O ano em que nasce uma alternativa para os lutadores

Congresso Nacional dos Trabalhadores (Conat) foi marco no processo de recomposição do movimento socialA crise política que abalara 2005 se apaziguava. Nos subterrâneos do Congresso, o acordão entre a direita e o PT abafava qualquer sinal do escândalo para abrir caminho à disputa presidencial que polarizaria as eleições. A CUT, mais do que nunca, aprofundava seu atrelamento ao Estado, asfixiando qualquer tipo de mobilização que pusesse em risco a reeleição de Lula.

No entanto, o ano em que tudo conspirava para ser um período marcado pelo ceticismo, pelo desânimo e pela prostração no movimento de massas, termina marcado por um evento histórico na luta de classes e na reorganização dos trabalhadores no Brasil. O Congresso Nacional de Trabalhadores, o Conat, deu um decisivo impulso à construção de uma alternativa de luta para a classe, coroando um processo que se aprofunda nacionalmente na base de diversas categorias.

Uma trajetória de luta
O Conat representou um marco na construção da Conlutas, iniciada em março de 2004 durante o Encontro Sindical Nacional em Luziânia (GO). Naquele momento, após inúmeras traições perpetradas pela CUT demonstrarem que o atrelamento desta central ao Estado era irreversível, setores independentes e combativos do movimento sindical se reuniram para organizar a resistência contra o governo Lula e as reformas.

A partir daí, a necessidade de uma nova alternativa que superasse a CUT só aumentou. Por todo o país, as rupturas e desfiliações mostraram o crescente repúdio das bases ao governismo descarado da entidade. Organizada pela Conlutas, uma grande manifestação contra as reformas reuniu cerca de 8 mil pessoas no dia 17 de junho de 2004 em Brasília, e revelou nacionalmente essa nova organização, inclusive à grande imprensa.

Durante a crise do mensalão em 2005, enquanto a CUT se esforçava para defender o governo e acusar uma imaginária “conspiração” das elites, a Conlutas foi a única organização nacional que impulsionou atos contra o governo Lula e sua política econômica. Tal mobilização culminou num protesto em Brasília que reuniu em torno de 12 mil pessoas no dia 17 de agosto.

O descompasso entre a CUT e a grande maioria dos trabalhadores ficou evidente quando a central, junto com a UNE, organizou uma manifestação a favor do governo nas vésperas do ato da Conlutas. Como não poderia deixar de ser, a manifestação governista desaguou num tremendo fiasco, aumentando a desmoralização dessas entidades. A vitória do protesto da Conlutas contra o ato governista, além de ter sido um fato histórico, demonstrou o adiantado processo de reorganização.

No dia seguinte ao ato, o II Encontro Nacional da Conlutas lançou as bases para o I Congresso Nacional da Conlutas, que foi realizada no início de 2006. Em todo o país, a organização das caravanas para o congresso ocorreu em meio ao aprofundamento da crise da CUT e à ampliação das desfiliações de sindicatos.

Embora o desgaste do governo e da CUT, assim como a construção da Conlutas, tenha no funcionalismo público sua vanguarda, a realidade mostrou que a reorganização do movimento sindical e popular não se restringe a esse setor. Mesmo com a desigualdade de ritmo, a recomposição abrange todos os setores da classe. Tal fato ficou evidente no Conat, que reuniu milhares de ativistas de diferentes categorias na cidade de Sumaré (SP).

Congresso histórico
Realizado nos dias 5, 6 e 7 de maio, o Conat teve 3.232 participantes de todas as regiões do país, entre delegados, observadores e convidados. Sindicatos, oposições e entidades do movimento popular, social e estudantil participaram do congresso, contabilizando um total de 581 delegações. Após um profundo debate democrático, método há muito abandonado pela CUT, os delegados aprovaram a fundação oficial da Conlutas enquanto entidade.

A imagem da bandeira da Coordenação Nacional de Lutas tremulando em meio à chuva de papel picado e à alegria dos milhares de ativistas vai ficar gravada na memória de todos os que presenciaram esse momento. A fundação da Conlutas marca um momento decisivo da reorganização, atingindo um grau de importância comparável ao I Conclat, em 1983, que lançou as bases para a construção da central que se tornaria, poucos anos depois, a principal central classista da América Latina.

A construção de uma entidade alternativa à CUT evitou a dispersão dos setores que rompiam com o governo e sua central, provando que a recomposição é um fato objetivo da realidade. Cumpriu, ainda, o objetivo de lançar a iniciativa de reunir e organizar todos os setores explorados da sociedade, como os sem-terra e os sem-teto. O PSTU se orgulha de ser parte deste processo, com um setor do PSOL e com uma ampla gama de movimentos e correntes políticas, numa estrutura de direção democrática.

No entanto, embora tenha sido um importante momento para a consolidação da Conlutas, o Conat não encerrou sua construção e tampouco fechou o atual ciclo de reorganização. Ao contrário, o congresso foi um impulso inicial que, se num primeiro momento, injetou ânimo novo a milhares de lutadores, posteriormente mostrou os desafios que estão por vir.

A luta contra as reformas engatilhadas pelo governo para o próximo período, como as da Previdência e trabalhista, exigirá o fortalecimento da coordenação e a união de todos os setores combativos que se colocam contra esses ataques.< Post author
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