por mês. Dejanira, ou simplesmente “Deja” faz parte da legião de milhões de brasileiros atingidos pela inflação dos alimentos, especialmente da alta de 207% do feijão no último ano. “Eu tenho dois filhos, um de 11 anos outro de 6. Eles precisam comer feijão todos os dias. Mas hoje eu tenho que diminuir. Como o salário que eu ganho, não tem outra solução”, explica ao Opinião.

Ela relata que, em função da alta dos preços, agora utiliza apenas um copo de feijão para cozinhar. “Antes eu costumava a cozinhar com dois que era pra dar caldinho para meus filhos. Mas isso tem de durar pro dia seguinte também”, diz.

Além de ter de diminuir a compra de alimentos para casa, Dejanira também conhece o outro lado dessa história. Ela trabalhou por anos na colheita de café na cidade de Utinga, próxima à Chapada Diamantina, na Bahia. Lá, como todos os trabalhadores, era submetida a uma jornada de trabalho extenuante e baixíssimos salários. “Saía de casa às 4h da manhã, pegava o transporte e chegava na roça. Saía de lá só às 5h da tarde”, diz. Os momentos de folga eram raros e ela trabalhava todos os sábados.

Ela explica que a remuneração era por produtividade, embora relate que na firma onde trabalhava, “eles registravam a gente com R$ 350, mas quase nunca recebíamos o valor. Era sempre menos”. Dejanira nunca recebeu um salário de R$ 400 – piso dos trabalhadores rurais que trabalham no corte de cana em São Paulo. Paradoxalmente, a fome bateu em sua porta justamente quando trabalhava na produção de alimentos. “Quando faltou comida me deu desespero de ver duas crianças dentro de casa sem ter o que comer”, conclui.

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