O dia-a-dia em um pronto-socorro público

Um dia em um pronto-socorro (PS) público é uma experiência revoltante. Para quem trabalha nessa área há muitos anos, a sensação é que cada dia a situação fica pior.

Os PSs públicos vivem superlotados. Nos corredores, enfermarias improvisadas são montadas, com pacientes amontoados, como na foto da capa desta edição. Muitos gemem, reclamam a atenção que não vem. Frascos de soro vazios pendurados denunciam o atraso na medicação.

As condições de trabalho são geralmente péssimas. Em uma semana, faltam analgésicos; na outra, a fita para fazer o dextro (teste para avaliar o nível do açúcar em diabéticos); na seguinte, o eletrocardiograma está quebrado.

Os pacientes esperam horas para serem atendidos. Quando chegam à consulta, já estão enraivecidos. Depois, vem o inferno para conseguir os remédios, em falta em muitos postos de saúde, e o povo não pode comprá-los. Além disso, muitas vezes o paciente é encaminhado para um especialista (cardiologista, endocrinologista etc), e a demora é de três ou quatro meses para o atendimento.

Os funcionários ganham pouco e trabalham muito. Seus salários estão congelados há dez anos. Recentemente, uma greve em São Paulo conseguiu, depois de mais de um mês, um reajuste de menos de R$ 100 para os auxiliares de enfermagem. Estes auxiliares precisam ter pelo menos dois empregos, para ganhar um salário decente.

Os médicos têm uma carga horária de 90 horas semanais, ou mais, em vários empregos. Em todos os PS que conheço, existem muitos médicos que trabalham 120 horas semanais. Não é difícil imaginar como vivem cansados e irritadiços, sem tempo para estudar ou sequer ter vida pessoal. Em um dia de PS, os médicos atendem, freqüentemente, de 80 a 100 pacientes.

Nas salas de emergência, todos os dias duras escolhas são feitas. Como não há vagas suficientes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), é preciso escolher quem tem mais chances de sobreviver para ser atendido. Os outros ficam com suas chances ainda mais reduzidas.

Os conflitos são inevitáveis entre os pacientes, revoltados pelo péssimo atendimento, e os trabalhadores da Saúde, insatisfeitos com os salários e as condições de trabalho. O problema é que nem uns nem outros são responsáveis por essa situação e, sim, o governo, que não investe na Saúde Pública.

Eduardo Almeida é médico de pronto-socorro em São Paulo

Post author Eduardo Almeida, da redação
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