O 1º de Abril de 1964: o governo Jango e o golpe

Em 1º de abril de 1964 abriu-se uma nova etapa na luta de classes no Brasil. O exército brasileiro através de um golpe militar derrubou o governo legalmente constituído de João Goulart, o Jango, e iniciou uma profunda contra-revolução no país.

O governo João Goulart, de características frente populistas (de coalizão de classes), foi por assim dizer o mal menor para a burguesia. Contudo suas alas mais conservadoras jamais o quiseram no governo.

Em 1961 ao ser empossado, Jango teve seus poderes de presidente tolhidos por um “parlamentarismo” arranjado. Nos anos seguintes e, malograda a experiência parlamentar, João Goulart volta a ter plenos poderes em uma realidade conturbada e de crescente ascenso revolucionário das massas trabalhadoras do país.

Embora contasse com o apoio do PTB (o partido contava então com uma importante ala esquerda nacionalista), onde então estavam as principais direções sindicais e do PCB, que na ilegalidade (ou semilegalidade) mantinha ainda uma forte expressão no movimento dos trabalhadores da cidade e do campo. Algo que por si só não era o suficiente para conter as lutas dos trabalhadores, pois, na verdade ascensão da luta dos trabalhadores era irresistível.

Vale a pena dizer que, ao contar com o apoio dessas duas organizações (PTB e PCB) que dirigiam a classe trabalhadora, o governo de Goulart tinha importantes características frete populistas. Além disso, o principal movimento camponês, as Ligas Camponesas, era dirigido por um advogado e deputado pelo PSB, Francisco Julião.

O PSB em 1961 defendeu a posse e o governo do vice-presidente João Goulart e quando esse assumiu o governo o apoiou. A UNE , outra importante entidade a época, defendia a reforma universitária no contexto das reformas de base propostas pelo governo Jango.
Assim, os principais movimentos populares e partidos de esquerda ou estavam no governo de Jango, ou o apoiavam.

A Situação Revolucionária
Entre 1961 e 1964 quadruplicou o número de greves econômicas nos serviços e na indústria. Os grevistas chegaram a 5,6 milhões, caracterizando o maior ascenso grevista da história do país até aquele momento. Em outubro de 1963 ocorreu uma grande greve, conhecida como a greve dos 700 mil, resultado da unificação de diversas campanhas salariais de diversos setores operários, como químicos, alimentação, metalúrgico, têxteis, calçadistas, entre outras. No campo, as Ligas Camponesas no nordeste e a ULTAB, principalmente no sul, ocupavam terras e realizavam lutas em defesa dos trabalhadores.

No entanto, o que mais era assustador para a burguesia foi a ruptura da cadeia de comando nas forças armadas. Em 12 de setembro de 1963 uma rebelião promovida por cabos, sargentos e suboficiais, sobretudo da Aeronáutica e da Marinha do Brasil, em Brasília, motivada pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de reafirmar a inelegibilidade dos sargentos para os órgãos do Poder Legislativo, conforme previa a Constituição de 1946, ficaria conhecida como a revolta dos sargentos.

Igualmente assustador, para a burguesia, foi o levante dos fuzileiros navais. “No dia 25 de março de 1964, poucos dias antes do golpe militar que derrubou João Goulart, o presidente da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, fez um veemente discurso durante ato comemorativo do segundo aniversário da entidade. O discurso teve grande repercussão e, para pressionar o comando da Marinha a rever as punições aplicadas contra 12 dirigentes da AMFNB, a entidade resolveu transformar a comemoração em assembléia permanente, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. Fuzileiros navais enviados ao local para debelar a sublevação uniram-se aos amotinados, abrindo uma gravíssima crise na Marinha. O movimento só foi sufocado com a ajuda de tropas da Polícia do Exército, mas Jango deu mão forte aos marinheiros, substituiu o Ministro da Marinha e mandou libertar os marujos. Dias depois, era deposto.”, relata Franklin Martins no artigo “O incendiário discurso do Cabo Anselmo – 1964”

Nas cidades, as greves, manifestações e a organização da classe trabalhadora, mesmo sob a direção de uma pelegada implacável, preocupavam demasiadamente a burguesia brasileira e ao seu patrão, o imperialismo norte-americano. Não bastasse isso, este último tentava ainda deglutir o grande problema que era o surgimento de um regime comunista no seu quintal. Cuba era então uma fonte interminável de problemas para o imperialismo ianque e todos os seus aliados na América Latina. A política norte-americana era clara: isolar e derrotar a revolução o mais rápido possível.

João Goulart tentou ter uma política “independente” e em 23 de novembro de 1961 reatou relações diplomáticas com a URSS, rompidas no governo Dutra; manifestou-se contrário às sanções impostas ao governo cubano e recusou-se a apoiar a invasão a Cuba, proposta pelo presidente Kennedy. Ao mesmo tempo, tornou explícita sua crítica ao regime político cubano e atuou, a pedido dos Estados Unidos, como mediador junto a Havana, externando a preocupação brasileira com a instalação de mísseis soviéticos na ilha. (citado do www.portalbrasil.net/politica_presidentes_jango.htm). Tal “linha política” era inaceitável para Washington.

O desfecho de 1º de Abril
Assim, o governo de Goulart se encontrou preso em múltiplas contradições:

1 – A de ser um governo burguês atípico, cuja uma importante parcela não o reconhecia como seu, mas ao contrário viam como uma porta para a entrada do “comunismo”.

2 – Sua necessidade de apoiar-se em setores do movimento de massas o obrigava a fazer (ou prometer) reformas, ao mesmo tempo em que tinha que combater as alas mais “radicais” desses movimentos.

3 – A situação internacional obrigava-o a buscar um equilíbrio difícil entre ter uma política internacional “independente” e não se enfrentar com o imperialismo norte-americano

Essas contradições, a impossibilidade de equilibrar-se, levaram de forma inelutável ao golpe de estado reacionário de 1º de Abril de 1964.
As políticas do PCB e PTB, de apoio ao governo até a véspera do golpe, arrastaram a classe trabalhadora junto na derrota de Jango e desarmaram política e ideologicamente esta mesma classe trabalhadora para o enfrentamento com a ditadura militar.

  • Veja o artigo A esquerda brasileira e a opção pela guerrilha, no especial Maio de 68